Marvão - A Grande Muralha





Sem suspeita do mais leve desentendimento, Luís olha para Joana e anuncia o porquê destes dias no Marvão:
- Há cinco anos foi aqui que a pedi em casamento. Aceitou. Agora todos os anos voltamos, tem de ser…
Joana tem atrás de si uma muralha que se vincula teimosamente ao horizonte. E campos a perder de vista preenchidos de Alentejo, Espanha e Beira Baixa. Daqui, Portugal inteiro parece caber nos olhos de quem os abra.
Joana e Luís acreditam que neste lugar celebram as coisas boas da sua relação e são muitos os turistas que já descobriram este segredo em forma de burgo amuralhado, revisitando-o como um ritual.
Discreto como um décimo quinto andar, é talvez o melhor duplex do país.
Para lá chegar é normal que se passe pelo belíssimo triângulo Portalegre - Castelo de Vide – Marvão, deixando este último para o final, à moda das bodas de Caná.
Depois da estrada encurralada em freixos, todos pintados com uma larga faixa branca – imagem já capturada para a publicidade a um automóvel dado o seu impacto - a subida começa a prometer vistas largas e um povo resguardado.
Quem primeiro se lembrou de aproveitar a melhor torre de vigia das redondezas, fortificá-lo e ali constituir família, descendência?

Um homem. Ibn Maruán, nobre estirpe emeritense, notabilizado devido à luta contra o Emirato de Córdova no último quartel do séc. IX.
A verdade é que o monte de tão fortificado pela imaginação da natureza, quer pela sua altitude – 849,5 metros no seu ponto mais alto, quer pela sua extensa crista quartzítica – a Serra do Sapoio é escarpada e de forte declive em toda a sua extensão Sudoeste, serviu de refúgio quase invencível aos seus ocupantes. O valor geoestratégico foi confirmado pelos cristãos a 1226, quando concedido o foral no reinado de D. Sancho II.
Repercutiu-se ao longo dos tempos, quase mil anos depois de Ibn Maruán, aquando das invasões francesas, escrevia-se nos relatórios que “se apresenta como a chave da porção de fronteira a proteger contra um inimigo que estivesse estacionado em Valência de Alcântara”.
Deduz-se a dificuldade em povoar o lugar, não seria grande o apelo a viver em cima de uma fraga sem água nem terra disponível para cultivar.
Através de vários incentivos, no séc. XVI a vila atinge a maior ocupação demográfica, decaindo a partir daí até aos dias de hoje, quando só se contabilizam 100 pessoas a viver intramuros.

Poucos mas bons, a população reparte os esforços para manter a cidade viva e dinâmica no acolhimento aos turistas, inovadores nas actividades culturais que oferecem aos membros do concelho.
O GAD e o Fundo de Apoio à Empresa, espera que os jovens proponham projectos que valorizem a economia da região, permitindo que se fixem na terra. A verdade é que há um grande número de hectares de terreno em regadio à espera de ser cultivado.
Como afirma José Manuel Ramilo, vereador da Câmara do Marvão.
“A terra, que é um bem escasso no país, está disponível no Marvão. Só dentro da muralha há 17 restaurantes, só com a restauração local podíamos consumir a quantidade de produtos que a nossa terra tem capacidade para dar ”.
Os filhos da terra muitas vezes regressam para aqui desenvolver os seus projectos, ou então mantém uma ligação forte como Nuno Vaz da Silva que trabalha na Caixa Geral de Depósitos em Lisboa, mas não deixa os créditos da sua terra natal por mãos alheias: “ Não podemos estar à espera de que as outras pessoas se lembrem de nós, é preciso fazer qualquer coisa para isso”.
Tiago Gaio, que trabalhou para o Oeinerge até 2007, onde desenvolveu o projecto pioneiro de recolha de óleo para reciclagem, voltou para o Marvão onde trabalha na área de eficiência energética na iluminação pública. Aqui implementou-se o melhor sistema de reciclagem do país. “Segundo dados estatísticos – afirma – Marvão e Vila de Rei são os municípios que mais reciclam os seus resíduos”.
O grupo de vinte homens que joga à malha num campeonato local tem poucas preocupações deste género. O alvo é abatido muitas vezes para gáudio dos mais expressivos. O segredo, dizem os entendidos, está na confiança com que se atira o disco.
Saberão eles que o site trypadvisor referenciou Marvão como um dos dez segredos mais bem guardados do mundo?

Lançando um olhar nas aldeias e terrenos em volta, reconhece-se a presença de imensas árvores autóctones portuguesas. Estamos num Alentejo de carvalhos, castanheiros, choupos, e muitas outras que aqui encontram o clima certo.
Na escuridão da madrugada, Marvão parece lava a derramar sobre o monte, ou caramelo a escorrer sobre o chocolate negro e indistinto da noite.
À noite ganha um estatuto teatral, como um ser imaginário, uma criatura extensa e planadora, um invasor extraterrestre.
Pede uma visita insistentemente.
A aprovação da candidatura a património mundial da Unesco é um acontecimento há demasiado tempo pendente. Se tal acontecesse amanhã já não seria cedo.
O castelo foi recuperado e toda a vila apresenta um esmero digno de dia de festa prolongada ao longo de 365 dias por ano.
Cairá algum dia na mão de outro povo que não os portugueses? Resistirá? É pouco provável, mas conseguirá o Marvão resistir ao abandono caso deixe de existir quem o cuide? E se a solidão for o seu último e desleixado ocupante?

Maio 2011