AS MONTANHAS DOS SHERPAS, O OXIGÉNIO DOS DEUSES




A subida ao Campo Base do Everest

De Jiri a Kala Patar, o velho percurso que alcança o sopé do Everest, antes ainda dos aviões chegarem a Lukla até há uns anos, era o único e longo caminho possível para chegar ao Base Camp do Everest e Kala Patar, o local onde melhor se avista o ponto mais alto do mundo, sem o escalar. A riqueza que o turismo trouxe é distribuída de forma irregular e se em certas zonas em tempos se lucrou muito, hoje transformaram-se em periferias pouco procuradas.



Himalaias, Kumbu Valley
Namche Bazar aparece solarenga, os picos brancos gelados, e os verdes de mais baixa altitude, fecham-na em ovo, dispondo-a em anfiteatro que aproveita a encosta menos a pique. É uma vila de pedra, com telhados multicolores e movimentação nas ruas situada a 3440 metros de altitude. Comércio a alto custo para os milhares de turistas que aqui se acomodam durante o ano, é também o local ideal para uma primeira aclimatização à altitude. Todo o tipo de hotéis e requintes culinários podem ser encontrados, boas pizzas, óptimas tartes, fondue de queijo, e muito mais. Mas não só, há inclusive um heliporto que serve um hotel de luxo em Shyangbuje, possibilita operações de resgate, bem como viagens a membros de expedições e elementos militares. Esta é a maneira mais rápida de chegar a Namche, ganhando um dia de caminhada aos que aterram em Lukla e para aqui ainda têm de se deslocar.
Todos os hotéis têm nomes parecidos, em Namche e em todo o percurso. Este chama-se “Valley View Lodge” e o proprietário, Nima Tamang, é um homem que sabe receber.
“ As últimas três décadas tiveram uma enorme repercussão na zona de Khumbu – afirma ele - a introdução do turismo trouxe oportunidades extraordinárias ao povo sherpa. Enquanto alguns povos como os Bhotia, que viviam das rotas trans-himalaicas, transportando e comercializando mercadorias, viram a sua cultura e subsistência dramaticamente alterada quando o Tibete foi anexado pela China e as relações fronteiriças sofreram alterações substanciais, os Sherpas encontraram no turismo uma alternativa.
A experiência de montanhismo e alpinismo de Nima revelou-se num instrumento precioso para acompanhar as crescentes expedições: “Já servi dezenas de vezes em expedições, como cozinheiro. O máximo que subi foi até aos 7400 metros. Tenho de ligar o fogão às 6:00 para conseguir ter o leite a ferver às 9:00.
“Os sherpas enriqueceram como nunca – continua - no entanto, não há só vantagens, o grande senão do turismo é que uns ganham outros gastam. O lucro fica quase todo com certos clãs que pagam muito mal aos seus empregados que fazem o trabalho mais duro.”
Dan come uma Rigi Kur (panqueca de batata), especialidade sherpa e mete-se na conversa. É um sherpa, carregador em serviço, mas nota-se que tem um tratamento especial. Acompanha um grupo de quatro norte-americanos que pela segunda vez vêm a este trilho e, como já o conheciam, pediram-lhe para chamar mais três amigos, contratando-os directamente.
“Ganho o dobro do que se trabalhasse para uma agência e eles (americanos) pagam metade.” – confirma Dan.
Sherpa é uma designação étnica, muitas vezes mal entendida pelos estrangeiros que pensam que apenas designa “carregador”.
“Outra das desvantagens do turismo – explica Dan – é que todos os produtos sofreram uma inflação tremenda. Como seria de calcular, quanto mais se sobe, mais altos são os preços. Mas só quem está a ganhar bem com o turismo não se vê em dificuldades para suportar estes preços. As outras pessoas viram a sua vida tornar-se muito mais difícil e o turismo é recebido com pouco ou nenhum entusiasmo.”
“E depois há situações irónicas” – avança Nima. “Até à chegada dos aviões a Lukla (a 2840 metros de altitude) e de helicópteros a Namche Bazar, as localidades de altitudes mais baixas, desde Jiri, eram as que lucravam mais com a chegada de estrangeiros. Hoje em dia, vêem os seus alojamentos desertos e as formas de subsistência tiveram de voltar aos métodos tradicionais de agricultura e imigração”.

5 comentários:

  1. Parabéns pelo blog! Excelente ideia! Fotografias magníficas! Obrigada pela partilha! abracinhos Susana G.

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  2. FINALMENTE.......já não era sem tempo, agora vê lá se colocas qualquer coisita de interessante, hehehehe.....bjinho pa cosmic e Parabéns!

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  3. Olá Raquel, vim aqui parar através de um link dos "bacalhoeiros" e fiquei fascinada :O. Parabéns, pelo teu blog, pelas fotos, pela partilha e principalmente pela coragem. Quem me dera ser capaz de um dia sair por aí e ir conhecer o mundo, sem medos.
    Cumprimentos

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  4. ontem, na revista do JN, tomei conhecimento do seu blog. Parabens pelo prémio que lhe foi atribuído! Andei pelo ibete, já lá vão uns anos e os seus textos, chamaram-se a atenção. Não por ter estado nos mesmos locais, pois efectivamente nunca estive na zona de acesso ao "mítico" Evereste e até só o vi durante uma viagem, Lhassa/Khatmamdu.
    Continue a dar-nos estas belas prosas sobre esse mundo "tão" conhecido dos portugueses e que nós "esquecemos"..........No Cambodja, "reencontrei" Diogo de Couto; no Japão "visitei" Wenceslau de Moraes, na Índia fui "esperar" o Vasco da Gama à praia de Kappkadavu; no Tibete "lembrei-me" das cartas de António de Andrade!
    Parabens pelas interessantíssimas prosas que nos proporciona!

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  5. enxugo oceanos
    nas dunas da praia

    mata-borrão rugas lonjura
    respirar d’água
    o passo indeciso das mãos
    em sombras chinesas

    palavras no silêncio dos icebergues
    tamborilam repetências
    morses

    (húmidos)
    os teus gestos de areia



    jorge casimiro

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