
A chegada a Bupsa dá-se ao fim da manhã e o alojamento acolhedor de Geljen Sherpa (todos os sherpas têm este apelido) ajuda a escolha de por ali ficar. Passados seis dias, uma tarde sem caminhadas.
É uma casa de pedra com dois andares, janelas pintadas de roxo e um pátio-mirante, sem nenhum hóspede até então. Geljen é um homem de quarenta e poucos anos, bonito de porte atlético e a sua estalagem está cheia de referências às mais altas montanhas do mundo; não só o maciço do Everest como também o K2 (Paquistão) e Kangchenjunga, a terceira mais alta (que faz fronteira com Sikkim, na Índia). Percebe-se rapidamente que a sua relação com as montanhas está para a além dos lindos posters que enfeitam a sala de estar.
“Subi-o em 2005. Foi o monte Everest que me deu a oportunidade de construir esta casa.” – menciona de sorriso discreto.
O Governo nepalês contempla os cidadãos nacionais com cerca de 10 000 euros a quem “conquiste” a mais alta montanha, uma pequena fortuna que permite começar a vida a muitos casais e aumentar o record de nepaleses que figuram no registo.
“ Na altura a minha mulher estava grávida e não sabíamos muito bem como seria o futuro. Nunca me tinha lembrado de correr tamanho risco, mas naquele dia decidi e pronto, fui. Tinha já escalado montanhas de 7000 metros e sou um sherpa, nós percebemos destas coisas.”- afirma Geljen.
O que sentiu quando chegou lá acima, está à vista de todos, exposto em fotografias e mapas com linhas amarelas e verdes delineando percursos.
“ O que senti, o que pensei…. – ri-se – foi: o que é que eu estou a fazer aqui em cima, quero ir ter com a minha mulher. – exclama com uma certa penumbra no olhar - Só passado algum tempo consegui sentir a alegria de o ter escalado. No momento não senti nada, só a sensação de me estar a meter onde não devia…Mas hoje sou um homem feliz, voltei e realizei o que queria.”
Menciona também que tal proeza está ao alcance de muitos, hoje em dia.
“Sinceramente acredito que a partir dos 7000 metros, somos todos iguais, pouco ou nada importa a preparação física que tenhamos. As condições são tão árduas que somos todos igualmente frágeis, o que ajuda é sem dúvida a força mental com que levamos até ao fim o nosso objectivo. Depois é uma questão de sorte.” – afirma quem desafiou a morte. O sorriso é tão grande que qualquer um parece carrancudo ao seu lado. Cozinha ao lado da esposa e só responde ao que lhe perguntam.
Crianças são lavadas em grandes bacias metálicas na rua, choram ou queixam-se. A água é límpida mas vem do gelo. O rio Dudh Koshi, que quer dizer “Rio de leite”, desce pelas encostas trazendo as últimas novas dos glaciares. A aldeia plantada na montanha tem um cenário soberbo sobre as outras em volta.
De Bupsa a Surkey foi mais um dia a subir, observando aranhas que trepam as suas teias invisíveis na luz do entardecer, e as mani, pedragulhos esculpidos com o canto tibetano budista “om mani padme hum”, omnipresentes em quase todos os quilómetros do itinerário montanhista. As paragens servem para observar um pouco mais este povo peculiar, o corrupio da época alta do turismo já passou, mas agora há que preparar a estação das chuvas que já visitam alguns dias neste período de Junho. Encontram-se alguns monges budistas nas aldeias maiores, acompanhados dos seus pupilos. Crianças carregam a mochila da escola com uma das alças à cabeça, imitando os hábitos de gente graúda. Alguns carregadores espetam um guarda-chuva aberto por cima da carga já envolta num grande plástico. De costas ostentam o tamanho de dois metros e meio ou mais. O caudal do rio Dudh Koshi aumenta na zona de Bengkar, no vale com o nome do rio, há quedas de água e a chegada a Namche, a grande vila das montanhas, já não está longe. Foram nove dias a caminhar até aqui. Falta apenas pedir e pagar a entrada no Sagarmatha National Park, entrar em território protegido e subir uma inclinada trilha que dos 2810 alcança os 3480 metros.
É uma casa de pedra com dois andares, janelas pintadas de roxo e um pátio-mirante, sem nenhum hóspede até então. Geljen é um homem de quarenta e poucos anos, bonito de porte atlético e a sua estalagem está cheia de referências às mais altas montanhas do mundo; não só o maciço do Everest como também o K2 (Paquistão) e Kangchenjunga, a terceira mais alta (que faz fronteira com Sikkim, na Índia). Percebe-se rapidamente que a sua relação com as montanhas está para a além dos lindos posters que enfeitam a sala de estar.
“Subi-o em 2005. Foi o monte Everest que me deu a oportunidade de construir esta casa.” – menciona de sorriso discreto.
O Governo nepalês contempla os cidadãos nacionais com cerca de 10 000 euros a quem “conquiste” a mais alta montanha, uma pequena fortuna que permite começar a vida a muitos casais e aumentar o record de nepaleses que figuram no registo.
“ Na altura a minha mulher estava grávida e não sabíamos muito bem como seria o futuro. Nunca me tinha lembrado de correr tamanho risco, mas naquele dia decidi e pronto, fui. Tinha já escalado montanhas de 7000 metros e sou um sherpa, nós percebemos destas coisas.”- afirma Geljen.
O que sentiu quando chegou lá acima, está à vista de todos, exposto em fotografias e mapas com linhas amarelas e verdes delineando percursos.
“ O que senti, o que pensei…. – ri-se – foi: o que é que eu estou a fazer aqui em cima, quero ir ter com a minha mulher. – exclama com uma certa penumbra no olhar - Só passado algum tempo consegui sentir a alegria de o ter escalado. No momento não senti nada, só a sensação de me estar a meter onde não devia…Mas hoje sou um homem feliz, voltei e realizei o que queria.”
Menciona também que tal proeza está ao alcance de muitos, hoje em dia.
“Sinceramente acredito que a partir dos 7000 metros, somos todos iguais, pouco ou nada importa a preparação física que tenhamos. As condições são tão árduas que somos todos igualmente frágeis, o que ajuda é sem dúvida a força mental com que levamos até ao fim o nosso objectivo. Depois é uma questão de sorte.” – afirma quem desafiou a morte. O sorriso é tão grande que qualquer um parece carrancudo ao seu lado. Cozinha ao lado da esposa e só responde ao que lhe perguntam.
Crianças são lavadas em grandes bacias metálicas na rua, choram ou queixam-se. A água é límpida mas vem do gelo. O rio Dudh Koshi, que quer dizer “Rio de leite”, desce pelas encostas trazendo as últimas novas dos glaciares. A aldeia plantada na montanha tem um cenário soberbo sobre as outras em volta.
De Bupsa a Surkey foi mais um dia a subir, observando aranhas que trepam as suas teias invisíveis na luz do entardecer, e as mani, pedragulhos esculpidos com o canto tibetano budista “om mani padme hum”, omnipresentes em quase todos os quilómetros do itinerário montanhista. As paragens servem para observar um pouco mais este povo peculiar, o corrupio da época alta do turismo já passou, mas agora há que preparar a estação das chuvas que já visitam alguns dias neste período de Junho. Encontram-se alguns monges budistas nas aldeias maiores, acompanhados dos seus pupilos. Crianças carregam a mochila da escola com uma das alças à cabeça, imitando os hábitos de gente graúda. Alguns carregadores espetam um guarda-chuva aberto por cima da carga já envolta num grande plástico. De costas ostentam o tamanho de dois metros e meio ou mais. O caudal do rio Dudh Koshi aumenta na zona de Bengkar, no vale com o nome do rio, há quedas de água e a chegada a Namche, a grande vila das montanhas, já não está longe. Foram nove dias a caminhar até aqui. Falta apenas pedir e pagar a entrada no Sagarmatha National Park, entrar em território protegido e subir uma inclinada trilha que dos 2810 alcança os 3480 metros.
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