


Falésias e trapézios
Atravessa-se Ribeira Grande à hora de saída dos quase três mil alunos do Liceu Lizete Delgado. Dispersam-se pela cidade e pelas montanhas, trepando os inóspitos desfiladeiros.
Segue-se viagem para Chã da Igreja. Nhô Silva, um dos quinze passageiros que viajam na “Hiáce” aproveita a viagem para desabafar as suas preocupações, com peculiar sentido de humor:
-“ Os chineses e as lojas deles já não me enganam mais vez nenhuma. Comprei lá umas sandálias que duraram dois dias. – Já viveu em Portugal muito tempo, trabalhando na construção civil. De facto, como em muitos outros locais do mundo, também em Cabo Verde as lojas chinesas imperam a cada esquina.
- Já cheguei à conclusão que mais vale comprar dez camisas logo de seguida nas lojas dos chineses para as ir substituindo conforme se rompam. - remata.
As conversas tornam-se impossíveis com o ranger dos travões nas descidas até Chã de Igreja, já bem junto ao mar.
De Chã de Igreja a Cruzinha, uma pequena aldeia piscatória, e até Fontainhas, pode-se fazer um percurso pedestre sempre na rocha à beira-mar. A trilha faz lembrar uma antiquíssima estrada romana, pede um metro e meio emprestado à falésia, quer acompanhado por um muro de protecção quer sem ele, quer subindo quer descendo, degraus e zigue-zagues.
Antes de chegar às Fontainhas ainda se passa por Formiguinhas e Corvo, duas aldeias encravadas entre o mar e o maciço rochoso, num isolamento com tanto horizonte que potenciará mais ainda a aflição de emigrar.
Ti Jôn abre as portas da sua casa, vende cervejas e água a quem passa, nada mais. Na sua sala de estar exibem-se em prateleiras os mais variados electrodomésticos, um microondas, uma torradeira, um dvd, uma pequena aparelhagem, uma batedeira eléctrica, uma varinha mágica. Tudo dentro das respectivas embalagens, sugerindo pouco ou nenhum uso.
- É a minha filha que me envia estas coisas. Vêm da Alemanha. – esclarece.
O troço do percurso até ao Corvo é mais escarpado e sinuoso. Aqui existem uns estabelecimentos parecidos com cafés, mas de qualquer maneira a vida continua a enunciar-se dura e cheia de sacrifícios.
As Fontainhas, a aldeia-presépio surge finalmente no horizonte. As casas usam-se umas às outras como alicerces e o precipício, que se desenha aos socalcos, é aproveitado ao milímetro para cultivo. Alfaces crescem no sentido horizontal, mas de raiz persistente. A parte inferior da aldeia serve de trapézio à de cima e a falésia é apenas uma armadilha que há muitos anos passou a ser ignorada. Junto ao mar, à distância de vários metros de altitude, foi alisado um campo de futebol e as crianças chutam as bolas, trajadas de camisolas de jogadores lusos ou brasileiros.
O Sr. Teófilo é dos poucos com vontade de falar. Em poucos minutos põe-se à vontade e começa a recitar a História de Portugal como quem recita poesia, às vezes perde-se no tempo, nunca a coerência. Dá a entender que decorou pedaços de livros inteiros. A época de D. Afonso Henriques e da formação de Portugal é a sua preferida. Egas Moniz o seu herói. Com a quarta classe, estudou Geografia, Economia e História:
- Sem dúvida que antigamente o ensino era muito mais exigente, e as crianças saíam dali preparadas para a vida, mas confesso que até aos vinte e tal anos sabia de cor todas as linhas férreas de Portugal e nem sequer sabia por quantas ilhas era formado o arquipélago de Cabo Verde. – comenta o Sr. Teófilo um senhor com setenta anos e aspecto de cinquenta.
É a nota comum entre este povo, a partir de uma certa e avançada idade, todos aparentam aproximadamente menos dez ou quinze anos.
A televisão sintoniza os canais portugueses. As pessoas estão ocupadas com as suas vidas, não há pressa para nada, só teimosia de existir.
O tempo passa tão devagar que se enganam as rugas, se enganam os filhos, os netos e os bisnetos: a saúde e a total ausência de stress deve ser a dádiva dos deuses atlantes aos bravos que persistem em habitar locais tão remotos.
Quem melhor explica tal ímpeto do espírito, é o filho mais novo do Sr. Teófilo, juiz da comarca de Ponta do Sol, a vila mais próxima. Estudou na Faculdade de Direito de Lisboa e frequentou o SEJ (Centro de Estudos Judiciários) durante mais dois anos. Regressou a S. Antão contente com a experiência em Portugal, com o enriquecimento cultural e profissional que desejava. Agora, sentado no chão com uma mini Sagres presa entre os dedos, camisola de alças realçando o corpo mulato, cerra os olhos por detrás dos óculos descansando brevemente de mais um dia de processos e sentenças.
- Só na minha ilha tenho a sensação de estar em casa e ao mesmo tempo navegar continuamente. É um sentimento ilhéu e atlântico. Ironicamente, só em S. Antão não me sinto preso ao chão. – Explica descontraído, de sorriso enigmático.
Atravessa-se Ribeira Grande à hora de saída dos quase três mil alunos do Liceu Lizete Delgado. Dispersam-se pela cidade e pelas montanhas, trepando os inóspitos desfiladeiros.
Segue-se viagem para Chã da Igreja. Nhô Silva, um dos quinze passageiros que viajam na “Hiáce” aproveita a viagem para desabafar as suas preocupações, com peculiar sentido de humor:
-“ Os chineses e as lojas deles já não me enganam mais vez nenhuma. Comprei lá umas sandálias que duraram dois dias. – Já viveu em Portugal muito tempo, trabalhando na construção civil. De facto, como em muitos outros locais do mundo, também em Cabo Verde as lojas chinesas imperam a cada esquina.
- Já cheguei à conclusão que mais vale comprar dez camisas logo de seguida nas lojas dos chineses para as ir substituindo conforme se rompam. - remata.
As conversas tornam-se impossíveis com o ranger dos travões nas descidas até Chã de Igreja, já bem junto ao mar.
De Chã de Igreja a Cruzinha, uma pequena aldeia piscatória, e até Fontainhas, pode-se fazer um percurso pedestre sempre na rocha à beira-mar. A trilha faz lembrar uma antiquíssima estrada romana, pede um metro e meio emprestado à falésia, quer acompanhado por um muro de protecção quer sem ele, quer subindo quer descendo, degraus e zigue-zagues.
Antes de chegar às Fontainhas ainda se passa por Formiguinhas e Corvo, duas aldeias encravadas entre o mar e o maciço rochoso, num isolamento com tanto horizonte que potenciará mais ainda a aflição de emigrar.
Ti Jôn abre as portas da sua casa, vende cervejas e água a quem passa, nada mais. Na sua sala de estar exibem-se em prateleiras os mais variados electrodomésticos, um microondas, uma torradeira, um dvd, uma pequena aparelhagem, uma batedeira eléctrica, uma varinha mágica. Tudo dentro das respectivas embalagens, sugerindo pouco ou nenhum uso.
- É a minha filha que me envia estas coisas. Vêm da Alemanha. – esclarece.
O troço do percurso até ao Corvo é mais escarpado e sinuoso. Aqui existem uns estabelecimentos parecidos com cafés, mas de qualquer maneira a vida continua a enunciar-se dura e cheia de sacrifícios.
As Fontainhas, a aldeia-presépio surge finalmente no horizonte. As casas usam-se umas às outras como alicerces e o precipício, que se desenha aos socalcos, é aproveitado ao milímetro para cultivo. Alfaces crescem no sentido horizontal, mas de raiz persistente. A parte inferior da aldeia serve de trapézio à de cima e a falésia é apenas uma armadilha que há muitos anos passou a ser ignorada. Junto ao mar, à distância de vários metros de altitude, foi alisado um campo de futebol e as crianças chutam as bolas, trajadas de camisolas de jogadores lusos ou brasileiros.
O Sr. Teófilo é dos poucos com vontade de falar. Em poucos minutos põe-se à vontade e começa a recitar a História de Portugal como quem recita poesia, às vezes perde-se no tempo, nunca a coerência. Dá a entender que decorou pedaços de livros inteiros. A época de D. Afonso Henriques e da formação de Portugal é a sua preferida. Egas Moniz o seu herói. Com a quarta classe, estudou Geografia, Economia e História:
- Sem dúvida que antigamente o ensino era muito mais exigente, e as crianças saíam dali preparadas para a vida, mas confesso que até aos vinte e tal anos sabia de cor todas as linhas férreas de Portugal e nem sequer sabia por quantas ilhas era formado o arquipélago de Cabo Verde. – comenta o Sr. Teófilo um senhor com setenta anos e aspecto de cinquenta.
É a nota comum entre este povo, a partir de uma certa e avançada idade, todos aparentam aproximadamente menos dez ou quinze anos.
A televisão sintoniza os canais portugueses. As pessoas estão ocupadas com as suas vidas, não há pressa para nada, só teimosia de existir.
O tempo passa tão devagar que se enganam as rugas, se enganam os filhos, os netos e os bisnetos: a saúde e a total ausência de stress deve ser a dádiva dos deuses atlantes aos bravos que persistem em habitar locais tão remotos.
Quem melhor explica tal ímpeto do espírito, é o filho mais novo do Sr. Teófilo, juiz da comarca de Ponta do Sol, a vila mais próxima. Estudou na Faculdade de Direito de Lisboa e frequentou o SEJ (Centro de Estudos Judiciários) durante mais dois anos. Regressou a S. Antão contente com a experiência em Portugal, com o enriquecimento cultural e profissional que desejava. Agora, sentado no chão com uma mini Sagres presa entre os dedos, camisola de alças realçando o corpo mulato, cerra os olhos por detrás dos óculos descansando brevemente de mais um dia de processos e sentenças.
- Só na minha ilha tenho a sensação de estar em casa e ao mesmo tempo navegar continuamente. É um sentimento ilhéu e atlântico. Ironicamente, só em S. Antão não me sinto preso ao chão. – Explica descontraído, de sorriso enigmático.
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