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Peru - Espírito semi-indígena

Sábio Lopez é o primeiro a levantar-se, tem 39 anos e quem mais experiência como carregador. Desde os seus vinte que percorre estes trilhos: “Já vi mais europeus, norte americanos ou australianos, do que peruanos ou sul-americanos. Mas conhecer, conhecer, falar com as pessoas e elas comigo, lembro-me de cinco ou seis.” Afirma desatando os atilhos da sua carga, todos enrodilhados à volta de um oleado que abriga todo o amontoado de coisas que ali são trazidas. Ao volume que cabe a cada um, improvisam-se umas alças daquele material também, que o liga ás costas, embora de uma forma totalmente precária, suportando exclusivamente o esforço nos ombros. O facto de Sábio não ter convivido com muita gente de outros continentes, explica-se sobretudo pelo seu castelhano ser quase inexistente, não saber escrever uma palavra e não falar nenhum outro idioma a não ser a sua língua, o quechua: “Nunca fui à escola, mas não saber ler ou escrever não me impediram de ganhar a vida”. É como interpreta o seu analfabetismo.
Não fala da família, dá a entender que não há muito para dizer. Aliás, é necessário arrancar-lhe as palavras independentemente do assunto, exprime-se com voz branda, impessoal, com a qual não acompanha nenhum gesto ou olhar. Essa timidez ou desconfiança acentua-lhe os traços indígenas:”O vento está a rodar para sul, temos de despachar-nos: vai chover.”Afirma, absorto no desenvencilhar de tantos cordéis. Dá duas ou três ordens que explicam onde devem ser montadas as tendas para os estrangeiros dormirem. E começa a falar muito rapidamente em quechua, provavelmente assuntos que só dizem respeito aos autóctones. Passam alguns momentos, e o acampamento está montado, com a rapidez de uma distracção.
Pepe é o mais conversador e destaca-se dos outros devido à sua postura mais aristocrata que a comum simplicidade peruana costuma permitir. Nasceu nos arredores de Lima (Huatocay), numa aldeia rural que já nem sabe se existe. Tem vinte e oito anos, um castelhano perfeito, e um enorme interesse pela cultura do seu país. É filho de um peruano de classe média, viveu até aos dezanove na propriedade da família, onde trabalhava sobretudo a tratar do gado, a quinta com os animais mais valiosos da região, explica. Não lhe desagradava a vida que tinha até então, a casa tinha uma biblioteca considerável e entretinha-se quando podia com os livros que o desfiavam a conhecer mais do seu mundo:”Quero satisfazer a minha curiosidade até às últimas consequências”, foi a frase que escreveu na carta de despedida ao seu pai. “ Os meus dias na quinta resumiam-se a ordenhar cabras e a vigiar todo o rebanho para os defender dos frequentes ataques de pumas. Até que um dia um puma deu cabo de mais cabeças do que era normal, quase todas, e foi necessário ganhar dinheiro para voltar a comprá-las”. Explica Pepe tranquilamente no seu castelhano fluido. “Na altura decidi vir até aqui, se garantisse trabalho para umas semanas, podia conseguir dinheiro para comprar umas quantas. Na verdade era uma desculpa para conseguir sair de Huatocay. Não sabia que o trabalho ia ser tão duro, nem que este sítio fosse tão bonito”, exclama com os profundos olhos negros muito abertos. “Quando juntei o dinheiro necessário enviei-o ao meu pai. Eu fui ficando, até que um dia tenha outra vez vontade de matar pumas”.
Entretanto já tem esposa em Cuzco e trabalhava como ajudante de mecânico numa oficina. Há pouco tempo ficou desempregado e voltou às montanhas.”Sinto me tão capaz como antes, mas neste momento já só estou aqui porque tem de ser, uma necessidade urgente de dinheiro.” Os problemas económicos roubam-lhe o sorriso mas não a vontade de falar. O seu interesse reside sobretudo em Machu Pichu e nas civilizações andinas: “Os incas não possuíam sistema de escrita e por isso não deixavam testemunhos escritos. O melhor testemunho retira-se do solo, é como se os túmulos não guardassem pessoas mortas, mas sim livros de história, o registo dos costumes, e claro, as tradições religiosas”, diz num tom monocórdico mas seguro, ao mesmo tempo que ecoam gritos de águias que subitamente apareceram em bando a alguns metros de altura. Denota-se evidentemente uma cultura geral acima da média. Fala de tudo num tom muito baixo, como se contasse um segredo, ou abordasse algum tema proibido. Conta que a partir de Cuzco, as estradas dirigiam-se para Norte, Sul, Este, Oeste, as quatro principais divisões administrativas do império. Também da capital partiam mais de 40 caminhos que ligavam a cidade a aproximadamente 3000 huacas (locais sagrados) como montanhas, pedregulhos e nascentes. Não perde a oportunidade para referir que a primeira vez que chegou a Machu Pichu sentiu uma estranha familiaridade, e o arrepio que sentiu lhe revelou que era aqui perto que deveria ficar. “ Já há muito tempo programava esta visita, mas queria ali estar sem estranhos e ruídos de máquinas fotográficas digitais.” E mudando a expressão não explica como o conseguiu. Exibe um sorriso malandro, como se a sua esperteza fosse o seu trunfo, o seu triunfo. “ E ninguém imagina o que é estar lá sozinho, há coisas que só o espírito semi-indígena do sul-americano entende ”. Os olhos rasgados sorriem também.
As tendas já estão montadas e o almoço quase pronto. Passou uma hora e meia desde que acabaram de beber o chá de coca, até que chegassem os primeiros elementos mais adiantados do grupo. Uma cascata com cerca de 700 metros, cai desde lá de cima, percorrendo toda aquela altura, e impondo o seu som ininterruptamente. O caminho inca continua em frente, escalando toda a larga vista de montanha que o horizonte consegue proporcionar, até desaparecer na curva que contorna a subida. Dependendo dos humores meteorológicos, podem-se avistar ou não, as ruínas de uma casa sacerdotal inca, onde outrora se realizavam sacrifícios de virgens à “Pachamama” (Mãe-Natureza).
Depois do almoço todos descansam e chega a hora de jantar.
A noite cai entretanto e um novo dia de trabalho amanhece. Os turistas são acordados com ligeiras pancadas na tenda e o aviso: “Maté! Coca! Maté!” Pepe e Carlos servem chávenas de chá aos estremunhados. Este chá toma-se constantemente. Começar o dia com ele é uma das melhores formas de preparar o sistema respiratório para mais um dia de altitude. O pequeno-almoço é servido e pouco depois o grupo segue caminho. Para trás ficam os carregadores que atarefadamente embalam tudo novamente. A partir do momento em que ficam sozinhos na zona de acampamento, soou o disparo da pistola que dita o início de uma nova corrida. Sábio retira um saco de plástico do bolso. Contém as folhas de coca suficientes para o caminho. Os peruanos das montanhas (e os bolivianos também, únicos dois países onde consumir estas folhas é legal) utilizam muito este meio para ajudar a respiração. Muitos turistas também o fazem, mas não com a mesma convicção. Existe também uma substância negra que acrescentam à bola de coca que formam na boca e que, segundo eles, potencia os seus efeitos. Pepe explica melhor:” O efeito das folhas de coca é pura e simplesmente dar uma maior capacidade ao nariz e aos pulmões de inspirar mais e melhor. E como respiramos melhor, o cérebro está mais oxigenado, o ânimo mais forte, e a sensação de bem-estar pode ser mais generalizada.” Os dentes tornam-se verdes, enquanto os grandes volumes são colocados às costas. O primeiro quilómetro de caminho é uma subida longa até às tais ruínas da casa sacerdotal. O passo partiu desde logo acelerado, os olhos apenas fixam o chão. Quando chegam ao ponto cimeiro da montanha, o grupo de turistas está entretido com as explicações do guia, ou contemplando a paisagem, e ninguém se apercebe da passagem dos carregadores. Eles seguem caminho, com as pernas automatizadas, escondidos nos barretes que lembram os gorros dos pescadores, apoiados nos seus pés extremamente mal tratados, sujos, com unhas demasiado escuras sugerindo pouco tempo de vida. Todos calçam umas sandálias que à partida não inspiram confiança como instrumento fulcral para o montanhismo. São de material sintético, com duas tiras cruzadas na parte dianteira e assim se ligam aos pés.
Neste dia, a caminhada é menos cansativa, há menos alimentos a carregar.
As costas de Machu Pichu aproximam-se. Pepe inicia o seu já conhecido reportório de conhecimentos sobre a cidade inca, ao mesmo tempo que os companheiros aproveitam para demonstrarem claramente que já ouviram esses relatos vezes sem conta. Todos arranjam uma forma de se escaparem ás suas lições de história. Só Francisco, o mais novo do grupo, demonstra algum interesse, mas mesmo assim, pouco tempo. De facto, muita coisa há a dizer deste sítio. Foi edificado sobre um cerro, abarcando uma extensão de dois quilómetros de perímetro a 2800 metros sobre o nível do mar e a 400 sobre o caudaloso Rio Urubamba. Até hoje, ninguém sabe ao certo o significado arqueológico de tão majestosa cidade de pedra, toda construída em escadas, com quase todas as construções em níveis diferentes, com capacidade para resistir ás provações climáticas, e que, como cidade inteira, só perdeu os tectos de colmo.
É de calcular que a defesa não fosse difícil, uma vez que dois dos seus lados são formados por ladeiras quase a pique, o terceiro é uma garganta apertada, por onde passam caminhos, mas facilmente vigiáveis, e o quarto, é um pico que se eleva a 200 metros sobre um outro cerro. Daqui, Huainca-Pichu, lá de cima, tem-se Machu Pichu, já de si alta, aos pés.
Hoje, apenas os caminhantes mais arrojados e um sem número de borboletas de múltiplas cores por ali andam. Mas sobretudo a paisagem é arqueologicamente impressionante, aliada à beleza intrínseca desta parte dos Andes, revestidos por inspirações tropicais através de uma floresta semi-humida.
Amanhã, um novo grupo de turistas chegará ali, acompanhado do seu guia. Os carregadores, esses, depois de servirem o último pequeno-almoço, seguem mais leves rumo às suas vidas anónimas.

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