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Perahera - encontrar o maior festival do Sri Lanka


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Perahera
Em Kandy é considerado o maior espectáculo e demonstração cultural do país, mas a versão indiscutivelmente menor que me tocou na zona de Aluthgama (talvez um vigésimo da sua dimensão)já deixa uma bela impressão. Sendo um festival budista que celebra o primeiro ensinamento de Buda depois da Iluminação, exibe em procissão uma das suas relíquias. Relaciona-se também com uma outra procissão em tempos considerada essencial para chamar a chuva.
Os primeiros rapazes trazem longas cordas castanhas, são chicotes mas mais fazem lembrar um peludo animal comprido. A forma como o projectam no ar produz um som tremendo - sem nos bater, o som chicoteia. Uma vez que não guardam grande distância entre si, não é compreensível como conseguem não se maltratar uns aos outros ou mesmo a assistência acotovelando-se para os ver.
Depois desta abertura surge o primeiro elefante. Vestem-no com uma indumentária carregada de electricidade, com luzes ocupando toda a sua cabeça e tromba mas deixando os grandes olhos em busca do que o rodeia. Olhos extraordinários, muito maiores e mais sábios que os dos humanos, naqueles olhos cabem todas as bênçãos que os cingaleses piamente acreditam receber e por isso o veneram.
A seguir passa o primeiro grupo de dançarinos. Com trajes brancos, vermelhos e dourados, dançam com gestos exuberantes sob os seus chapéus pontiagudos. Estão coordenados na sua dança dispersa. Segue-de um grupo de dançarinas. Vão-se intercalando.

A procissão dura oito quilómetros e envolve vinte elefantes altamente decorados. Alguns, no momento em que a procissão faz um compasso de espera, movem as cabeças e patas dianteiras num movimento dançante, por mais inacreditável que pareça.
Cada grupo de dançarinos mantêm ininterruptamente a sua coreografia. Às vezes são homens mascarados, ou gente a dançar em andas de dois metros. Outros dançam com fogo.

Quando Fernão de Queirós, padre da Companhia de Jesus,  viajou pelo Ceilão, deixou escrito o suficiente para hoje em dia ser estudado por M.D. Raghavan, etnólogo do Museu Nacional do Ceilão; “Queirós ficou impressionado com o papel das dançarinas – algo bastante normal nas procissões dos templos do Sul da Índia e Ceilão. Os templos mantinham famílias de dançarinas e músicos que eram remunerados com terras.”

É de justiça portanto, trazer aqui a própria fala de Fernão de Queiróz, tido como o mais importante historiador daquela época no Sri Lanka, desenterrando dos séculos passados a sua obra “Conquista Temporal e Espiritual do Ceilão”. Pelas suas palavras imagino-o chocado, engasgado e motivado a divulgar aquilo de que fora testemunha.
“As procissões Peraheras duravam 16 dias, algumas tendo lugar de dia, outras à noite, pelo que se contabilizavam 32 – e as da noite eram as mais concorridas. Nelas as mulheres tomavam parte com as mesmas liberdades que um Festim em honra de Baco. “
Hoje em dia, essas liberdades são dignas de se ver. Em cada grupo do desfile salta à vista essa liberdade criativa que, passem os séculos que passarem,continua a ser o destino do Homem.




Perahera

In Kandy it is considered the greatest spectacle and the best demonstration of national culture in Sri Lanka. The version I witnessed in the Aluthgama region, although undeniably smaller (perhaps one twentieth in scale) is enough to make a lasting impression.

The Perahera, a festival to commemorate his first teaching  following the enlightenment, is a procession to display one of the relics of the Buddha, but also relates to another traditional parade, once thought essential for the bringing of rains during Sri Lanka's wet season.

The first wave of boys hold long brown ropes, which they yield as whips, but bring to mind long furry animals.  When thrust into the air they produce a tremendous noise and, without being touched, we are lashed in our seats by the explosive sound.

With so little distance between each whip bearer, it is hard to understand how they avoid hurting either each other, or the gathered throng pushing forward from the roadside for a better view.

After this overture of cracks serges forth the first elephant.  Draped in electrified costumes, the lights cover their heads and trunks, but leave the giant eyes free to search their surroundings.  The eyes are extraordinary; much larger and wiser than man's.  They are filled, as the Sinhalese believe so devoutly, with all their blessings, for which they venerate these giant beasts of burden.

Next to pass is the first group of male dancers, in costumes of white, red and gold, dancing with exuberant gestures beneath pointed hats, coordinated in their erratic movement, followed by streams of dancing girls.

This chain of coloured man and elephant marches eight kilometres and involves twenty of the highly decorated beasts.  Some, as the procession pauses, move their heads, trunks and front feet in dancing movements, as incredible as this seems to the observer.

Each group of dancers stays locked in choreography.  Some are masked men, others on stilts three metres high or dancing with burning rings of fire.

When the Jesuit priest Fernão de Queirós travelled to Ceylon at the end of the seventeenth century, he left substantial accounts to be studied today by M.D. Raghavan, ethnologist of the National Museum of Sri Lanka, who says:

De Queirós has over-draw the picture of the place of the women dancers – who in the early and late Middle Ages were a feature  at all temple processions in South India and Ceylon, and temples maintained families of dancers and musicians, who were remunerated by lands held on service tenure “.

It would be unfair however not to hear Fernão de Queirós in his own words, unearthed from the centuries that have passed since his work, The Temporal and Spiritual Conquest of Ceylon.

“This is the ancient King of Kotte signified by certain celebrated processions called peraheras, which last 16 days some being held by day and others at night which amounted to 32, and these by night were more famous. In them woman took part with the same licence as in the Feast of Baccus.

These days, such liberties require a look. From each group of the procession leaps the creative freedom that, no matter the number of centuries that pass, remains the destiny of all man. 

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