Jornal de Letras - há algum tempo escrevi a rubrica "Diário" - agora divulgo.

Santo Antão - Cabo Verde.

Raquel Ochoa
34 anos, publicou duas biografias e três romances, um dos quais distinguido com prémio literário revelação Agustina-Bessa-Luís, mas começou por escrever uma crónica de viagens “O Vento dos Outros”. Chama-lhe “língua-mãe” e o seu percurso explica porquê.

Mundo aos goles (pouco) espaçados

Agosto de 1999
Percorrer a Europa para fugir dela, já havia pressa de compreender o que consistia o além, sondar o transcontinental, e por isso, com três amigos, o interrail tinha a Capadócia em mente, passando por Itália, ilhas gregas, entrada por Ankara e longos percursos de autocarro até ao casario de cavernas, a paisagem de deserto esculpido.

Agosto de 2000
Foi tão grande o impacto da primeira viagem que logo se criou nova oportunidade de partir. Desta vez, outro interrail, sem companhia a maior parte do tempo, pelas ilhas croatas, ao longo da Europa do Leste, Alemanha e Holanda. Viajar só com a mochila, um caderno e dois livros foi tão ou mais importante do que a licenciatura de Direito. Houve a descoberta de um limite. Nas montanhas Tatra na Polónia soube o que é afinal a solidão. A solidão sinónimo de beco sem saída. Por saber como é e como se chega ali, nunca mais me visitou. Talvez uma das maiores conquistas da minha vida.

Março de 2001
Primeira viagem à Índia. Há sempre uma enorme dificuldade em descrever a Índia porque é falar de um território longínquo que todos levamos cá dentro.
Além de Damão e Goa, viajei com uma amiga indo-portuguesa até Kanyakumari, o ponto extremo sul. A disponibilidade dos vinte e um anos constatou que todos somos mágicos se entendermos que a bondade é uma arma. É uma terra onde a energia que nos rodeia deixa uma impressão táctil. A Índia serviu para recalcular o que já havia aprendido e assimilado. Nada é definitivo e derradeiro.

Setembro de 2002
Segunda viagem à Índia.
Insisto. A Índia é gigante. Havia tudo para a aprender e desta vez, com outra amiga, além de Goa e Damão, percorro o norte com a fúria de me embrenhar nas montanhas. Rajasthan vai ficando para trás na direcção do Nepal, um dos melhores países que este mundo nos oferece. Por cada estado que passo, o reconhecimento de um país diferente, com a sua língua (dialecto), seus trajes, seu tom de pele, seus costumes. Um comboio parado à força na linha e apedrejado enquanto dormia uma sesta foi uma das múltiplas peripécias. A Índia começa, neste encontro, a revelar a sua faceta violenta, convulsiva, injusta para tantos. O ideal seria pensar com o coração e sentir com o cérebro, vou constatando ao longo dos quilómetros. Ao chegar ao Nepal, os Himalaias revelam-se muito mais imensos do que o imaginário permitia. Por Pokara subi até Poon Hill. Dali, dos seus 3200 metros de altitude, prometo: se Deus me deu pernas, foi para vos subir.
“E se o mundo, penso, só existisse para eu o conhecer? E se a mente for afinal o maior abismo, o maior mistério, e o globo apenas o cenário requintado e acessível para, aos poucos, a ir domando?”

Setembro de 2004
Primeira viagem à América do Sul.
Acabo o curso e decido ir respirar.
Costa Rica como porta de entrada, o país da maior biodiversidade é um enxame de ruídos, animais, florestas independentes, vulcões a dormir e a fulgurar. Conheço índios verdadeiros que viajaram pela Europa durante anos e americanos que emigraram para aqui por não aguentarem o sistema de leis dos Estados Unidos.
Um mês depois, voo para o Peru. Tenho um mapa completíssimo e traço uma linha por sobre os Andes. Deste modo evito a rota mais frequentada para chegar a Cusco.
Dias e dias de montanhas mareadas, umbigos do mundo que hoje em dia, mesmo tendo lá andado, nem acredito como possam ser habitados. Gente a sair de autocarros com enxadas e picaretas, sacos de sementes e uma vida de trabalho. Uma leve aflição por estar no meio de um oceano de montes, descendo e subindo a pique todos os caminhos. Os quilómetros aqui eram gargantas sucessivas, dragões quietos amarelados, encimados por cumes de neve a expulsar nevoeiros.
De Cusco atiro-me a Machu Pichu que depois do caminho inca me recebe de braços abertos. Ali pertenço, estranha e solidária sensação com os milhares de visitantes daquele dia, creio que acontece a todos.
Arequipa e Lago Titicaca para a despedida.

Entro no Chile pelo Norte, e atravesso o Deserto do Atacama sempre por terra. Das doze regiões do Chile, estive em nove, até lá abaixo, o país a desfilar nas vitrinas do autocarro. Um mês e três semanas a perceber a originalidade das gentes encravadas entre os Andes e o Pacífico. Trago no bolso areia do deserto mais seco do mundo, fotografias de cidades como Coquimbo e Valparaíso e músculos nas pernas de caminhadas na Patagónia. Os olhos, e as emoções, esbugalham-se. Contabilizo mais algumas lições, tal como a procura só vale a pena se formos corajosos na espera.

Argentina, mi amor. Há portugueses por todo o lado, na Terra com nome de Fogo e em Ushuaia, extremo austral do mundo, encontro-os.
No meu diário de bordo, já com uma América às costas, escrevo:
“O fim do mundo é o que tu quiseres. É uma cidade ou uma vila, uma aldeia ou três casas.(…)
Tem árvores tortas, dobradas ou arrancadas pelo vento. O fim do mundo essencialmente tem vento. Que nunca é discreto, nunca é sopro, nunca é brisa. É uma besta, um cabo Adamastor só de ouvido, um louco transeunte que grita tudo o que diz, tudo o que as pessoas não querem saber e, disfarçando, fingem não o ouvir nem o ver. (…)
No fim do mundo sente-se que se chegou longe, mas que afinal não era tão longe assim.”
Ainda vou a Buenos Aires, Cataratas de Iguaçu e Florianópolis para finalizar o périplo de seis meses.
Regresso a casa como se tivessem passado três dias.

Novembro de 2006
Brasil, Florianópolis
A última viagem afinal não estava acabada. Havia um livro para escrever sobre ela e pessoas a rever. Passo aqui dois meses a acabar “O Vento dos Outros”. Compreendo afinal porque escrever um livro é mencionado como uma das mais importantes experiências da existência. Mudou-me a percepção do tempo, eliminou-me conflitos internos, senti-me útil como poucas vezes. Tinha esta surpresa no caminho. As palavras afinal não eram deusas a guardar nos cadernos de memórias. Viajar afinal não era um prazer solitário, até egoísta. Era a catapulta para a escrita. Ao escrever um, acenderam-se dez livros em mim.


Março de 2006
Cabo Verde
A enseada perfeita. Motivada a escrever a biografia de Bana, por lá andei a tentar compreender a alma crioula.

Agosto de 2006
Buenos Aires
Viver como os porteños durante alguns meses. A cidade alia charme e loucura. Quanto mais diferente é um povo, melhor entendo o nosso. Aqui escrevo boa parte de “Bana – Uma Vida a Cantar Cabo Verde”.

Março de 2007
Índia e Nepal outra vez.
Goa, Damão e Diu. Finalmente completo a trilogia. Passo algum tempo a investigar para o meu próximo livro. Chegara o momento de me aventurar num primeiro romance. E outros dois meses entregues ao percorrer do norte oriental da Índia. Varanasi para estimular a circulação sanguínea, por se afigurar tão forte e impressionante. Sikkim, o Estado dos Himalaias tropicais, predominantemente budista impõe a permanência de um mês inteiro. Atravesso a fronteira e de novo encontro-me no Nepal. Tempo de cumprir promessas. De Jiri a Kala Patar, 21 dias a caminhar pelo maciço central do Everest, até o ver de frente, com os pés fincados a 5545 metros de altitude. Este momento sabe a conquista e a privilégio, doem os pulmões e a cabeça, vê-se a montanha mais alta do mundo com definição HD e no entanto é difícil de acreditar que se está mesmo aqui. É como se uma imunidade nos escolhesse e ao mesmo tempo um condão para compreender a pequenez do indivíduo.

Dezembro de 2009
A Índia em Portugal.
Chega a notícia de ser “A Casa-Comboio” o vencedor do prémio literário revelação Agustina-Bessa Luís, o acontecimento mais marcante desde que decidira escrever, acontecesse o que acontecesse.

Setembro de 2011
Seis meses pela Ásia e Oceânia
Singapura no seu desfile de impecável organização, asseio e luzes abre o trem de aterragem. Malásia e a obrigatória Malaca, de seguida Bali que ainda conserva alguns recantos pitorescos mas não passa de um paraíso que vendeu a alma ao diabo, há muitos anos. A velha máxima: quando os ocidentais descobrem o paraíso deixa de o ser. Sidney e Melbourne para me reformular por completo o conceito de cidade (de e para pessoas). Nova Zelândia, as duas ilhas calcorreadas, imitando um batedor. Um país três vezes maior que Portugal habitado por quatro milhões de habitantes. A cada quilómetro espanta um pouco mais. Os antípodas e a costumeira atracção pelos confins transmitem-me uma cómica satisfação pessoal, o de “saber” de que tamanho falamos quando falamos de “meio mundo”.
Hong Kong e Macau para de novo fazer vénia a prodígios civilizacionais. Abrandei o ritmo na Índia onde apresentei “A Casa-Comboio” a convite do Instituto Camões e fui espreitar dois estados que não conhecia.
O Sri Lanka surge no final da viagem. Ainda há sítios com a possibilidade de nos colocarem nas mãos todas as possibilidades.
Parto sempre com um íntimo desejo, o vício da volúpia do conhecimento.
Regresso confirmando uma impressão com a qual muitos concordarão. Vagabundear é obrigação do Homem, se quer ser feliz.











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