Açores - à deriva pelo oceano


São famosas as quatro estações num só dia, mas a fama não é correcta, numa só hora navega-se de um esplendoroso dia de primavera para um carregado dia de Outono, que se alivia com chuva forte mas rápida e dá lugar ao sol que enxuga as ilhas.
Há locais que estão tão impregnados em magia que ao viajar de novo para casa paira a ideia de se ter vivido a realidade de um sonho e não umas férias inesquecíveis.

Terceira

Terceira
Nas paisagens bucólicas recortadas pelas hortênsias do seu interior escondem-se segredos como o Algar do Carvão. É uma gruta escavada pela lava a uma profundidade impressionante que proporciona a experiência de passagem do mundo da luz - cheia de exuberância vegetal - às trevas, com uma acústica que pede canto gregoriano, quase o ouvimos. No fundo um grande lago que estremece as entranhas da terra. É passear nos intestinos de um vulcão em actividade, agora fóssil.
Angra do Heroísmo é uma cidade que apetece percorrer a pé, com um jardim maravilhoso e cheia de gente descontraída e simpática. Nota comum em todos os açorianos. Traços de personalidade que marcam tanto o sentir das ilhas como o mar, a geografia ou as brumas.
O Monte Brasil é uma pequena península que avança pelo mar carregada de floresta onde se encontra a imperdível Vigia da Baleia, um miradouro branco, com uma casinha que protege do sol quem ali vá. À sua frente o mar cristalino e azul, e com sorte a emoção de avistar cetáceos brincalhões ou pesados.
Há mais, toda a costa sudoeste é bonita e se decorrerem as festas de Verão, não perder a tourada de corda, única no país, a única que não choca os defensores dos direitos dos animais – touro e homem, mano a mano – apenas uma corda limita o bicho de não correr mais do que uma certa extensão. Em Porto Judeu por exemplo, O resultado é hilariante. O touro chega a parecer aqueles cães que correm por tudo e por nada à caça de uma bola. Por vezes acerta-lhe.





S. Miguel

S. Miguel
A maior ilha e onde a comunicação pode ser mais difícil. O sotaque é mais cerrado que em qualquer outro local, mas é uma questão de treino. São precisos alguns dias para percorrê-la toda. É um verdadeiro parque de diversões para amantes da natureza, tem tantas atracções que é necessário fazer uma lista.
A não perder: A Lagoa do Fogo, de arrepiar de tanta beleza; a Lagoa das Sete Cidades; as Furnas e os seus banhos em D. Beija, águas quentes brindadas pela montanha; Ferraria, na costa norte, banhos quentes/escaldantes em pleno oceano Atlântico – só entrando naquela água se acredita; o ilhéu de Vila Franca, um enorme rochedo oco, lá dentro esconde uma praia paradisíaca; a Caldeira Velha, a praia de Santa Bárbara, o Nordeste da ilha, etc, etc.
Na ilha de S. Miguel começamos a pactuar daquilo que é a surrealidade dos Açores, experiências de beleza tão fortes que mais facilmente associamos ao reino da fantasia do que à paisagem de uma ilha a navegar no oceano.
Caso não se frequente muito Ponta Delgada, uma cidade muito bonita porém, a capacidade que as ilhas têm de resgatar o tempo aos seus contornos apressados começa a fazer-se sentir. Os nevoeiros que aparecem e desaparecem retiram ao transeunte as pressas, aqui a instabilidade climatérica cria uma certa estabilidade emocional: não existem preocupações quando todos os impulsos têm uma única vontade – apreciar.












Ilha das Flores