O Mistério das Pirâmides Bósnias










(English translation in a few days)
Raquel Ochoa, em Visoko

“Temos de parar de agir como professores e passarmos a agir como alunos.”

É assim que Sam Semir Osmanagich, fundador do Parque Arqueológico da Pirâmide do Sol da Bósnia, termina a entrevista.
Será que, caso existissem indícios de estar incorrecta, grande parte da teoria publicada seria revista pela comunidade científica? Haveria abertura para a reformulação das conclusões?
É isso que propõe Semir Osmanagich com a investigação das Pirâmides da Bósnia, as primeiras alguma vez encontradas na Europa, pois, segundo ele, o achado é tão fabuloso que obrigará a rever muitas das posições, rescrevendo a História. Confirmadas as suas suspeitas, estamos perante uma das construções humanas mais antigas jamais realizadas à face da terra.
Assim que se atravessa a ponte acedendo à vila de Visoko, a 70 quilómetros de Sarajevo, vê-se um monte atapetado de verde e arborizado apenas numa das frentes.
Saltam à vista os seus vértices alinhados e só o lado sul, segundo Richard Hoyle, colapsou, não se sabendo ao certo quando.
Sara Acconci, arqueóloga italiana formada na Universid desli Studi di Milano e Richard Hoyle, geólogo inglês formado na Leads University já moram aqui há meses e neste momento lideram as operações de escavação.
Ele reforça a sua certeza de estarmos perante construções piramidais:
- Normalmente estão alinhadas pelos pontos cardiais. Nesta só há um erro de 2 segundos. As de Gizé têm pelo menos 12.
A equipa não é maior pois as condições de trabalho são bastante difíceis. Richard apenas recebe alojamento. O que o faz permanecer é a paixão com que se entrega a este projecto. Quer ele, quer ela, quando interrogados sobre quanto tempo passarão em Visoko, nem três segundos demoram a responder:
- O resto da minha vida.
A dedicação é evidente mas a verdade é que Sara já recebeu emails dos seus professores deixando um claro aviso: “Caso persista neste projecto, quando voltar a Itália, jamais encontrará emprego”. A sua actuação, segundo eles, entrará no descrédito generalizado.

Até ao momento, como refere a equipa que aqui trabalha, foram descobertas cinco pirâmides: a do Sol – a maior, a da Lua, a do Dragão, Terra (Mãe Natureza) e a do Amor. As escavações decorrem desde 2006 e desde esse ano recebem voluntários para aqui trabalharem no Verão.
As pirâmides interessam a um número crescente de pessoas, e há quem ocorra ao local para meditar, grupos de observação de fenómenos sobrenaturais ou simplesmente curiosos.
Sara diz que só acredita no que vê, que o seu trabalho se baseia em dados científicos embora compreenda o porquê das pessoas encontrarem neste local um local de “peregrinação”. Porém realça que estes visitantes desaparecem por completo no Inverno, quando só está por cá ela e poucos mais, dedicando-se sobretudo à escavação dos túneis.
Quem não acredita de todo no trabalho desta equipa é o director do Museu de História de Visoko, Senad J. Hodovic. Foi ele quem convidou pela primeira vez Semir para visitar a vila, em 2005. Apressa-se a afirmar que não foi este quem descobriu os túneis, há muito que estavam descobertos. De facto, nos arredores há várias entradas para uma rede de túneis e até agora ninguém sabe a sua real extensão.
Segundo ele, não é possível encontrar aqui muitos cientistas a operar porque se recusam a ser comprados. É totalmente céptico em relação aos trabalhos que decorrem, ali, a poucos quilómetros do museu.
- Muito dinheiro foi investido e poucos resultados concretos. Não podem chamar pirâmides a algo que ainda não foi provado como tal. É contra isso que me insurjo.
Há muito tempo que não volta às escavações, nem sabe precisar data.
Essa é uma das acusações de Sara.
- Desde 2006 que não vem cá ninguém do Governo Bósnio, nem da comunidade científica nacional. E já se descobriu tantos factos novos desde aí. Ninguém quer ver. Fazem questão de não ver.

Túneis extensos
Ao longo dos túneis da maior pirâmide posicionam-se umas esculturas semelhantes a grandes rochas lavadas por águas correntes durante séculos. Aparentemente foram coladas uma à outra, formando blocos indivisíveis.
Ainda não foi possível perceber quem as terá trazido para ali e como. A maior encontrada pesa cerca de 4 toneladas.
Sabe-se que quando as retiraram dos locais onde se encontravam, a água começou a inundar todo o túnel, funcionando assim como uma espécie de “tampões” que controlam os canais fluviais subterrâneos, como explica Richard Hoyle. Na sua opinião, é verdadeira tecnologia o que se observa nestas esculturas, um conhecimento evoluidíssimo de como controlar os lençóis freáticos. Essa é aliás uma das teorias: as pirâmides teriam sido construídas para canalizar e controlar a água.
Mas esse talvez não tenha sido o achado mais importante. Em 2007 achou-se um pedaço de madeira agarrado a uma destas esculturas. Foi enviado para a Universidade de Kiel na Alemanha e para a Universidade de Tecnologia em Gliwice na Polónia e os resultados dataram-no de 30 000 a 40 000 anos.

As certezas científicas
Afinal de contas, qual a base científica de tudo isto? Tratam-se ou não de pirâmides?
Realizou-se em 2008 a Primeira Conferência Científica Internacional, reunindo uma equipa pluridisciplinar contando com 55 cientistas de diversos pontos do mundo. As conclusões foram peremptórias – Nabil Swelim, que descobriu quatro pirâmides no Egipto afirmou num relatório arqueológico que “ A pirâmide bósnia do Sol é a maior pirâmide do mundo”.
Mede 220 metros, recorde-se que a Grande Pirâmide de Gizé media 146,6 metros – hoje mede 137.
Ali Barakat, depois de uma visita de 42 dias concluiu que a mesma é desenhada e construída por mão humana e formada por blocos.
Dessa conferência realçam-se outras conclusões. Oleg Khavroshkin, depois de dois anos de pesquisa com a sua equipa, percebeu que as pirâmides bósnias pela sua forma correspondem às pirâmides egípcias e uma equipa de geofísicos do Instituto Sérvio de Física, da Universidade de Belgrado, cujo líder é Dejan Vuckovic, concluiu que debaixo da terra há diversas anomalias que não podem ser explicadas pela acção da natureza. Estabeleceu-se a existência de paredes contínuas, blocos ajustados e muitas passagens circuláveis.
O solo que cobre as pirâmides foi analisado pelo Instituto Federal de Agrapedologia e concluiu que estão soterradas há mais de 12 000 anos.
Contrariamente ao que seria de esperar, o ar que se respira nos túneis é surpreendentemente fresco e limpo.
Estes, a dado momento da história, foram fechados com material orgânico, por isso há dois mistérios para resolver: quem os construiu em primeiro lugar; quem os selou e porque motivo?
Mistérios não faltam por aqui.
O Instituto Parisiense de Geopolimias em 2007 fez a análise ao conglomerado encontrado, material de que são revestidos os túneis, e concluiu que é 5 vezes mais resistente que o melhor conglomerado que temos hoje em dia.
O pedaço de madeira encontrado estava num vácuo entre as pedras e a areia. Desconfia-se que é do tempo em que a água inundou os túneis. Os arqueólogos que ali trabalham julgam que se se vier a confirmar este dado os túneis em si seriam mais antigos do que 32 000 anos, tornando num dos mais antigos oásis arqueológicos da Europa e do mundo.
As pirâmides do Egipto não terão mais de 5000 anos.

A voz das pirâmides
Foi detectada a emissão de ultra-sons muito fortes no topo das pirâmides bem como do seu interior. Heikki Savolainen, engenheiro de som, está aqui durante uma semana a convite de Paollo Debeltolis professor doutorado em Antropologia/dentista/ médico e estudante de Direito que há algum tempo investiga este lugar. Paollo pediu ao seu amigo finlandês que viesse gravá-los e os analisasse posteriormente em estúdio.
- “A voz das pirâmides” interessa-me de um ponto de vista médico. Os ultra-sons são importantes para as endorfinas. – esclarece Debeltolis.
Cavkas, pássaros semelhantes a melros grandes mas que misturam tons de azul na sua cauda, pousam aqui e ali indiferentes à movimentação nos subterrâneos. Não devem entender o interesse pelo mundo do subsolo, nem se atrevem a espreitar.
Já no topo da Pirâmide do Sol, toda a área é muito bonita e do ponto de vista turístico, só por si, encontra-se motivo mais que suficiente para uma visita. Silencioso, o monte é ponto de escuta de todos os sons provindos da região de Visoko. O comboio passa e apita, a auto-estrada ao longe movimenta pessoas com pressa, e um habitante local, por ser domingo, partilha alto demais a música com os vizinhos. Um casal que ali passeia, além da equipa de estudiosos, observa o horizonte com uma expressão intrigada. Apontam para a pirâmide da Lua que se desenha ali em frente.
O topo do monte é um observatório, um gigante miradouro de 360º para uma paisagem de montes e neblinas entrecruzando-se.
O exército bósnio durante a guerra controlou os túneis e o topo desta pirâmide. A pirâmide da Lua, por sua vez, está minada, as escavações só podem prosseguir numa pequena zona.
Mas não é a única dificuldade que a equipa enfrenta. O homem que há uns anos comprou o Plateau da pirâmide do Sol por 8000 euros– é como chamam à plataforma que dá acesso ao topo da montanha e que é feito de enormes blocos sobrepondo-se - só o vende agora por 1 milhão.
Devido às obras numa moradia ali situada, foram desviados alguns blocos e podem observar-se num amontoado. São enormes. Esta forma de construção de pirâmides é totalmente desconhecida. O plateau é uma espécie de terraço que dá acesso a um dos lados da construção, suavizando a subida até ao topo. Esta seria uma das primeiras áreas a escavar, caso não estivessem impedidos.
A Fundação sem fins lucrativos dirigida por Semir Osmanagich é quem detém o monopólio da exploração deste parque arqueológico. Foi criada com o intuito de o proteger e de o desenterrar das entranhas da terra.
O director do Museu de História Senad J. Hodovic é de opinião contrária. Acredita que a fundação é uma forma de captar em exclusivo todos os fundos, por isso uma forma muito sagaz de ganhar dinheiro.
- Com os recursos já investidos, já deviam existir certezas muito mais concretas do que as apresentadas.


Pirâmide da Lua
No dia seguinte, ao pequeno almoço, Sara entrega a Richard um saco de plástico dentro de outro cheio de pequenas pedras.
Crê serem peças de cerâmica e moedas. Ele olha e não parece muito convencido.
- São as moedas mais antigas alguma vez encontradas – diz-lhe a arqueóloga. Gracejam. Não se entende se estão a falar a sério ou a brincar.
Richard não se inibe. Pega naquilo que parece ser uma pedra redonda e coloca em cima da mesa com estrondo.
- Pago eu os cafés, então.
A cidade tem bastante gente e é preenchida por casas de dois andares com telhados bem vermelhos. As crianças vão para a escola como em qualquer outra parte do mundo.
É hora de visitar a pirâmide da Lua e aqui as evidências são um pouco mais perturbadoras.
Em plena guerra da ex-Jugoslávia, o proprietário da base da pirâmide, que hoje apenas usa aquela casa para passar o fim-de-semana, encontra-se isolada num monte, decidiu escavar um buraco para encontrar água. Deu com um primeiro nível de pedras posicionadas em forma pavimento. Depois um segundo. E um terceiro, quarto, quinto, sexto… São visíveis mais de quinze níveis de pavimentos justapostos, ao longo de dois metros, e o que está escavado será apenas metade da base da pirâmide, pelas medições já feitas por aparelhos.
Richard não tem dúvidas que se trata de uma construção e não de uma maravilha geológica.
De qualquer modo, deixa escapar a sua crítica. Mesmo que se tratasse de um fenómeno geológico, estaríamos a falar de uma autêntica maravilha, algo que devia ser estudado.
Olha à sua volta e acrescenta.
- Porque é que sou o único geólogo aqui neste momento?
A descida para a vila faz-se com o pôr-do-sol. Os montes ondulados sintonizam-se com a bruma e a cor arroxeada.
Heikki pede uma paragem ao condutor do jipe para fotografar vários aspectos da bela paisagem. Volta ao carro e coloca os cotovelos no encosto banco observando a vastidão enquanto suspira.
- Agora sinto-me como o Papa.
















ÍNDIA 2012







Conheço a Índia há 10 anos.
De 2001 para 2011 noto a Índia bem diferente (como se isto fosse um país homogéneo e não uma aglomeração de 26 países, portanto Estados, diferentes) na sua sempre surpreendente condição.
A classe média cresceu, há tantos carros que não andavam por aqui da última vez (2007). A classe pobre também.
Como há imensos novos milhões de pessoas, o trânsito já roça a guerra , o som das buzinas é constante, metódico, desagradável, invasivo. Habituamo-nos claro, tolera-se, mas estas estradas sem sinais de trânsito (não é uma hipérbole) são dominadas por quem apita mais, mais alto e ininterruptamente.
A pobreza é cada vez mais chocante, sobretudo nas grandes cidades, mas é-o em todo o lado, pois o que eram cidades pequenas há uns anos, tornaram-se aglomerados assustadores neste momento. Crianças libertam as suas fezes doentes na linha, antes que o comboio chegue. Pessoas com cotos em vez de braços ou pernas, calcinados de tão negros.
Nos subúrbios de Delhi vêm-se burros cabisbaixos a carregarem esterco de latrinas que é necessário desentupir e mulheres a guiarem-nos pela linha férrea, tão desesperançadas quanto os animais. Vêm-se crianças com irmãos bebés ao colo, a recolherem comida no meio das lixeiras, como se fosse uma horta ou um pomar. As lixeiras estão em todo o lado para onde quer que se olhe. Não há recolha de lixo organizado em praticamente nenhum estado. Cada rua varre o seu e lança-lhe o fogo ao raiar do dia. Junte-se-lhe a poluição constante dos escapes.
Tudo isto convive, em Delhi, Bombaim e outras grandes cidades, com centros comerciais parolos, ainda mais parolos que os nossos, onde os preços das etiquetas aparecem em euros e dólares e são os que se praticam na Europa e Estados Unidos. O poder económico e o poder de compra anda lado a lado com os milhares de cães sarnentos e maltratados, mais os ratos que se vêm nas cozinhas dos “hotéis”, nas ruas, nas estações de comboio.
Tudo isto é uma experiência visceral, de constante auto-superação. É imperioso para um estrangeiro fazer um esforço para não ver, para não sentir, mecanismo de defesa essencial, mas para evitar o contacto visual com um deficiente que parece uma aranha, não um homem, tal a deformação do seus membros, olha para o lado e tem uma garota a agarrar-lhe o braço pedindo esmola para um irmão que tem um olho de fora. É cega, pede para ele e para ela.
Assim sendo, porque é que se vem à Índia?
Porque há tanta gente a gostar disto afinal?
Não gostam. Não é essa a palavra.
Não reconheço a Índia que vi em 2007, e muito menos em 2002 e 2001.
Tudo muda.
Mas há nesta viagem, e sempre haverá, uma experimentação do lado mais humano da vida, porque tudo à nossa volta é sobrevivência, luta e coragem.
A criatividade é sem limites, pois convive-se segundo a segundo com o insólito, o inusitado.
Escolher a Índia rural, ir para o sul, ou o Norte de montanhas pode ser a melhor ideia para escapar (que significa ver menos) a este bombardeamento de condições dificílimas de vida.
Mas a Índia real é a Índia que mostra quase tudo. Tudo o que se queira ver. Tudo o que tenhamos coragem para ver.
E no final, não sei porquê, o coração começa a bater com mais força.
















Auckland - NZ



Com 12 horas adiantadas, algumas das primeiras imagens num dia que o mundo se manifesta.

OCTOBER 29 – #ROBINHOOD GLOBAL MARCH - Auckland





Marvão - A Grande Muralha





Sem suspeita do mais leve desentendimento, Luís olha para Joana e anuncia o porquê destes dias no Marvão:
- Há cinco anos foi aqui que a pedi em casamento. Aceitou. Agora todos os anos voltamos, tem de ser…
Joana tem atrás de si uma muralha que se vincula teimosamente ao horizonte. E campos a perder de vista preenchidos de Alentejo, Espanha e Beira Baixa. Daqui, Portugal inteiro parece caber nos olhos de quem os abra.
Joana e Luís acreditam que neste lugar celebram as coisas boas da sua relação e são muitos os turistas que já descobriram este segredo em forma de burgo amuralhado, revisitando-o como um ritual.
Discreto como um décimo quinto andar, é talvez o melhor duplex do país.
Para lá chegar é normal que se passe pelo belíssimo triângulo Portalegre - Castelo de Vide – Marvão, deixando este último para o final, à moda das bodas de Caná.
Depois da estrada encurralada em freixos, todos pintados com uma larga faixa branca – imagem já capturada para a publicidade a um automóvel dado o seu impacto - a subida começa a prometer vistas largas e um povo resguardado.
Quem primeiro se lembrou de aproveitar a melhor torre de vigia das redondezas, fortificá-lo e ali constituir família, descendência?

Um homem. Ibn Maruán, nobre estirpe emeritense, notabilizado devido à luta contra o Emirato de Córdova no último quartel do séc. IX.
A verdade é que o monte de tão fortificado pela imaginação da natureza, quer pela sua altitude – 849,5 metros no seu ponto mais alto, quer pela sua extensa crista quartzítica – a Serra do Sapoio é escarpada e de forte declive em toda a sua extensão Sudoeste, serviu de refúgio quase invencível aos seus ocupantes. O valor geoestratégico foi confirmado pelos cristãos a 1226, quando concedido o foral no reinado de D. Sancho II.
Repercutiu-se ao longo dos tempos, quase mil anos depois de Ibn Maruán, aquando das invasões francesas, escrevia-se nos relatórios que “se apresenta como a chave da porção de fronteira a proteger contra um inimigo que estivesse estacionado em Valência de Alcântara”.
Deduz-se a dificuldade em povoar o lugar, não seria grande o apelo a viver em cima de uma fraga sem água nem terra disponível para cultivar.
Através de vários incentivos, no séc. XVI a vila atinge a maior ocupação demográfica, decaindo a partir daí até aos dias de hoje, quando só se contabilizam 100 pessoas a viver intramuros.

Poucos mas bons, a população reparte os esforços para manter a cidade viva e dinâmica no acolhimento aos turistas, inovadores nas actividades culturais que oferecem aos membros do concelho.
O GAD e o Fundo de Apoio à Empresa, espera que os jovens proponham projectos que valorizem a economia da região, permitindo que se fixem na terra. A verdade é que há um grande número de hectares de terreno em regadio à espera de ser cultivado.
Como afirma José Manuel Ramilo, vereador da Câmara do Marvão.
“A terra, que é um bem escasso no país, está disponível no Marvão. Só dentro da muralha há 17 restaurantes, só com a restauração local podíamos consumir a quantidade de produtos que a nossa terra tem capacidade para dar ”.
Os filhos da terra muitas vezes regressam para aqui desenvolver os seus projectos, ou então mantém uma ligação forte como Nuno Vaz da Silva que trabalha na Caixa Geral de Depósitos em Lisboa, mas não deixa os créditos da sua terra natal por mãos alheias: “ Não podemos estar à espera de que as outras pessoas se lembrem de nós, é preciso fazer qualquer coisa para isso”.
Tiago Gaio, que trabalhou para o Oeinerge até 2007, onde desenvolveu o projecto pioneiro de recolha de óleo para reciclagem, voltou para o Marvão onde trabalha na área de eficiência energética na iluminação pública. Aqui implementou-se o melhor sistema de reciclagem do país. “Segundo dados estatísticos – afirma – Marvão e Vila de Rei são os municípios que mais reciclam os seus resíduos”.
O grupo de vinte homens que joga à malha num campeonato local tem poucas preocupações deste género. O alvo é abatido muitas vezes para gáudio dos mais expressivos. O segredo, dizem os entendidos, está na confiança com que se atira o disco.
Saberão eles que o site trypadvisor referenciou Marvão como um dos dez segredos mais bem guardados do mundo?

Lançando um olhar nas aldeias e terrenos em volta, reconhece-se a presença de imensas árvores autóctones portuguesas. Estamos num Alentejo de carvalhos, castanheiros, choupos, e muitas outras que aqui encontram o clima certo.
Na escuridão da madrugada, Marvão parece lava a derramar sobre o monte, ou caramelo a escorrer sobre o chocolate negro e indistinto da noite.
À noite ganha um estatuto teatral, como um ser imaginário, uma criatura extensa e planadora, um invasor extraterrestre.
Pede uma visita insistentemente.
A aprovação da candidatura a património mundial da Unesco é um acontecimento há demasiado tempo pendente. Se tal acontecesse amanhã já não seria cedo.
O castelo foi recuperado e toda a vila apresenta um esmero digno de dia de festa prolongada ao longo de 365 dias por ano.
Cairá algum dia na mão de outro povo que não os portugueses? Resistirá? É pouco provável, mas conseguirá o Marvão resistir ao abandono caso deixe de existir quem o cuide? E se a solidão for o seu último e desleixado ocupante?

Maio 2011

Ilha da Madeira

Enfrento a Madeira, porque as suas escarpas não se percorrem nem dominam, torneiam-se. A costa norte é clivosa, tão inclinada como o inferno, tão bela como a floresta que resiste aos aluviões. Dei comigo no Jardim do Mar, localidade encantada, com uma calçada minuciosa e povoada de ar puro. Gente que vai às lapas antes do almoço. É aqui, logo abaixo, que encontro um dos maiores disparates da Madeira. Ao longo da orla do Jardim do Mar houve uma intervenção absurda que revolta os locais e todos os de bom senso. Construíram uma promenade, como aqui lhe chamam, um passeio pedestre ao longo do mar. Nada teria de mal, nada teria de ilógico, se não tivesse acabado, praticamente, com uma das melhores ondas da ilha, como corria a fama “ O Havai da Europa”. A verdade é que o turismo que movimenta os praticantes desta modalidade é uma fonte de desenvolvimento para as localidades, ainda por cima, identificado com o bem-estar ecológico. A onda já não existe e a promenade está vazia. Quem lucrou com isto? Como diria Aristóteles: só existe um bem, o conhecimento; só existe um mal, a ignorância. Subo ao lindíssimo edifício Casa das Mudas, do arquitecto Paulo David; exemplo do que a engenharia bem garantida pela boa arquitectura consegue enriquecer e projectar a paisagem. Dali entro nas mil curvas e curvetas dos montes pela estrada regional até chegar a Porto Moniz. A costa Norte é desafiante. Mais à frente, o Seixal mostra as suas águas límpidas, o fundo não é um segredo. As altas encostas devem ser vaidosas porque espreitam o espelho do mar, continuamente se inclinam sobre o seu reflexo. Túneis furam as serras com claustrofobia dentro. Levam-nos de um lado ao outro da ilha, quase. Há momentos em que o túnel se evapora e reaparece a luz do dia. É o vale. Reentra-se de novo nos subterrâneos, abandonando-se momentaneamente a condição sublunar, até que a luz se abra de novo e tal como Zarco e Tristão, suspire-se: “Terra à vista”. Aviso à navegação No Funchal há um grito que arrepia, o eco do apito dos barcos. São estes pavilhões flutuantes que animam a economia da ilha, nesta fase em que os aviões que aqui pousam estão em decréscimo. O apito dos enormes barcos ressoa pela cidade em ronco gutural que o anfiteatro devolve ao mesmo tempo que todos os sons da cidade são engolidos. Uma das primeiras vezes que ouvi este som encontrava-me numa livraria impressionante. Dizem que o seu dono tem o anseio de ter a maior livraria o mundo. O nome é concordante – Livraria Esperança. Ao contrário do habitual posicionamento dos livros, alinhados por lombadas, aqui estão dispostos com a capa de frente para os leitores em estantes sucessivas forradas centímetro a centímetro. Mesmo nas estantes de lado podem observar-se, pois cada livro é pendurado com um gancho. Há-os no tecto. Há-os no chão, em janelas a serem comidos pelo sol enquanto vêem as vistas. Cada um fala mais alto que o outro, mesmo que nenhum levante mais o tom do que um sussurro. Quis ler tudo ao mesmo tempo, peguei em mais de 40 exemplares, à vez. Inúmeros autores desconhecidos, centenas de autores amados e revisitados. Milhares de autores perdidos. O primeiro que agarrei foi uma encomenda de um colaborador do Jornal de Letras que só aqui conseguiu encontrar um exemplar. Comprei ainda Eusébio Macário, de Camilo Castelo Banco, Perto do Coração Selvagem de Clarice Lispector, Histórias do Bom Deus de Rainer Maria Rilke e uma edição recente, chancela Quetzal, A Anatomia da Errância, do meu herói Bruce Chatwin. No Jardim Botânico fingi que o Funchal era a minha cosmopolita quinta florida. Entretenho-me com a escolha de qual começar primeiro enquanto as quentes pedras de basalto onde me sentava recarregavam a energia. Considerações de aeroporto Levo na mala um festival literário e uma série de amigos recentes. São notáveis estes madeirenses que conheci. Em todos encontrei essa necessidade de não me deixarem partir sem perceber o que tem afinal esta ilha de magnético. A poncha é boa é certo (uma perdição), as montanhas imponentes, tudo bem, as Levadas são experiências inesquecíveis, o mar é sincero e o Funchal um teatro que representa bem a peça. Mas o que a Madeira tem que me fará cá voltar é a enorme vontade com que esconde os seus segredos. O truque deste impressionante mundo atlântico é ir e estar nos sítios certos, com pessoas que tenham vontade de ser continentes e não ilhéus. Tive essa sorte.

Ilhas, Aviões e Livros


FESTIVAL LITERÁRIO DA MADEIRA

Aqui me encontro, a convite da Booktailors e Nova Delphi. Apetece-me estabelecer um paralelo entre ilhas, aviões e livros.

Como a praia nos desnuda a todos, assim pode funcionar um livro. O sabor dos livros não é aparência e os livros têm o sabor da existência...quantas vezes!

O livro que leio, é um avião que me coloca numa ilha.

Este é um encontro de escritores e leitores que não têm medo do vôo, muito menos de demonstrarem a sua insularidade.

Ilhas são locais de nuvens com apetrechos tão úteis como a solidão. Os livros são a nossa sorte. São as montanhas de 1862 metros prontos a crescer um pouco mais.

Possam as ilhas ser aviões, e os livros objectos voadores.

Obrigada à organização por nos permitirem a nós e aos madeirenses participar neste pequeno foguetão.

Açores - à deriva pelo oceano


São famosas as quatro estações num só dia, mas a fama não é correcta, numa só hora navega-se de um esplendoroso dia de primavera para um carregado dia de Outono, que se alivia com chuva forte mas rápida e dá lugar ao sol que enxuga as ilhas.
Há locais que estão tão impregnados em magia que ao viajar de novo para casa paira a ideia de se ter vivido a realidade de um sonho e não umas férias inesquecíveis.

Terceira

Terceira
Nas paisagens bucólicas recortadas pelas hortênsias do seu interior escondem-se segredos como o Algar do Carvão. É uma gruta escavada pela lava a uma profundidade impressionante que proporciona a experiência de passagem do mundo da luz - cheia de exuberância vegetal - às trevas, com uma acústica que pede canto gregoriano, quase o ouvimos. No fundo um grande lago que estremece as entranhas da terra. É passear nos intestinos de um vulcão em actividade, agora fóssil.
Angra do Heroísmo é uma cidade que apetece percorrer a pé, com um jardim maravilhoso e cheia de gente descontraída e simpática. Nota comum em todos os açorianos. Traços de personalidade que marcam tanto o sentir das ilhas como o mar, a geografia ou as brumas.
O Monte Brasil é uma pequena península que avança pelo mar carregada de floresta onde se encontra a imperdível Vigia da Baleia, um miradouro branco, com uma casinha que protege do sol quem ali vá. À sua frente o mar cristalino e azul, e com sorte a emoção de avistar cetáceos brincalhões ou pesados.
Há mais, toda a costa sudoeste é bonita e se decorrerem as festas de Verão, não perder a tourada de corda, única no país, a única que não choca os defensores dos direitos dos animais – touro e homem, mano a mano – apenas uma corda limita o bicho de não correr mais do que uma certa extensão. Em Porto Judeu por exemplo, O resultado é hilariante. O touro chega a parecer aqueles cães que correm por tudo e por nada à caça de uma bola. Por vezes acerta-lhe.