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De Jiri a Kala Patar, AS MONTANHAS DOS SHERPAS, O OXIGÉNIO DOS DEUSES




Caminhos de paciência
O autocarro que demora oito horas a chegar a Jiri, sai de um terminal caótico e apinhado de gente. As imagens de pobreza e doença dos mendigos confiscam a beleza à cidade de Katmandu e impelem à busca das partes mais altas, mais puras, menos oxigenadas.
Horas a ver montanhas crescer, a estrada tornava-se mais insignificante e atrevida. Uma noite de repouso em Jiri (1955 metros), uma aldeia de casas de madeira e comércio destinado apenas aos locais, recorda que este é o último ponto antes de se penetrar nas trilhas sem veículos motorizados. Mulheres avantajadas encostam-se às portas das suas lojas, sentadas em bancos, disfarçadas pela quantidade de material que as rodeia, esperando que alguém lhes dê conversa. Todo o material pesado ou de grandes dimensões, parece estar estacionado neste último armazém, à espera de ser levado para os montes isolados: mantas empilhadas, pás de agricultura, grandes bidões, sanitas “Indian style” ( latrinas), canos, roupa e cestas de mais de um metro em formato abaulado (dhoko).
O início da trilha é percorrido por mulheres adolescentes, caminhando rapidamente com dhokos às costas, carregadas até ao cimo. Jiri desaparece do mapa e os pequenos povoados de 4 ou 5 casas aparecem hora sim hora não. Muitos carregadores levam as suas cargas apoiados com dois objectos fundamentais: uma faixa que liga a carga à testa e uma”teko”. A teko tem utilidade repartida: é uma vara grossa, em forma de T que serve para descansar nos momentos de menos forças pousando a carga contra o pau que a ampara (nem é necessário retirá-la do contacto com as costas); serve de bengala e ainda como arma de defesa para algum perigo inusitado.
Pontes himalaicas recentes cruzam inúmeras vezes os rios. Substituíram a madeira pelo aço e bamboleiam só em dias de monções. O progresso foi chegando com a fama crescente da cordilheira.
Camponeses separam o trigo do joio sentados nas varandas com vista soberba.
“ Namasté!” - Saúdam quem passa.
O rio é o mote para uma nova aldeia, Shivalaya, quatro horas depois de Jiri e daqui a subida inclina-se com orgulho, os carregadores nem repousam, tal deve ser a ansiedade de se verem livres de tal rampa. Até Deorali, onde se pernoita, sobe-se até aos 2750 metros e de seguida desce-se até aos 2150. Além da duração e extensão percorrida (mais de 200 quilómetros), este trekking tem esta dificuldade acrescida: até aos 3400 metros de altitude, os montes sobem-se e descem-se constantemente, numa dança em carrossel que adapta o corpo para passeios mais altos, mas o desgasta lentamente.
Passa-se ao largo de uma fábrica de queijo, construída com a ajuda da Suíça nos anos 50 antes de chegar a Bhandar. Daqui até Nuntala são mais três ou quatro dias de caminhada
passando por Kenja a 1570 metros e subindo depois até Sete, junto a uma Gompa (mosteiro budista tibetano) a 2575. Depois começa uma grande mas gradual subida até aos 3530, Lamjura, que marca o ponto mais alto até aos últimos dias de trekking, quando se passa ao reino dos 4000 metros. É o desfilar de pequenas aldeias de telhado de alumínio, brilhando ao sol; vacas lavrando com arados de madeira e crianças que as comandam; búfalos presos ou à solta; stupas (estruturas hemisféricas budistas) homenageando a fé dos homens; mulas que - a esta altitude - ainda podem transportar o que os donos lhes mandam; miúdos brincando à pesca à beira dos regatos; cabras e bodes cabeludos.
Os alojamentos que se encontram para pernoitar são cabanas ou casas de madeira com cheiro a roupa lavada, mas sem qualquer extravagância de conforto. A casa de banho é um cubículo com um buraco entre as tábuas e um grande monte de erva seca e terra está à disposição de todos para que se arranque um punhado, substituindo a descarga do autoclismo. As cozinhas sempre com lenha a queimar, estão preenchidas de fumo de fogo e vapores cheirosos de comida prestes a atacar o frio das entranhas. A loiça metálica e de plástico alinha-se pelas estantes de madeira envernizada e grandes panelas fervem leite de yak na boca do fogão a lenha.
Passam poucas pessoas no caminho, quase exclusivamente carregadores. Poucos ou nenhuns turistas se aventuram tantos dias a contornar montanhas. A espera pelos picos de 6000 ou mais, torna-se impaciente, o cansaço suspira por imagens mais inéditas, mas cada dia tem a obrigatoriedade de várias horas de andamento, o ritmo é imposto para se chegar a Namche Bazar, que a dado momento parece muito mais longínquo do que era de se esperar.
Uma grande descida, de horas a percorrer calhau em calhau, desemboca em Phurtyang.
O ambiente de serra manifesta-se no verde dos matos e força dos rios. Roupa seca estendida em troncos de madeira, ou na erva ou na sebe. O sol penetra por entre as nuvens depois de tantas vezes ameaçar chover e desistir. O objectivo final: Kala Patar e o Campo Base do Everest, por esta altura estava longe. Mas é em Phurtyang, pela madrugada, que se tem a primeira visão do Everest, longínquo, um dos vários picos que trespassam as nuvens. O ajuntamento de telhas onde se pode tomar um “hot shower” como anunciou o estalajadeiro (mas não passou de uma bacia com água a ferver e um púcaro) tem uma fenda com vista para os cumes. Até a montanha mais alta do mundo cabe dentro de uma fenda. Tudo é possível realmente.
Um carregador com uma carga quase exclusiva de guarda-chuvas passa com ligeireza e deixa o rasto do seu rádio a pilhas que entretém o grupo. Têm uma dinâmica muito própria - quem leva a música, quando há, vai no meio do grupo; o menos carregado na dianteira e o mais sobrecarregado atrás. Quando o último pára para descansar, assobia. E todos param ou assobiam até a informação ter chegado ao ponteiro da comitiva.
Camponeses de blusões atados à cintura, dão uso à enxada e esquecem-se do frio por umas horas. Cavam energicamente de nádegas para cima e costas encurvadas.
As “orações automáticas” como lhes chamam, são bandeirolas quadradas muito coloridas presentes em todo o lado, quer perto de mosteiros e templos quer atadas a postes ou árvores. São automáticas porque o vento passa e faz com que as escrituras sagradas budistas lá inscritas bailem ao ar, rezando. Em rota de colisão com a divindade está também o Numbur. De Phurtyang a Nuntala (a aldeia de tectos vermelhos, azuis, cinzentos e amarelos) o trajecto é marcado pela aparição da montanha Numbur, claro e frio, o primeiro grande gigante de 6959 metros a desentorpecer o monotonia de montes verdes e viçosos.

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