A Cratera de Pinatubo - Filipinas



(English version below)
A subida à cratera Pinatubo consistiu em duas partes perfeitamente distintas.
Fizemo-nos à estrada ainda de noite, às cinco. Montados no jipe, aguardava-me a viagem mais dura num 4x4 de que tenho memória.
Deixa-se o alcatrão e as facilidades da vila de Botolan para se mergulhar numa extensão de areia cinzenta. O veículo cambaleava, e com ele os corpos, como bonecos. Logo de seguida, sem aviso, o piso torna-se tão pedregoso que é como se os pneus nos bombardeassem.
Ora bem, até aqui, foi divertido.
Chegou o rio, muito largo mas com pouca profundidade. Uns aldeões acabavam de o atravessar com um potente búfalo e carroça. O condutor pediu-lhes instruções – garantindo-nos portanto que ele não tinha certeza do que fazia. A ofensiva ao rio aconteceu a alta velocidade. Água espirrou por todo o lado, para dentro do jipe e das nossas coisas, mas isso por enquanto são tudo danos colaterais.
Quando, em terra firme, a velocidade aumentou, todos os passageiros deram um salto num súbito piso irregular que levou o casal dos bancos detrás a descolar até ao tecto. Ele feriu-se no braço ao aterrar.
- Hey cowboy - dissemos como clientes surpreendidos - this is not a race! - A partir daí não há dúvida que diminuiu a velocidade.
As montanhas, de cores avermelhadas, alaranjadas e verdes, mantinham-se ao longe, mas como se erguiam em coro à volta daquele vale esbranquiçado, causavam sensação à vista. O vale era um desses lugares que , à semelhança do deserto, não têm pontos de referência, e por isso demoram a atravessar.
Quando por fim foi dominado, o jipe entrou num canyon estreito, uma fenda roubada à pouco tempo (geológico)e que os humanos começaram a trilhar para aceder às aldeias mais altas, mas tudo ainda carece de sedimentação, numa jovem construção da natureza.
O jipe estacionou num declive e daí para a frente, começava a segunda parte, a caminhada.
Esta subida ao Pinatubo foi organizada e paga ao departamento oficial de turismo das Filipinas e era de esperar que por esta altura, pelo menos, já soubéssemos o nome do guia que ia no banco da frente. Soterrado em sacos que decidira trazer para entregar a aldeões no fim da viagem, não dizia uma palavra em inglês. Só porque o tal casal que se juntara era composto por uma filipina e um canadiano, se pôde por esta altura compreender que ele serviria de guia.
Ali estava aquele senhor sem dizer uma palavra e a cumprir o seu papel silenciosamente, indicando um caminho que qualquer pessoa, desde que não fosse cega, conseguiria ver.
Gostava de saber mais da história daquele sítio. Em 1991 uma erupção particularmente abrupta surgiu da cratera que agora, depois de uma caminhada de duas horas, estava à minha frente na sua paz de 26 anos, abrigando um lago de cor verde intensa, como se tivesse engolido uma floresta inteira.
Varreu as encostas que acabáramos de subir e destruiu a vida a milhares de pessoas. Atingiu a vila de Botolan (sobretudo com as suas espessas cinzas) e obrigou de forma directa a  evacuar as pessoas das aldeias das montanhas.
De novo, na cratera, tive a impressão do periclitante daquelas encostas brancas e estriadas. Curiosamente é o que torna aquele lugar diferente dos outros.
O regresso à viatura fez-se sem nada relevante. O tempo entretanto acabrunhara-se e até tivemos de fugir de alguns pingos da chuva.
No jipe a condução foi garantidamente mais suave, à excepção das grandes subidas onde não há outra hipótese senão prego a fundo.
O tempo foi piorando e uma nuvem cinzenta e espessa pairou sobre a região. O vento aumentou com força.
De novo no grande vale cinzento, já sem a cor bonita das montanhas que desaparecera sem a luz directa do sol, apercebo-me: não eram nuvens o que nos rodeava, nem era pó que cobria as nossas roupas, mas cinzas persistentes.
Dali a algum tempo, quando abandonámos o jipe, já na cidade,e mesmo no dia seguinte, confirmei o que fui sentindo em todo o caminho: devido aos ventos furiosos que se puseram de feição, a localidade de Botolan, a contragosto, estava invadida. Máscaras nos rostos de muitos concediam um certo consolo aos meus pulmões zangados.
Mas, voltando ao jipe.
Aproximávamo-nos do maior rio. O condutor não escondia a pressa de lá chegar e agora, com ele à nossa frente, percebia-se porquê - o caudal tinha aumentado.
Recebeu instruções pelo walkie-talkie. Um grande camião do exército estava na outra margem. Ocorreu-me que aguardariam pela travessia do jipe para terem a certeza de que a poderiam fazer.
Hesitante, mas sem outra opção, o jipe atirou-se à água. Afundou-se imediatamente muito mais do que à ida e a partir daí começou a luta entre o fundo do rio, suas pedras, troncos, cinzas, areias - e um motor com uma força impressionante, capaz de navegar, quase.
De qualquer forma foi muito violento para o “casco”. Sons ocos de pedras como balas abafavam por completo os nossos risos iniciais. Sentiu-se uma breve ameaça de ficarmos atolados. Logo de seguida, a tracção desapareceu momentaneamente ficando expostos ao rio sem a força motora do jipe, e não sou eu que o digo mas a excitação do condutor para os homens que estavam no camião militar na outra margem,quando lá chegou, todos alegrando-se por aquilo que lhes pareceu um grande feito.
Pouco depois observei o camião voltando pelo mesmo caminho que nós. Resta-me concluir que ali se encontrava para intervir se algo corresse mal.
Afinal, o departamento oficial de Turismo das Filipinas não é assim tão repreensível.

Nota: a erupção do vulcão Pinatubo em 1991 foi considerada um dos piores desastres de uma década em que as Filipinas foram particularmente afectadas por catástrofes naturais. A economia nacional sofreu um abrandamento considerável.
Morreram setecentas pessoas  e duzentas mil ficaram sem casa.





(English Version)
The Pinatubo Crater
The ascent to to the crater of Mount Pinatubo is achieved in two distinct stages.
Hitting the trail in the dark of 5AM, as we climbed in the Jeep one of the toughest 4x4 trips I can remember was waiting for us.
Leaving behind the tarmac and the facilities of the town of Botolan, Zambales we plunged into the expanse of grey sand.  The vehicle swayed and lurched, and with it our bodies rattled like marionettes.  Soon and, without warning, the terrain turned so stony it seemed as if the tyres were being hit by a hail of bullets.
Oh well, this seemed liked fun so far.
We came to the river, vast in its breadth but shallow.
Some local villagers were reaching the end of the crossing on a wagon pulled by a powerful buffalo. Our driver asked theirs for advice, thereby confirming our suspicions  that he wasn't completely sure how the crossing should best be approached.
The assault on the wide expanse of water began at high speed, the water spraying up in directions, including inside the Jeep and on us and our things.  For the  time being this didn't seem  too serious however.
When, having reached dry land, the speed increased, we hit an irregular piece of ground and all the passengers were lifted skyward.  The couple on the benches at the rear of the vehicle were catapulted highest,  their heads hitting the roof and the man catching his arm on the descent.
"Hey cowboy!" - cried the client in panic and surprise.  "It's not a race!"
From that moment on our pace was undoubtedly more leisurely.  The mountains, in reds, oranges and greens, remained at a distance, but gave a sensational view as they rose like a choir around the whitened valley.
The expanse of the valley was such that, as in the desert, there were no reliable points of reference, making our progress across seem slower than it probably was.
When finally the valley ended, the jeep entered a narrow canyon, a crevice opened very recently (in geological time) which humans had begun to clear as a path to access the high villages.  It still had the fragility typical of a young geological feature of the earth and was, along its whole length, spectacular to see.
Eventually the jeep parked on a slope and we began the second stage, on foot.
We had organised and paid for our route to the top of Pinatubo  through the Tourist Department of the Philippines.  By then we thought it strange that we hadn't yet learned the name of the guide sitting in the front seat, buried by backpacks which he handed over at the end of the journey to the villagers who accompanied us on a motorbike.
It turned out that he didn't speak a word of English, and it was only thanks to the fact that the couple comprised one Filipina and one Canadian that we even understood that this man was supposed to be our guide.
Once on the trail the man would, without speaking a word, perform his duties silently, indicating a route that each of us, not being completely blind, were already quite able to see.
I wanted  to know more of the history of this place. In 1991 a particularly abrupt eruption had risen from the crater that now, after a two hour hike, was before us in its 26-year repose, cradling a lake of intense green colour, as if an entire forest had been engulfed.
The lava had swept down the slopes we just climbed and destroyed the homes and lives of thousands.  The eruption had reached as far as the town of Botolan (mainly with a dense covering of ashes) and forced those residents of the mountain villages lucky enough to have the time, to evacuate immediately.
Back in the crater I could feel the precariousness of those white slopes and cracks which, curiously enough, made that place feel so different from any other.
The return to the vehicle was without incident.  In the meantime the sky had begun to  close in and we had to hurry to escape the little drops of rain we were starting to feel.
In the jeep the driving began much more smoothly, with the exception of the larger bumps over which the driver had no other option but to put his foot down.
The weather continued to deteriorate and a thick dark cloud was hovering overhead. The wind was also picking up.
Once back in the wide grey valley, where the pretty colours of the mountains had already vanished without the sunlight, I realised that I had been mistaken, it was not the clouds that was surrounding  nor dust that covered our clothes, but the lasting ashes of the eruption from over a quarter of a century ago.
Some time later, having left the jeep and back in the city, and even during the next day, I saw confirmation of what we had felt throughout the hike: owing to the furious winds that blew in its face, the town of Botolan was still being overwhelmed.  Noticing the masks on many peoples faces gave a strange comfort to my burning lungs.
But, back in the jeep we were approaching the broad river.  The driver was not hiding his hurry now, and we began to understand why; the flow had been increasing significantly since that morning.
He consulted someone over the walkie talkie.  A large army truck was stationed on the other side.  It occurred to me that it may have been awaiting the outcome of the jeep's attempt at a crossing before considering its own.
Hesitant, but with no other option, the jeep plunged into the water. Immediately it was submerged much deeper than it had been on the way up.  From there began the struggle between the bed of the river, with its rocks, tree trunks, sand and ashes – and an engine with an impressive power that made it able to navigate the river, almost.
However the crossing seemed very violent for the jeep's 'hull'.  Hollow sounds of rocks like bullets hushed our initial laughter as we briefly felt a slight threat of being stuck.  Soon after that, the contact with the riverbed disappeared momentarily and we found ourselves at the river's mercy without any input from the engine.  If I had been in any doubt that this had really happened, it was eliminated by the screams of excitement  the driver gave to the men in the military truck once we were safe on the other side, all of them celebrating what must have seemed quite an achievement.
Shortly after we saw the truck following us back to the town. It seemed like it had only been there to assist if things had taken a wrong turn.
In the end, the Department of Tourism of the Philippines didn't seem quite so reprehensible.

Note: The Eruption of the Pinatubo volcano in 1991 was considered one of the worst  in a decade of catastrophes in which the Philippines was  particularly affected by natural disasters.  The nation's economy suffered a considerable slowdown.
Seven hundred people died and two-hundred thousand lost their homes.

Perahera - encontrar o maior festival do Sri Lanka


SEE BELOW FOR THE ENGLISH VERSION



Perahera
Em Kandy é considerado o maior espectáculo e demonstração cultural do país, mas a versão indiscutivelmente menor que me tocou na zona de Aluthgama (talvez um vigésimo da sua dimensão)já deixa uma bela impressão. Sendo um festival budista que celebra o primeiro ensinamento de Buda depois da Iluminação, exibe em procissão uma das suas relíquias. Relaciona-se também com uma outra procissão em tempos considerada essencial para chamar a chuva.
Os primeiros rapazes trazem longas cordas castanhas, são chicotes mas mais fazem lembrar um peludo animal comprido. A forma como o projectam no ar produz um som tremendo - sem nos bater, o som chicoteia. Uma vez que não guardam grande distância entre si, não é compreensível como conseguem não se maltratar uns aos outros ou mesmo a assistência acotovelando-se para os ver.
Depois desta abertura surge o primeiro elefante. Vestem-no com uma indumentária carregada de electricidade, com luzes ocupando toda a sua cabeça e tromba mas deixando os grandes olhos em busca do que o rodeia. Olhos extraordinários, muito maiores e mais sábios que os dos humanos, naqueles olhos cabem todas as bênçãos que os cingaleses piamente acreditam receber e por isso o veneram.
A seguir passa o primeiro grupo de dançarinos. Com trajes brancos, vermelhos e dourados, dançam com gestos exuberantes sob os seus chapéus pontiagudos. Estão coordenados na sua dança dispersa. Segue-de um grupo de dançarinas. Vão-se intercalando.

A procissão dura oito quilómetros e envolve vinte elefantes altamente decorados. Alguns, no momento em que a procissão faz um compasso de espera, movem as cabeças e patas dianteiras num movimento dançante, por mais inacreditável que pareça.
Cada grupo de dançarinos mantêm ininterruptamente a sua coreografia. Às vezes são homens mascarados, ou gente a dançar em andas de dois metros. Outros dançam com fogo.

Quando Fernão de Queirós, padre da Companhia de Jesus,  viajou pelo Ceilão, deixou escrito o suficiente para hoje em dia ser estudado por M.D. Raghavan, etnólogo do Museu Nacional do Ceilão; “Queirós ficou impressionado com o papel das dançarinas – algo bastante normal nas procissões dos templos do Sul da Índia e Ceilão. Os templos mantinham famílias de dançarinas e músicos que eram remunerados com terras.”

É de justiça portanto, trazer aqui a própria fala de Fernão de Queiróz, tido como o mais importante historiador daquela época no Sri Lanka, desenterrando dos séculos passados a sua obra “Conquista Temporal e Espiritual do Ceilão”. Pelas suas palavras imagino-o chocado, engasgado e motivado a divulgar aquilo de que fora testemunha.
“As procissões Peraheras duravam 16 dias, algumas tendo lugar de dia, outras à noite, pelo que se contabilizavam 32 – e as da noite eram as mais concorridas. Nelas as mulheres tomavam parte com as mesmas liberdades que um Festim em honra de Baco. “
Hoje em dia, essas liberdades são dignas de se ver. Em cada grupo do desfile salta à vista essa liberdade criativa que, passem os séculos que passarem,continua a ser o destino do Homem.



Perahera

In Kandy it is considered the greatest spectacle and the best demonstration of national culture in Sri Lanka. The version I witnessed in the Aluthgama region, although undeniably smaller (perhaps one twentieth in scale) is enough to make a lasting impression.

The Perahera, a festival to commemorate his first teaching  following the enlightenment, is a procession to display one of the relics of the Buddha, but also relates to another traditional parade, once thought essential for the bringing of rains during Sri Lanka's wet season.

The first wave of boys hold long brown ropes, which they yield as whips, but bring to mind long furry animals.  When thrust into the air they produce a tremendous noise and, without being touched, we are lashed in our seats by the explosive sound.

With so little distance between each whip bearer, it is hard to understand how they avoid hurting either each other, or the gathered throng pushing forward from the roadside for a better view.

After this overture of cracks serges forth the first elephant.  Draped in electrified costumes, the lights cover their heads and trunks, but leave the giant eyes free to search their surroundings.  The eyes are extraordinary; much larger and wiser than man's.  They are filled, as the Sinhalese believe so devoutly, with all their blessings, for which they venerate these giant beasts of burden.

Next to pass is the first group of male dancers, in costumes of white, red and gold, dancing with exuberant gestures beneath pointed hats, coordinated in their erratic movement, followed by streams of dancing girls.

This chain of coloured man and elephant marches eight kilometres and involves twenty of the highly decorated beasts.  Some, as the procession pauses, move their heads, trunks and front feet in dancing movements, as incredible as this seems to the observer.

Each group of dancers stays locked in choreography.  Some are masked men, others on stilts three metres high or dancing with burning rings of fire.

When the Jesuit priest Fernão de Queirós travelled to Ceylon at the end of the seventeenth century, he left substantial accounts to be studied today by M.D. Raghavan, ethnologist of the National Museum of Sri Lanka, who says:

De Queirós has over-draw the picture of the place of the women dancers – who in the early and late Middle Ages were a feature  at all temple processions in South India and Ceylon, and temples maintained families of dancers and musicians, who were remunerated by lands held on service tenure “.

It would be unfair however not to hear Fernão de Queirós in his own words, unearthed from the centuries that have passed since his work, The Temporal and Spiritual Conquest of Ceylon.

“This is the ancient King of Kotte signified by certain celebrated processions called peraheras, which last 16 days some being held by day and others at night which amounted to 32, and these by night were more famous. In them woman took part with the same licence as in the Feast of Baccus.

These days, such liberties require a look. From each group of the procession leaps the creative freedom that, no matter the number of centuries that pass, remains the destiny of all man. 

Paris, Sintra e um harém marroquino em Lisboa.


(publicado pelo Jornal de Letras, Julho 2015)

Raquel Ochoa viveu o último ano entre Paris e Sintra enquanto escreveu sobre a história verídica de um harém marroquino perdido na Lisboa setecentista. A autora de “A Casa-Comboio”, “Mar Humano” entre outros, acaba de lançar o romance histórico “As Noivas do Sultão”. E conta-nos um pouco dele.

31 de Dezembro de 2014
Passagem de ano nas ruas de Paris. Bom champanhe. Já a fazerem a festa não há tanto talento.

2 de Janeiro de 2015
Mas o início do ano está salvo com a ida à Normandia, às praias do desembarque, passear-me nos bunkers, olhar para o mar cinzento deste dia de Janeiro sem vento, e imaginar nesse infinito o primeiro pintalgar de embarcações, a maior invasão, as praias agora à espera de atenção de alguém a serem esventradas, abalroadas, vidas perdidas como soprando grãos de areia, para acabar com a maior guerra do mundo.

5 de Janeiro
Regresso a Paris, regresso ao trabalho. Desde Outubro que escrevo “As Noivas do Sultão” , um romance histórico que me “obriga” a estar em frente ao computador 10 a 12 horas por dia, durante seis meses. O ritmo é intenso mas a história também. Há histórias que ficam dois séculos guardadas num baú e quando são descobertas vêm com uma força extraordinária. Esta gritou-me que queria ser contada e eu, mesmo assim, ignorei-a mais de três anos. Por isso, quando lhe dei atenção, surgiu sôfrega no desenrolar da narrativa. Atropelou-me muitas vezes, sem pena do cérebro que lhe emprestei.

7 de Janeiro
Levanto-me mais tarde que o habitual. Vou com garra para o computador decidida a escrever muitas páginas, a dar andamento à aventura que se começa a desenhar, tirar de apuros uns personagens e pôr outros ao barulho. Por isso mesmo não ligo à orquestra de sirenes lá fora, embora mande uma mirada rápida à janela a ver se a cidade não está a arder enquanto eu teimo estar na Lisboa do século XVIII. Telefonam-me do outro lado da cidade a avisar que houve um problema ali perto onde estou. De preferência que não se saia de casa. Vou à janela e a bandeira francesa da Gare du Nord ondula indiferente aos carros de bombeiros e aos carros de polícia, aos milhares de cidadãos que transitam apressados, à minha procura por algo anormal na rua.
“As Noivas do Sultão” são abandonadas totalmente nos próximos três dias. Eu bem tentei, mas concentrar-me noutro assunto que não o estado de choque discreto que o mundo ocidental viveu perante o massacre do Charlie Hebdo, falhava no primeiro minuto.


11 de Janeiro de 2015
O mundo concentra-se na Place de la Republique. Desde o dia anterior estão estacionados veículos de cadeias de televisão de todo o mundo, amuralhando a parte pedonal da praça. Estou num autocarro que para num vermelho em frente a um directo para a televisão holandesa. Imagino a jornalista a dizer que dali a poucas horas se espera uma grande quantidade de gente neste local mas que por agora ainda só televisões. Nem o câmara, nem a jornalista, nem eu imaginamos a quantidade de pessoas que ali estacionariam dali a umas horas. Não foi uma enchente. Foi a demonstração que uma multidão compacta pode manter-se em silêncio absoluto. Descorçoada. Não sei como houve ar para tanto indivíduo.

1 de Fevereiro de 2015
Já estou de novo em plena labuta literária há algumas semanas. A trama traz-me desafios inesperados. Mas antes disso, contar como me caiu ao colo tão escondida e surpreendente história.
Dizem que a sorte protege os audazes, e na mesma linha de conta, em algum livro do Paul Auster lembro-me de ler que “ certas histórias só acontecem a quem vier a ter vontade de as contar”.
Um dia, há alguns anos, fui a Marrocos a convite do Instituto Camões. Acabara de conhecer o leitor de Rabat, daquela época, Depois de conversa de circunstância, disse-me: “Raquel, sabe, convidei-a para cá vir porque gostava que contasse um episódio histórico que aconteceu entre Portugal e Marrocos e tem estado demasiado tempo sem as luzes dos holofotes que merece”. E contou-me a história.
No final não existiam dúvidas. O cérebro sabe reconhecer as pérolas. Havia qualquer coisa naquela causalidade de acontecimentos que jamais tinha ouvido. Era verídica e no entanto era desconhecida. Era épica mas no entanto nunca se tornara icónica. Estivera escondida tantos anos. Com características empolgantes como Pedro e Inês, com o mistério de D. Sebastião, com o misticismo de D. Leonor e as suas rosas, mas sem espaço na memória popular… Porquê?
Disse-lhe que sim. Um dia haveria de a contar. Na altura estava interessada em escrever sobre outras coisas. E calei-me também eu mais uns anos.


4 de Março de 2015
Enviei a primeira metade para a Parsifal, editora deste romance. Agora já não há volta a dar, o caminho é sempre em frente até encontrar o dia em que as concubinas regressam a Marrocos.
A trama reside na fuga da família real marroquina em 1793 de Casablanca para Rabat aquando da guerra que grassava em todo o território. O sultão Abdessalam, ao partir para a guerra em apoio ao irmão, julga não ficar em segurança a sua família e respectivo harém, ordenando-lhes que embarquem e naveguem até ao porto de Salé. Mas “os ventos empurraram o barco indefeso na direcção contrária, tantas vezes a mais criativa do destino.” E foi já na Ilha da Madeira que encontraram terra à vista, salvação para o desgoverno em que andavam há tanto tempo. Ali puderam encontrar acolhimento, água, mantimentos, e quando se fizeram ao mar novamente, lançavam a nau de novo às ondas, achando que a grande aventura chegava ao fim. Longe disso, ainda agora começava.
Inexperientes na arte de bolinar, cansaram o vento com tanta teimosia, e este empurrou-os para os Açores, a tábua de salvação num Atlântico que por pouco não os engoliu.
Estava resolvido. Aquela gente não tentaria dali passar para Marrocos. A única atitude sensata, previu o Governador, era escoltá-los até Lisboa. Da capital do império sim, conseguiria alcançar o seu destino. Dos Açores estavam condenados.
Nisto, já havia passado tanto tempo, meses, e toda aquela tripulação a navegar em condições sub-humanas, pouco interessava serem família real, a verdade é que a viagem prevista era de dois, três dias no máximo.
Chegaram a Lisboa em Julho e é aqui que começa a parte interessante, isto é, a partir daqui interessou-me muito romancear.

15 de Abril de 2015
Faltam quinze dias para a entrega do manuscrito. Os meus olhos rolam nas páginas que já escrevi. Falta o desenlace.
Determinada, releio o relato de Frei João de Sousa, o monge mandatado por D. Maria I para mediar todos os encontros com as concubinas, por ser fluente em língua árabe.
Frei João escreveu uma descrição fascinante para aquela época, por detrás do tom formal consigo ler-lhe os pensamentos, mesmo que tendo ocorrido há 222 anos.
Há ocorrências inesperadas, mortes, doenças, nascimentos, pedidos repentinos.
As ruas de Paris não suscitam nada em particular para esta história, mas a comida sim. Afinal, estou na melhor cidade para comer do mundo. Frequento todos os restaurantes que posso, como desculpa de inspiração. Esta vida não pode ser só sacrifício…

30 de Abril de 2015
A convite de Porto Santo vou à Ilha para dar duas palestras. Estou uns dias na Madeira onde acabo o romance e o envio ao editor Marcelo Teixeira. Imagino-as ali, perdidas, com medo de sair do barco, sem imaginar que depois de passarem pela Madeira, ainda há tanto para viver em Lisboa.

14 de Junho de 2015
Cheguei ontem a Lisboa. Percorrendo umas ruas na zona de Santos, vem do bailarico a famosa canção “Voltei, voltei, voltei de lá. Ainda ontem estava em França e agora já estou cá”. 

2 de Julho de 2015
“As Noivas do Sultão” é publicado e lançado em Lisboa. Exactamente 222 anos, exactamente no mesmo mês de Julho.
No lançamento relembro-me de como na última década passei tantas tardes na Academia das Ciências a investigar para outros assuntos, ou quando lá estive a entrevistar Adriano Moreira para “A Casa-Comboio”.
O relato de Frei João de Sousa ali esteve sempre guardado, a sussurrar-me entre as paredes da biblioteca. Andámos perto muito tempo, nunca nos encontrámos até ao dia em que, pela voz de um português, nessa tal conversa rodeada de tajines e cachimbos de água em Rabat – fervendo ela própria em ansiedade, me pediu para vir à luz do dia.
E aí está. À vossa disposição.






A melhor viagem de sempre

(publicado pela revista Focus - Março 2011)


é A VIAGEM QUE AINDA NÃO FIZ
A melhor viagem que já fiz talvez seja a que ainda está por fazer. Uma ida ao topo do Kilimanjaro, às estepes da Mongólia, ao recife de coral da Austrália, às picadas de Moçambique, aos trekkings em Yellowstone na América do Norte.
Porque é esta a filosofia, nunca parar. O mundo muda, a Índia que conheci em 2001 e 2002 não é a mesma que encontrei em 2007. Que não será a mesma que encontrarei neste afortunado regresso em 2011. Ainda bem que estive em Torres del Paine, extremo-sul do Chile, antes do grande incêndio que consumiu parte considerável do parque.
A vida inteira não chega para explorar nem sequer metade da sabedoria do planeta.
Se não estou a viajar - é uma máxima - estou a trabalhar para o fazer.

A melhor viagem que realizei na vida foi a viagem que ainda não fiz.
Costumo dizer aos que me rodeiam que não é só importante viajar mas fazê-lo o mais depressa possível. O mundo está em constante mutação, é essa a sua natureza. E o homem-bicharoco, como nunca antes visto nos últimos séculos, entra neste jogo para arrasar o quadro. Reconfigura-o ou desfigura-o, como nota a maioria, outros, doutorados em economia ou em Microsoftagens, condescendem usando o repetido conceito: desenvolvimento.


O mundo que conheço tem fronteiras na Antárctida, que espreitei ao longe e só recebi os seus ventos, aquando da minha estadia na Terra do Fogo, extremo austral do globo, em terras argentinas. Posso começar por aí, pelo fim. Recordo-me de uma frase que li num muro: “Fin del mondo, el principio de todo.”

Cinco locais inesquecíveis:

- Patagónia: qualquer voo de Buenos Aires ou Santiago do Chile nos coloca no epicentro do vento. A minha história foi por terra, desde o Peru, de autocarro em autocarro como se quisesse adiar o encontro. E o embate foi fortíssimo.
Há vários pontos-chave para contemplar os delírios e arrepios da Pachamama: El Chaltén, onde um trekking nos leva aos glaciares estacados nas enormes torres de granito (Parque de los Glaciares); Torres del Paine; Estreito de Magalhães e Ushuaia - não vão ao engano, é uma cidade enorme, no último sítio onde seria suspeitável crescer a civilização.

- Índia: de norte a sul, de este a oeste, a Índia é a aprendizagem que nunca acaba.
A Goa, volta-se sempre, está-nos na pele.
Hampi (a 300 kms a leste de Panjim) é uma cidade antiquíssima, ex-capital de império, um jardim de pedras arredondadas e cor de laranja onde templos florescem discretos, à primeira vista criados pela erosão e não pela fé dos homens.
Kaniakumary é o ponto mais a sul do sub-continente. Aqui convergem o Mar Arábico, o Golfo de Bengala e o oceano Índico. Misturam-se areias de várias cores. Sente-se a força da convulsão de culturas que habita todo aquele território a afunilar-se no mar. Uma caminhada nesta praia ao pôr-do-sol é altamente recomendável aos que procuram a exaltação do espírito.
Jaisalmer, a cidade do deserto, Rajasthan. Imagine-se um laborioso castelo de areia feito por meia dúzia de garotos que se esquecem do tempo numa tarde de Agosto. Sim, tão bonito como a mente de uma criança.

- Nepal, Kumbu Valley – Campo Base do Everest. O sítio mais extraordinário que estive na vida. Em Kala Patar, o miradouro por excelência do Everest, a 5545 metros de altitude, depois de 17 dias a caminhar por montes e vales, estiquei o braço e ergui a mão. Ao piscar um olho: a montanha mais alta do mundo cabia dentro da minha palma. A coroa gigantesca de montanhas que ali se ergue é composta por deuses vivos e crescem 0,5 milímetros por ano.
Imagens e palavras são trapos velhos para qualificar o trono da mais bela cordilheira. Assistir aos segundos em que o sol nasce atrás do Everest tem um impacto a nível celular.



- Machu Pichu – Peru
Ficamos com saudades dos incas mesmo sem os termos conhecido. Os Andes alcatifados de verde exuberante sobrepõem-se uns aos outros, cada maciço tentando espreitar melhor a cidade que o outro. As construções em blocos de pedra torneados são imponentes e, diria até, confortáveis. Huaina Pichu, o ponto mais alto, é imperdível, e a subida, embora não se corra perigo algum, corresponde a uma aventura, pois em certos pontos só escala uma pessoa de cada vez.
Com vista que dali se obtém, a vida parece uma comédia e o cansaço uma gargalhada incontrolável.

- Cabo Verde – Mindelo; Ilha de St.º Antão; a praia do Tarrafal em Santiago.
Os cabo-verdianos são um povo ímpar. Tranquilos, inteligentes, viajantes, bem-humorados, inconformados. Há uma tristeza em dose mínima que lhes confere qualquer coisa de português. Tal como na Índia, mas por motivos diferentes, sinto-me em casa.




Por último, referir os Açores como um dos locais mais surpreendentes que há entre o céu e a terra. São tantos os recantos. Possa o desenvolvimento e quem o dita não destruir aquela mina da natureza. 



Angkor - Cambodja : O Mais Belo Parque do Planeta

(publicado na revista Travel Safaris nº13)



A história de Angkor preenche centenas de livros e mesmo assim ainda está longe de estar a descoberto. À semelhança dos seus templos durante séculos devorados pela selva, assim se mantêm algumas histórias, quiçá as mais interessantes, de um império que teve a originalidade fundir hinduísmo e budismo.
Talvez por isso seja para os viajantes uma experiência que não termina com uma primeira visita. Foi essa a sensação depois de ter andado a percorrer livremente os templos durante três dias – necessitava de, pelo menos, mais três.
É uma viagem de luxo que pode ser vivida com mais ou menos conforto, à escolha. De seguida conto-vos as minhas para visitar aquele que devia ser um dos principais destinos de quem se julgue um explorador.

Esta não é uma crónica acabada, uma narrativa com princípio meio e fim. É uma tentativa de compreensão porque Angkor é tão extenso e tão viciante.
Angkor Wat é o nome sonante reconhecido mundialmente. É o maior dos quarenta e oito templos que se podem visitar só na zona de Angkor, construído para marcar um antes e um depois nas esplêndidas construções do império kmer. Por isso mesmo não deve ser visto em primeiro lugar.
Mas há ainda mais construções e pontos de interesse a visitar noutras zonas, num raio de cerca de cem quilómetros.
Não, não é engano tipográfico. São quarenta e oito templos dos quais cerca de 10 são amontoados de pedras disformes sem interesse para o comum visitante que não estudioso. Sobram portanto cerca de trinta templos, ou seja, cerca de trinta aventuras à escolha. Angkor Wat, o maior, demora cerca de três horas a ser visitado, sem pausas. Os outros rondam em média hora e meia.
A minha sensação, e creio que a sensação de todas as pessoas que se interessem por este tipo de viagem cuja descoberta da cultura assenta em vestígios arqueológicos surpreendentes, era a de acordar de manhã e ser um Indiana Jones - com a tarefa facilitada, é certo - mas prestes a encontrar um mundo por revelar.
Nos primeiros séculos da era cristã já havia movimentos comerciais importantes com a China. Esta era uma região estratégica para controlar as rotas do rio Mekong e o Golfo da Tailândia. Mas é o seu contacto com a Índia que lhe dá os primeiros contactos com a cultura hindu e o budismo.  É dali que retiram as suas maiores influências civilizacionais. A partir do século VI começa a agregar-se enquanto império, embora por longos períodos volte a constituir-se de pequenos estados separados.
Os vários imperadores que se sucederam empreenderam uma tarefa magnânima de construção até ao ano de 910 quando dois irmãos que continuavam a dinastia se desentendem, um deles muda a capital para Kon Ker, aproximadamente a 100 quilómetros e onde se podem encontrar outros tantos templos, pirâmides e construções realmente interessantes. Quando morre, a capital voltou para Angkor. Os imperadores seguintes até meados do século XIV, quando o império sofreu a derrocada final, vivem uma autêntica febre arquitectónica, cada um tentando ser responsável pelos maiores feitos até então, intercalando a obra erguida com a gestão das várias guerras que assolavam o território.

A melhor maneira de visitar este enorme complexo de prazer natural e arqueológico, na minha opinião, é alugar uma bicicleta em Siem Riep, a cidade onde há alojamento para todos os gostos e feitios. Siem Rep tem interesse pois é uma daquelas cidades montadas para satisfazer todas as necessidades possíveis e imaginárias, legais e ilegais.
Há que referir que o Cambodja é um país até há cerca de quinze anos em guerra. A guerra que acabou com um dos mais hediondos regimes ditatoriais da história. Milhões de pessoas foram mortas em apenas sete anos. Por isso Siem Rep, além da circulação contínua de magotes de turistas é também um ponto de encontro de todas as marcas de guerra, da pobreza, dos mutilados, da prostituição, tudo se encontra ali, ao contrário do território edílico dos templos a poucos quilómetros.
Se alugarem bicicleta, a minha opção de eleição, ficam independentes e podem pedalar de templo para templo o que pode variar entre os cinco minutos e cerca de uma hora e meia. Depende das várias zonas que escolherem. A opção muito frequente é contratar um riquexó e o seu condutor o dia inteiro e com ele ir saltitando de construção em construção. Acho realmente mais enfadonho ter alguém à espera que ao final do dia nos “obriga” a voltar para casa à hora estipulada. A bicicleta é o único transporte que permite ser totalmente independente. Também há táxis e autocarros (dezenas de autocarros de chineses) que fazem a tal excursão organizada aos templos mais procurados. A bicicleta, definitivamente, proporciona um passeio alegre e sem relógio num dos mais belos parques do mundo. Recorde-se que é uma zona de cultura de arroz e por isso uma imensa planície sem subidas nem descidas onde uma simples “pasteleira” permite uma velocidade constante. A floresta vai desfilando pelos nossos olhos a velocidade cruzeiro e, de repente, como um cogumelo com quinhentos anos ou mais, surge um amontoado de pedras antiquíssimo que se ergue altaneiro, qual castelo, mas com mais pretensões de voo do que de defesa.
Outro item/conselho é a escolha dos templos. É óbvio que não se pode perder Angkor Wat ou o Bayon, ou o Angkor Thom ou o Terraço dos Elefantes, são obrigatórios e sempre teremos de os suportar com os milhares de turistas que naquele mesmo dia os decidiram partilhar connosco. É provável que daqui a poucos anos Angkor seja o local mais visitado à face da terra.
Mas a magia deste local é existirem inúmeros outros templos igualmente (ou quase tão) surpreendentes onde não chegam as excursões organizados de povos asiáticos (e não só) que tanto gostam de andar juntinhos às centenas.
Lembro-me de me deslumbrar no Bakong, no Lolei, no Ta Som, no silêncio do Neak Pean no meio do lago, ou noutros e ali quase não haver ninguém (leia-se máquinas fotográficas clicadas de modo ininterrupto).
Há um convite ao silêncio em todos estes templos que, ao não ser respeitado, agride os espíritos mais sensíveis. E depois há a estupefacção perante a força da natureza, a dignidade da natureza, que fez implodir, literalmente, certos templos, com a força do nascimento de uma semente que se transformou em árvore imperial a percorrer entranhas de santuários.

Como nota final há que referir as omnipresentes Upsaras. São espíritos femininos da mitologia hindu e budista que se erguem enigmaticamente nos templos, caras enormes esculpidas de olhos fechados e de sorriso constante, um sorriso que vem do âmago do ser, o sorriso que já se esqueceu o que é o ter ou o estar, só sabe ser.
Já atingiram a iluminação e, cúmulo da generosidade, recusam-se a entrar no “paraíso” para ajudar os que ainda não conseguiram atingir o nirvana. Pairam em quase todos os templos, bem como nos portais, distinguindo as várias zonas construídas consoante as épocas, quer inspirando, quer vigiando. Podemos passar horas de olhos nos olhos com elas (embora sejam sempre representadas de olhos fechados) e não nos cansamos.


Passados uns dias a percorrer templos, naquelas paisagens infindas de grandes árvores que preenchem o horizonte e nos submergem, sem querer, fechamos os olhos e vemos templos, e vemos árvores, e os templos são as árvores e as árvores são os templos. De repente, num salto momentâneo de clarividência, entende-se o porquê da geometria, o cuidado das direcções dos pontos cardeais, a simplicidade piramidal que urge aos céus, e a reprodução em pedra das árvores nas fachadas dos templos em grande escala – o que está em baixo está em cima, e a vida nada mais é do que um pequeno trajecto terreno sempre com os olhos postos nos que já lá em cima habitam. Estamos na terra mas de algum modo, acreditavam eles, o importante era o que de lá de cima se conseguia ver cá para baixo. 

Jornal de Letras - há algum tempo escrevi a rubrica "Diário" - agora divulgo.

Santo Antão - Cabo Verde.

Raquel Ochoa
34 anos, publicou duas biografias e três romances, um dos quais distinguido com prémio literário revelação Agustina-Bessa-Luís, mas começou por escrever uma crónica de viagens “O Vento dos Outros”. Chama-lhe “língua-mãe” e o seu percurso explica porquê.

Mundo aos goles (pouco) espaçados

Agosto de 1999
Percorrer a Europa para fugir dela, já havia pressa de compreender o que consistia o além, sondar o transcontinental, e por isso, com três amigos, o interrail tinha a Capadócia em mente, passando por Itália, ilhas gregas, entrada por Ankara e longos percursos de autocarro até ao casario de cavernas, a paisagem de deserto esculpido.

Agosto de 2000
Foi tão grande o impacto da primeira viagem que logo se criou nova oportunidade de partir. Desta vez, outro interrail, sem companhia a maior parte do tempo, pelas ilhas croatas, ao longo da Europa do Leste, Alemanha e Holanda. Viajar só com a mochila, um caderno e dois livros foi tão ou mais importante do que a licenciatura de Direito. Houve a descoberta de um limite. Nas montanhas Tatra na Polónia soube o que é afinal a solidão. A solidão sinónimo de beco sem saída. Por saber como é e como se chega ali, nunca mais me visitou. Talvez uma das maiores conquistas da minha vida.

Março de 2001
Primeira viagem à Índia. Há sempre uma enorme dificuldade em descrever a Índia porque é falar de um território longínquo que todos levamos cá dentro.
Além de Damão e Goa, viajei com uma amiga indo-portuguesa até Kanyakumari, o ponto extremo sul. A disponibilidade dos vinte e um anos constatou que todos somos mágicos se entendermos que a bondade é uma arma. É uma terra onde a energia que nos rodeia deixa uma impressão táctil. A Índia serviu para recalcular o que já havia aprendido e assimilado. Nada é definitivo e derradeiro.

Setembro de 2002
Segunda viagem à Índia.
Insisto. A Índia é gigante. Havia tudo para a aprender e desta vez, com outra amiga, além de Goa e Damão, percorro o norte com a fúria de me embrenhar nas montanhas. Rajasthan vai ficando para trás na direcção do Nepal, um dos melhores países que este mundo nos oferece. Por cada estado que passo, o reconhecimento de um país diferente, com a sua língua (dialecto), seus trajes, seu tom de pele, seus costumes. Um comboio parado à força na linha e apedrejado enquanto dormia uma sesta foi uma das múltiplas peripécias. A Índia começa, neste encontro, a revelar a sua faceta violenta, convulsiva, injusta para tantos. O ideal seria pensar com o coração e sentir com o cérebro, vou constatando ao longo dos quilómetros. Ao chegar ao Nepal, os Himalaias revelam-se muito mais imensos do que o imaginário permitia. Por Pokara subi até Poon Hill. Dali, dos seus 3200 metros de altitude, prometo: se Deus me deu pernas, foi para vos subir.
“E se o mundo, penso, só existisse para eu o conhecer? E se a mente for afinal o maior abismo, o maior mistério, e o globo apenas o cenário requintado e acessível para, aos poucos, a ir domando?”

Setembro de 2004
Primeira viagem à América do Sul.
Acabo o curso e decido ir respirar.
Costa Rica como porta de entrada, o país da maior biodiversidade é um enxame de ruídos, animais, florestas independentes, vulcões a dormir e a fulgurar. Conheço índios verdadeiros que viajaram pela Europa durante anos e americanos que emigraram para aqui por não aguentarem o sistema de leis dos Estados Unidos.
Um mês depois, voo para o Peru. Tenho um mapa completíssimo e traço uma linha por sobre os Andes. Deste modo evito a rota mais frequentada para chegar a Cusco.
Dias e dias de montanhas mareadas, umbigos do mundo que hoje em dia, mesmo tendo lá andado, nem acredito como possam ser habitados. Gente a sair de autocarros com enxadas e picaretas, sacos de sementes e uma vida de trabalho. Uma leve aflição por estar no meio de um oceano de montes, descendo e subindo a pique todos os caminhos. Os quilómetros aqui eram gargantas sucessivas, dragões quietos amarelados, encimados por cumes de neve a expulsar nevoeiros.
De Cusco atiro-me a Machu Pichu que depois do caminho inca me recebe de braços abertos. Ali pertenço, estranha e solidária sensação com os milhares de visitantes daquele dia, creio que acontece a todos.
Arequipa e Lago Titicaca para a despedida.

Entro no Chile pelo Norte, e atravesso o Deserto do Atacama sempre por terra. Das doze regiões do Chile, estive em nove, até lá abaixo, o país a desfilar nas vitrinas do autocarro. Um mês e três semanas a perceber a originalidade das gentes encravadas entre os Andes e o Pacífico. Trago no bolso areia do deserto mais seco do mundo, fotografias de cidades como Coquimbo e Valparaíso e músculos nas pernas de caminhadas na Patagónia. Os olhos, e as emoções, esbugalham-se. Contabilizo mais algumas lições, tal como a procura só vale a pena se formos corajosos na espera.

Argentina, mi amor. Há portugueses por todo o lado, na Terra com nome de Fogo e em Ushuaia, extremo austral do mundo, encontro-os.
No meu diário de bordo, já com uma América às costas, escrevo:
“O fim do mundo é o que tu quiseres. É uma cidade ou uma vila, uma aldeia ou três casas.(…)
Tem árvores tortas, dobradas ou arrancadas pelo vento. O fim do mundo essencialmente tem vento. Que nunca é discreto, nunca é sopro, nunca é brisa. É uma besta, um cabo Adamastor só de ouvido, um louco transeunte que grita tudo o que diz, tudo o que as pessoas não querem saber e, disfarçando, fingem não o ouvir nem o ver. (…)
No fim do mundo sente-se que se chegou longe, mas que afinal não era tão longe assim.”
Ainda vou a Buenos Aires, Cataratas de Iguaçu e Florianópolis para finalizar o périplo de seis meses.
Regresso a casa como se tivessem passado três dias.

Novembro de 2006
Brasil, Florianópolis
A última viagem afinal não estava acabada. Havia um livro para escrever sobre ela e pessoas a rever. Passo aqui dois meses a acabar “O Vento dos Outros”. Compreendo afinal porque escrever um livro é mencionado como uma das mais importantes experiências da existência. Mudou-me a percepção do tempo, eliminou-me conflitos internos, senti-me útil como poucas vezes. Tinha esta surpresa no caminho. As palavras afinal não eram deusas a guardar nos cadernos de memórias. Viajar afinal não era um prazer solitário, até egoísta. Era a catapulta para a escrita. Ao escrever um, acenderam-se dez livros em mim.


Março de 2006
Cabo Verde
A enseada perfeita. Motivada a escrever a biografia de Bana, por lá andei a tentar compreender a alma crioula.

Agosto de 2006
Buenos Aires
Viver como os porteños durante alguns meses. A cidade alia charme e loucura. Quanto mais diferente é um povo, melhor entendo o nosso. Aqui escrevo boa parte de “Bana – Uma Vida a Cantar Cabo Verde”.

Março de 2007
Índia e Nepal outra vez.
Goa, Damão e Diu. Finalmente completo a trilogia. Passo algum tempo a investigar para o meu próximo livro. Chegara o momento de me aventurar num primeiro romance. E outros dois meses entregues ao percorrer do norte oriental da Índia. Varanasi para estimular a circulação sanguínea, por se afigurar tão forte e impressionante. Sikkim, o Estado dos Himalaias tropicais, predominantemente budista impõe a permanência de um mês inteiro. Atravesso a fronteira e de novo encontro-me no Nepal. Tempo de cumprir promessas. De Jiri a Kala Patar, 21 dias a caminhar pelo maciço central do Everest, até o ver de frente, com os pés fincados a 5545 metros de altitude. Este momento sabe a conquista e a privilégio, doem os pulmões e a cabeça, vê-se a montanha mais alta do mundo com definição HD e no entanto é difícil de acreditar que se está mesmo aqui. É como se uma imunidade nos escolhesse e ao mesmo tempo um condão para compreender a pequenez do indivíduo.

Dezembro de 2009
A Índia em Portugal.
Chega a notícia de ser “A Casa-Comboio” o vencedor do prémio literário revelação Agustina-Bessa Luís, o acontecimento mais marcante desde que decidira escrever, acontecesse o que acontecesse.

Setembro de 2011
Seis meses pela Ásia e Oceânia
Singapura no seu desfile de impecável organização, asseio e luzes abre o trem de aterragem. Malásia e a obrigatória Malaca, de seguida Bali que ainda conserva alguns recantos pitorescos mas não passa de um paraíso que vendeu a alma ao diabo, há muitos anos. A velha máxima: quando os ocidentais descobrem o paraíso deixa de o ser. Sidney e Melbourne para me reformular por completo o conceito de cidade (de e para pessoas). Nova Zelândia, as duas ilhas calcorreadas, imitando um batedor. Um país três vezes maior que Portugal habitado por quatro milhões de habitantes. A cada quilómetro espanta um pouco mais. Os antípodas e a costumeira atracção pelos confins transmitem-me uma cómica satisfação pessoal, o de “saber” de que tamanho falamos quando falamos de “meio mundo”.
Hong Kong e Macau para de novo fazer vénia a prodígios civilizacionais. Abrandei o ritmo na Índia onde apresentei “A Casa-Comboio” a convite do Instituto Camões e fui espreitar dois estados que não conhecia.
O Sri Lanka surge no final da viagem. Ainda há sítios com a possibilidade de nos colocarem nas mãos todas as possibilidades.
Parto sempre com um íntimo desejo, o vício da volúpia do conhecimento.
Regresso confirmando uma impressão com a qual muitos concordarão. Vagabundear é obrigação do Homem, se quer ser feliz.











Ser indiana num país como a Índia



Arambol é uma praia no norte de Goa onde confluem pessoas do mundo inteiro. Nos últimos tempos a procura é maioritariamente russa, o que tem trazido uma fama diferente a Goa, nunca a melhorar, devido a desacatos e episódios violentos.

Aqui, de dia e de noite, as pessoas passeiam-se sem pressas, parece um parque de diversões para personagens inverosímeis. O mexicano com problemas de álcool, o jovem casal português do Cacém que depois de ter emigrado 10 anos em Inglaterra, decididos a voltar a Lisboa, deixam-se ficar mês e meio para evitar o Inverno, o consultor de imagem de um importante político russo que faz oposição a Putin, um casal de ingleses acima dos 50 que se perdeu no tempo e nas drogas, a sueca atraente e atiradiça que se divorciou há menos de um ano e não esconde que procura sexo ocasional, uma jovem grávida de seis meses com o seu companheiro, ambos nórdicos, sem medo de nada, ou o argentino atormentado, arquitecto de hospitais, que anda há ano e meio a viajar porque carrega segredos terríveis que não consegue esconder nem revelar.

É neste ambiente que vale a pena conhecer Beauty uma jovem indiana do Gujarat, com 25 anos, que faz jus ao nome. Pequena, com traços finos, muito elegante, vive aqui há 20.

Usa um sari diferente todos os dias. É muito escura, opta sempre por cores fortes, cor-de-rosa, verde alface, vermelho. É uma mulher eléctrica que sabe a força que leva dentro.

Arambol é uma mistura de muita gente e de muitos estímulos. Há yoga para todos os gostos, várias escolas, várias correntes. Há massagens e medicina ayurveda mas também há cafés Wi-Fi sempre com música apaziguadora e grandes almofadas - cada um se instale como quiser.

Há lixeiras a céu aberto e lixo pelas ruas, mas as pessoas são simpáticas além da comida, boa e barata. As dormidas também. Acima de tudo, em Arambol, as pessoas estão sempre a encontrar-se, a cruzar-se, a combinar qualquer coisa para mais logo.

A noite tem uma oferta considerável de bares e restaurantes e há música ao vivo variada com bastante qualidade, a entrada é livre.

De dia, vacas passeiam pela praia paradisíaca, com inúmeros restaurantes a oferecer camas, sumos e bebidas alcoólicas a quem quiser relaxar. Ali ao lado há um esgoto a céu aberto, mas ninguém parece importar-se.

Com o pôr-do-sol, no fundo da praia, juntam-se mais de dez tocadores de djambés, guitarras, às vezes saxofones, até harmónicas, e toda a gente faz uma roda para dançar, com pouca roupa, indiferentes ao escuro que entretanto cai e nunca acaba a festa.

Beauty não participa destes ajuntamentos. Trabalha das 9h às 23h.

Na sua presença o traço mais significativo é o sorriso, sincero. Aquele sorriso corresponde a todo o seu património, ofusca as outras qualidades destacáveis. Talvez por isso seja boa vendedora.

Beauty casou-se há sete anos, com dezasseis. À primeira vista teve sorte. O jovem, escolhido pelos seus pais, é bem-parecido, são da mesma idade e costuma estar ao seu lado na loja que ela gere - um estabelecimento ambulante na estrada principal de Arambol. Vende chás, especiarias, colares, e grandes lençóis com padrões típicos da Índia, além dos Bob Marleys, Che Guevaras e Marijuanas.

Tem dois filhos, a primeira com seis anos, o segundo com quatro.

Não é do tipo de chamar os turistas para a sua loja, táctica usada e abusada pelos seus vizinhos. Às vezes, o marido está sentado ao seu colo numa cadeira de plástico que mantém à entrada, o que parece uma brincadeira dos dois, ele sentado ao colo dela.

Beauty é inteligente, aprendeu a falar o seu desenrascado inglês com os turistas, nunca foi à escola. Já com alguma confiança e semanas de convívio, conta a sua história.

Antes de se casar, gostava de alguém mas, uma vez estipulado o casamento, nem se atreveu a emitir um som.

Era este o seu destino. “The world is changing, but I still the same” –é como muitas vezes se define. Casaria-se, por respeito aos pais.

Como já têm dois filhos, que eram quantos o casal queria ter, a sua vida sexual acabou.

O marido dorme num colchão, ela na cama. Sabem que são marido e mulher, são uma família, permanecerão juntos para sempre mas nunca mais voltarão a ter intimidade. Não gostam um do outro a esse nível.

Ele vai a Mapussa, a cidade mais próxima, de vez em quando, fica lá uma semana, tem alguém com quem se mantém activo sexualmente.

Beauty, não tem ninguém - como é óbvio para os parâmetros indianos - nem nunca terá. Também não o questiona, só o confessa.

Aliás, tem mais com que se preocupar, tem um negócio para gerir que é o sustento da família. Ele não traz um único tostão para casa, não faz nada, apoia-a na loja, mas qualquer responsabilidade, tal como prestar contas, é ela que dá a cara.

Quando se casou, ela pagou o dote, dinheiro que foi juntando ao longo de alguns anos de bordados em casa, com a mãe.

Beauty não se sente injustiçada, até acha que tem sorte. O marido não faz nada mas trata-a bem. Discutem muitas vezes mas não é homem de violência.

A relação entre as mulheres na Índia tem subtilezas muito difíceis de entender.

“ As mulheres odeiam-se mutuamente. Sei que todas me invejam.” – Fala genericamente mas nota-se que Beauty não concebe ter uma vida melhor, uma sorte melhor – “Para que é que me hei-de preocupar, uma mulher sozinha nunca poderá nada contra os costumes.”

Bebe o seu chai e sorri. Aparentemente é feliz assim.


O Mistério das Pirâmides Bósnias










(English translation in a few days)
Raquel Ochoa, em Visoko

“Temos de parar de agir como professores e passarmos a agir como alunos.”

É assim que Sam Semir Osmanagich, fundador do Parque Arqueológico da Pirâmide do Sol da Bósnia, termina a entrevista.
Será que, caso existissem indícios de estar incorrecta, grande parte da teoria publicada seria revista pela comunidade científica? Haveria abertura para a reformulação das conclusões?
É isso que propõe Semir Osmanagich com a investigação das Pirâmides da Bósnia, as primeiras alguma vez encontradas na Europa, pois, segundo ele, o achado é tão fabuloso que obrigará a rever muitas das posições, rescrevendo a História. Confirmadas as suas suspeitas, estamos perante uma das construções humanas mais antigas jamais realizadas à face da terra.
Assim que se atravessa a ponte acedendo à vila de Visoko, a 70 quilómetros de Sarajevo, vê-se um monte atapetado de verde e arborizado apenas numa das frentes.
Saltam à vista os seus vértices alinhados e só o lado sul, segundo Richard Hoyle, colapsou, não se sabendo ao certo quando.
Sara Acconci, arqueóloga italiana formada na Universid desli Studi di Milano e Richard Hoyle, geólogo inglês formado na Leads University já moram aqui há meses e neste momento lideram as operações de escavação.
Ele reforça a sua certeza de estarmos perante construções piramidais:
- Normalmente estão alinhadas pelos pontos cardiais. Nesta só há um erro de 2 segundos. As de Gizé têm pelo menos 12.
A equipa não é maior pois as condições de trabalho são bastante difíceis. Richard apenas recebe alojamento. O que o faz permanecer é a paixão com que se entrega a este projecto. Quer ele, quer ela, quando interrogados sobre quanto tempo passarão em Visoko, nem três segundos demoram a responder:
- O resto da minha vida.
A dedicação é evidente mas a verdade é que Sara já recebeu emails dos seus professores deixando um claro aviso: “Caso persista neste projecto, quando voltar a Itália, jamais encontrará emprego”. A sua actuação, segundo eles, entrará no descrédito generalizado.

Até ao momento, como refere a equipa que aqui trabalha, foram descobertas cinco pirâmides: a do Sol – a maior, a da Lua, a do Dragão, Terra (Mãe Natureza) e a do Amor. As escavações decorrem desde 2006 e desde esse ano recebem voluntários para aqui trabalharem no Verão.
As pirâmides interessam a um número crescente de pessoas, e há quem ocorra ao local para meditar, grupos de observação de fenómenos sobrenaturais ou simplesmente curiosos.
Sara diz que só acredita no que vê, que o seu trabalho se baseia em dados científicos embora compreenda o porquê das pessoas encontrarem neste local um local de “peregrinação”. Porém realça que estes visitantes desaparecem por completo no Inverno, quando só está por cá ela e poucos mais, dedicando-se sobretudo à escavação dos túneis.
Quem não acredita de todo no trabalho desta equipa é o director do Museu de História de Visoko, Senad J. Hodovic. Foi ele quem convidou pela primeira vez Semir para visitar a vila, em 2005. Apressa-se a afirmar que não foi este quem descobriu os túneis, há muito que estavam descobertos. De facto, nos arredores há várias entradas para uma rede de túneis e até agora ninguém sabe a sua real extensão.
Segundo ele, não é possível encontrar aqui muitos cientistas a operar porque se recusam a ser comprados. É totalmente céptico em relação aos trabalhos que decorrem, ali, a poucos quilómetros do museu.
- Muito dinheiro foi investido e poucos resultados concretos. Não podem chamar pirâmides a algo que ainda não foi provado como tal. É contra isso que me insurjo.
Há muito tempo que não volta às escavações, nem sabe precisar data.
Essa é uma das acusações de Sara.
- Desde 2006 que não vem cá ninguém do Governo Bósnio, nem da comunidade científica nacional. E já se descobriu tantos factos novos desde aí. Ninguém quer ver. Fazem questão de não ver.

Túneis extensos
Ao longo dos túneis da maior pirâmide posicionam-se umas esculturas semelhantes a grandes rochas lavadas por águas correntes durante séculos. Aparentemente foram coladas uma à outra, formando blocos indivisíveis.
Ainda não foi possível perceber quem as terá trazido para ali e como. A maior encontrada pesa cerca de 4 toneladas.
Sabe-se que quando as retiraram dos locais onde se encontravam, a água começou a inundar todo o túnel, funcionando assim como uma espécie de “tampões” que controlam os canais fluviais subterrâneos, como explica Richard Hoyle. Na sua opinião, é verdadeira tecnologia o que se observa nestas esculturas, um conhecimento evoluidíssimo de como controlar os lençóis freáticos. Essa é aliás uma das teorias: as pirâmides teriam sido construídas para canalizar e controlar a água.
Mas esse talvez não tenha sido o achado mais importante. Em 2007 achou-se um pedaço de madeira agarrado a uma destas esculturas. Foi enviado para a Universidade de Kiel na Alemanha e para a Universidade de Tecnologia em Gliwice na Polónia e os resultados dataram-no de 30 000 a 40 000 anos.

As certezas científicas
Afinal de contas, qual a base científica de tudo isto? Tratam-se ou não de pirâmides?
Realizou-se em 2008 a Primeira Conferência Científica Internacional, reunindo uma equipa pluridisciplinar contando com 55 cientistas de diversos pontos do mundo. As conclusões foram peremptórias – Nabil Swelim, que descobriu quatro pirâmides no Egipto afirmou num relatório arqueológico que “ A pirâmide bósnia do Sol é a maior pirâmide do mundo”.
Mede 220 metros, recorde-se que a Grande Pirâmide de Gizé media 146,6 metros – hoje mede 137.
Ali Barakat, depois de uma visita de 42 dias concluiu que a mesma é desenhada e construída por mão humana e formada por blocos.
Dessa conferência realçam-se outras conclusões. Oleg Khavroshkin, depois de dois anos de pesquisa com a sua equipa, percebeu que as pirâmides bósnias pela sua forma correspondem às pirâmides egípcias e uma equipa de geofísicos do Instituto Sérvio de Física, da Universidade de Belgrado, cujo líder é Dejan Vuckovic, concluiu que debaixo da terra há diversas anomalias que não podem ser explicadas pela acção da natureza. Estabeleceu-se a existência de paredes contínuas, blocos ajustados e muitas passagens circuláveis.
O solo que cobre as pirâmides foi analisado pelo Instituto Federal de Agrapedologia e concluiu que estão soterradas há mais de 12 000 anos.
Contrariamente ao que seria de esperar, o ar que se respira nos túneis é surpreendentemente fresco e limpo.
Estes, a dado momento da história, foram fechados com material orgânico, por isso há dois mistérios para resolver: quem os construiu em primeiro lugar; quem os selou e porque motivo?
Mistérios não faltam por aqui.
O Instituto Parisiense de Geopolimias em 2007 fez a análise ao conglomerado encontrado, material de que são revestidos os túneis, e concluiu que é 5 vezes mais resistente que o melhor conglomerado que temos hoje em dia.
O pedaço de madeira encontrado estava num vácuo entre as pedras e a areia. Desconfia-se que é do tempo em que a água inundou os túneis. Os arqueólogos que ali trabalham julgam que se se vier a confirmar este dado os túneis em si seriam mais antigos do que 32 000 anos, tornando num dos mais antigos oásis arqueológicos da Europa e do mundo.
As pirâmides do Egipto não terão mais de 5000 anos.

A voz das pirâmides
Foi detectada a emissão de ultra-sons muito fortes no topo das pirâmides bem como do seu interior. Heikki Savolainen, engenheiro de som, está aqui durante uma semana a convite de Paollo Debeltolis professor doutorado em Antropologia/dentista/ médico e estudante de Direito que há algum tempo investiga este lugar. Paollo pediu ao seu amigo finlandês que viesse gravá-los e os analisasse posteriormente em estúdio.
- “A voz das pirâmides” interessa-me de um ponto de vista médico. Os ultra-sons são importantes para as endorfinas. – esclarece Debeltolis.
Cavkas, pássaros semelhantes a melros grandes mas que misturam tons de azul na sua cauda, pousam aqui e ali indiferentes à movimentação nos subterrâneos. Não devem entender o interesse pelo mundo do subsolo, nem se atrevem a espreitar.
Já no topo da Pirâmide do Sol, toda a área é muito bonita e do ponto de vista turístico, só por si, encontra-se motivo mais que suficiente para uma visita. Silencioso, o monte é ponto de escuta de todos os sons provindos da região de Visoko. O comboio passa e apita, a auto-estrada ao longe movimenta pessoas com pressa, e um habitante local, por ser domingo, partilha alto demais a música com os vizinhos. Um casal que ali passeia, além da equipa de estudiosos, observa o horizonte com uma expressão intrigada. Apontam para a pirâmide da Lua que se desenha ali em frente.
O topo do monte é um observatório, um gigante miradouro de 360º para uma paisagem de montes e neblinas entrecruzando-se.
O exército bósnio durante a guerra controlou os túneis e o topo desta pirâmide. A pirâmide da Lua, por sua vez, está minada, as escavações só podem prosseguir numa pequena zona.
Mas não é a única dificuldade que a equipa enfrenta. O homem que há uns anos comprou o Plateau da pirâmide do Sol por 8000 euros– é como chamam à plataforma que dá acesso ao topo da montanha e que é feito de enormes blocos sobrepondo-se - só o vende agora por 1 milhão.
Devido às obras numa moradia ali situada, foram desviados alguns blocos e podem observar-se num amontoado. São enormes. Esta forma de construção de pirâmides é totalmente desconhecida. O plateau é uma espécie de terraço que dá acesso a um dos lados da construção, suavizando a subida até ao topo. Esta seria uma das primeiras áreas a escavar, caso não estivessem impedidos.
A Fundação sem fins lucrativos dirigida por Semir Osmanagich é quem detém o monopólio da exploração deste parque arqueológico. Foi criada com o intuito de o proteger e de o desenterrar das entranhas da terra.
O director do Museu de História Senad J. Hodovic é de opinião contrária. Acredita que a fundação é uma forma de captar em exclusivo todos os fundos, por isso uma forma muito sagaz de ganhar dinheiro.
- Com os recursos já investidos, já deviam existir certezas muito mais concretas do que as apresentadas.


Pirâmide da Lua
No dia seguinte, ao pequeno almoço, Sara entrega a Richard um saco de plástico dentro de outro cheio de pequenas pedras.
Crê serem peças de cerâmica e moedas. Ele olha e não parece muito convencido.
- São as moedas mais antigas alguma vez encontradas – diz-lhe a arqueóloga. Gracejam. Não se entende se estão a falar a sério ou a brincar.
Richard não se inibe. Pega naquilo que parece ser uma pedra redonda e coloca em cima da mesa com estrondo.
- Pago eu os cafés, então.
A cidade tem bastante gente e é preenchida por casas de dois andares com telhados bem vermelhos. As crianças vão para a escola como em qualquer outra parte do mundo.
É hora de visitar a pirâmide da Lua e aqui as evidências são um pouco mais perturbadoras.
Em plena guerra da ex-Jugoslávia, o proprietário da base da pirâmide, que hoje apenas usa aquela casa para passar o fim-de-semana, encontra-se isolada num monte, decidiu escavar um buraco para encontrar água. Deu com um primeiro nível de pedras posicionadas em forma pavimento. Depois um segundo. E um terceiro, quarto, quinto, sexto… São visíveis mais de quinze níveis de pavimentos justapostos, ao longo de dois metros, e o que está escavado será apenas metade da base da pirâmide, pelas medições já feitas por aparelhos.
Richard não tem dúvidas que se trata de uma construção e não de uma maravilha geológica.
De qualquer modo, deixa escapar a sua crítica. Mesmo que se tratasse de um fenómeno geológico, estaríamos a falar de uma autêntica maravilha, algo que devia ser estudado.
Olha à sua volta e acrescenta.
- Porque é que sou o único geólogo aqui neste momento?
A descida para a vila faz-se com o pôr-do-sol. Os montes ondulados sintonizam-se com a bruma e a cor arroxeada.
Heikki pede uma paragem ao condutor do jipe para fotografar vários aspectos da bela paisagem. Volta ao carro e coloca os cotovelos no encosto banco observando a vastidão enquanto suspira.
- Agora sinto-me como o Papa.