Ilha da Madeira

Enfrento a Madeira, porque as suas escarpas não se percorrem nem dominam, torneiam-se. A costa norte é clivosa, tão inclinada como o inferno, tão bela como a floresta que resiste aos aluviões. Dei comigo no Jardim do Mar, localidade encantada, com uma calçada minuciosa e povoada de ar puro. Gente que vai às lapas antes do almoço. É aqui, logo abaixo, que encontro um dos maiores disparates da Madeira. Ao longo da orla do Jardim do Mar houve uma intervenção absurda que revolta os locais e todos os de bom senso. Construíram uma promenade, como aqui lhe chamam, um passeio pedestre ao longo do mar. Nada teria de mal, nada teria de ilógico, se não tivesse acabado, praticamente, com uma das melhores ondas da ilha, como corria a fama “ O Havai da Europa”. A verdade é que o turismo que movimenta os praticantes desta modalidade é uma fonte de desenvolvimento para as localidades, ainda por cima, identificado com o bem-estar ecológico. A onda já não existe e a promenade está vazia. Quem lucrou com isto? Como diria Aristóteles: só existe um bem, o conhecimento; só existe um mal, a ignorância. Subo ao lindíssimo edifício Casa das Mudas, do arquitecto Paulo David; exemplo do que a engenharia bem garantida pela boa arquitectura consegue enriquecer e projectar a paisagem. Dali entro nas mil curvas e curvetas dos montes pela estrada regional até chegar a Porto Moniz. A costa Norte é desafiante. Mais à frente, o Seixal mostra as suas águas límpidas, o fundo não é um segredo. As altas encostas devem ser vaidosas porque espreitam o espelho do mar, continuamente se inclinam sobre o seu reflexo. Túneis furam as serras com claustrofobia dentro. Levam-nos de um lado ao outro da ilha, quase. Há momentos em que o túnel se evapora e reaparece a luz do dia. É o vale. Reentra-se de novo nos subterrâneos, abandonando-se momentaneamente a condição sublunar, até que a luz se abra de novo e tal como Zarco e Tristão, suspire-se: “Terra à vista”. Aviso à navegação No Funchal há um grito que arrepia, o eco do apito dos barcos. São estes pavilhões flutuantes que animam a economia da ilha, nesta fase em que os aviões que aqui pousam estão em decréscimo. O apito dos enormes barcos ressoa pela cidade em ronco gutural que o anfiteatro devolve ao mesmo tempo que todos os sons da cidade são engolidos. Uma das primeiras vezes que ouvi este som encontrava-me numa livraria impressionante. Dizem que o seu dono tem o anseio de ter a maior livraria o mundo. O nome é concordante – Livraria Esperança. Ao contrário do habitual posicionamento dos livros, alinhados por lombadas, aqui estão dispostos com a capa de frente para os leitores em estantes sucessivas forradas centímetro a centímetro. Mesmo nas estantes de lado podem observar-se, pois cada livro é pendurado com um gancho. Há-os no tecto. Há-os no chão, em janelas a serem comidos pelo sol enquanto vêem as vistas. Cada um fala mais alto que o outro, mesmo que nenhum levante mais o tom do que um sussurro. Quis ler tudo ao mesmo tempo, peguei em mais de 40 exemplares, à vez. Inúmeros autores desconhecidos, centenas de autores amados e revisitados. Milhares de autores perdidos. O primeiro que agarrei foi uma encomenda de um colaborador do Jornal de Letras que só aqui conseguiu encontrar um exemplar. Comprei ainda Eusébio Macário, de Camilo Castelo Banco, Perto do Coração Selvagem de Clarice Lispector, Histórias do Bom Deus de Rainer Maria Rilke e uma edição recente, chancela Quetzal, A Anatomia da Errância, do meu herói Bruce Chatwin. No Jardim Botânico fingi que o Funchal era a minha cosmopolita quinta florida. Entretenho-me com a escolha de qual começar primeiro enquanto as quentes pedras de basalto onde me sentava recarregavam a energia. Considerações de aeroporto Levo na mala um festival literário e uma série de amigos recentes. São notáveis estes madeirenses que conheci. Em todos encontrei essa necessidade de não me deixarem partir sem perceber o que tem afinal esta ilha de magnético. A poncha é boa é certo (uma perdição), as montanhas imponentes, tudo bem, as Levadas são experiências inesquecíveis, o mar é sincero e o Funchal um teatro que representa bem a peça. Mas o que a Madeira tem que me fará cá voltar é a enorme vontade com que esconde os seus segredos. O truque deste impressionante mundo atlântico é ir e estar nos sítios certos, com pessoas que tenham vontade de ser continentes e não ilhéus. Tive essa sorte.

Ilhas, Aviões e Livros


FESTIVAL LITERÁRIO DA MADEIRA

Aqui me encontro, a convite da Booktailors e Nova Delphi. Apetece-me estabelecer um paralelo entre ilhas, aviões e livros.

Como a praia nos desnuda a todos, assim pode funcionar um livro. O sabor dos livros não é aparência e os livros têm o sabor da existência...quantas vezes!

O livro que leio, é um avião que me coloca numa ilha.

Este é um encontro de escritores e leitores que não têm medo do vôo, muito menos de demonstrarem a sua insularidade.

Ilhas são locais de nuvens com apetrechos tão úteis como a solidão. Os livros são a nossa sorte. São as montanhas de 1862 metros prontos a crescer um pouco mais.

Possam as ilhas ser aviões, e os livros objectos voadores.

Obrigada à organização por nos permitirem a nós e aos madeirenses participar neste pequeno foguetão.