

Em pleno Oceano Atlântico, uma ilha do arquipélago de Cabo Verde destaca-se das demais pela sua morfologia e latitude. As suas gentes, desde há séculos enfrentam o desafio de viver em condições acrobáticas, pendurando-se nas serras e transpondo-as com a força de uma comunidade. Encaram-se os dias. Os pais vão ensinando algo aos filhos: a teimosia de existir.
As gentes de S. Antão, são um povo escalador e teimoso, as casas são construídas tendo como arrimos certos blocos de rocha, ou encavalitadas nas encostas, perseguindo as estrias vincadas da montanha. Muitas choupanas também se equilibram em confluências de rochas, encaixadas em grandes aberturas de grutas. As reentrâncias na terra, quando largas, servem de estábulo aos burros, ou de depósito de colheitas.
À medida que se vai avançando pelo Paúl acima, torna-se mais claro o esforço dos camponeses desta terra: os socalcos são construídos em locais impensáveis, permitindo hortas verdadeiramente suspensas, culturas às prateleiras que quanto mais em altitude, mais difíceis se adivinham de lavrar. Aldeões também se encontram dispersos e pendurados na paisagem, recolhendo pacientemente palhas estéreis que servem de pasto para o gado e também de lenha.
Chega-se a Cabo da Ribeira. O percurso deixa de ser transitável por veículos, tudo é carregado às costas e encontra-se logo de seguida uma quinta onde o trapiche está a funcionar. Um odor característico da calda e grogue bagaço junta-se ao queixume das canas esmagando-se contra os cilindros de aço. Lembra que o grogue (aguardente de cana de açúcar) é produzido nesta ilha e faz as delícias e as loucuras do resto do arquipélago. Carregam-se os baldes de calda até às pipas de fermentação no armazém onde repousarão quinze dias, por um trilho que acompanha a encosta íngreme, rodando-se os baldes para à frente ou para os lados, conforme o espaço que existe para passar. No alambique é colocada a calda já pronta, o forno alimentado a lenha leva à fervura este soro transformando-o em aguardente, o grogue que no final, através de um cano aberto ao ar desagua num garrafão de vidro transparente.
No meio dos homens que trabalham, duas ou três crianças bebericam a calda da cana. Um deles, William, de 12 anos, o mais conversador e curioso, ajuda nas tarefas que os adultos lhe encomendam. O seu sorriso franco acompanha-o à escola todas as manhãs e assim continua durante o resto do dia. Os olhos muito abertos, acompanhados pelo português desenvencilhado (além do francês e inglês que já arranha) permitem-lhe dialogar com pessoas de inúmeras nacionalidades. S. Antão é procurado sobretudo por turismo de montanha. William vai convivendo com outros povos, crescendo rápido, com a inocência e a força das montanhas.
- Quem não aprende a ler nem a escrever não pode ser grande coisa na vida. – entende ele - Bebi uma vez grogue e jurei para nunca mais, parecia que já estava morto, via estrelas em todo o lado. – acrescenta estrategicamente.
Fala tudo o que lhe deixarem, um correctíssimo português com sede de pessoas novas que o escutem.
– O meu tio é mecânico de automóvel em Portugal – continua - se eu estudar e conseguir ter boas notas vou trabalhar com ele. – O sonho de emigrar existe em quase todos os habitantes desta terra, mais cedo ou mais tarde, todos tomam consciência que é a única saída para quem ambiciona trepadas ainda mais altas.
O professor Jorge, encostado a uma palmeira e com um cálice de grogue a descontrair a tarde, lecciona o primeiro ciclo na escola de Sinagoga, uma aldeia a alguns quilómetros dali. Nasceu em Poço do Bispo em Lisboa e a mãe, cabo-verdiana, não o podendo criar, pô-lo na antiga “Roda”, a extinta instituição que aceitava crianças abandonadas. As crianças eram recolhidas numa estrutura que rodava entre a rua e o interior das instalações, conferindo assim o anonimato ao progenitor que a abandonava. Morou sempre em Lisboa e já em adolescente veio viver para S. Antão e nunca mais daqui saiu.
William pergunta-lhe sobre a lenda da bruxa que existiu nuns montes no Paúl, uma mulher a quem as pessoas temiam pela anormal formosura. Jorge explica ao pupilo que essa lenda existiu e ainda se sabem de algumas histórias de pessoas muito bonitas com fama de bruxas.
- A diversidade racial em Cabo Verde é tanta, com todas as misturas possíveis entre raças, que de vez em quando aparecem pessoas que até espantam pela beleza. Incomodadas pelo falatório, antigamente, havia quem se recolhesse em casa, levantando suspeitas de conjuras com o diabo. - exclama Jorge.
Cai o sol. O matraquear do trapiche mecânico a funcionar imprime uma função diferente ao tempo, não é noite nem dia, é hora de trabalho. Grandes montes de cana enchem os terreiros à espera de novo destino, provavelmente para entelhar as casas por construir, um telhado perfeito, dizem, não deixa penetrar uma gota das chuvadas.
Cabras desengonçadas descem resvalando de um pico escarpado e sem caminho à vista. Um homem velho surge pouco depois, ultrapassando-as e assobiando. Não usa as mãos e apenas um cajado dá impulso aos saltos que vai dando de rocha em rocha.
As gentes de S. Antão, são um povo escalador e teimoso, as casas são construídas tendo como arrimos certos blocos de rocha, ou encavalitadas nas encostas, perseguindo as estrias vincadas da montanha. Muitas choupanas também se equilibram em confluências de rochas, encaixadas em grandes aberturas de grutas. As reentrâncias na terra, quando largas, servem de estábulo aos burros, ou de depósito de colheitas.
À medida que se vai avançando pelo Paúl acima, torna-se mais claro o esforço dos camponeses desta terra: os socalcos são construídos em locais impensáveis, permitindo hortas verdadeiramente suspensas, culturas às prateleiras que quanto mais em altitude, mais difíceis se adivinham de lavrar. Aldeões também se encontram dispersos e pendurados na paisagem, recolhendo pacientemente palhas estéreis que servem de pasto para o gado e também de lenha.
Chega-se a Cabo da Ribeira. O percurso deixa de ser transitável por veículos, tudo é carregado às costas e encontra-se logo de seguida uma quinta onde o trapiche está a funcionar. Um odor característico da calda e grogue bagaço junta-se ao queixume das canas esmagando-se contra os cilindros de aço. Lembra que o grogue (aguardente de cana de açúcar) é produzido nesta ilha e faz as delícias e as loucuras do resto do arquipélago. Carregam-se os baldes de calda até às pipas de fermentação no armazém onde repousarão quinze dias, por um trilho que acompanha a encosta íngreme, rodando-se os baldes para à frente ou para os lados, conforme o espaço que existe para passar. No alambique é colocada a calda já pronta, o forno alimentado a lenha leva à fervura este soro transformando-o em aguardente, o grogue que no final, através de um cano aberto ao ar desagua num garrafão de vidro transparente.
No meio dos homens que trabalham, duas ou três crianças bebericam a calda da cana. Um deles, William, de 12 anos, o mais conversador e curioso, ajuda nas tarefas que os adultos lhe encomendam. O seu sorriso franco acompanha-o à escola todas as manhãs e assim continua durante o resto do dia. Os olhos muito abertos, acompanhados pelo português desenvencilhado (além do francês e inglês que já arranha) permitem-lhe dialogar com pessoas de inúmeras nacionalidades. S. Antão é procurado sobretudo por turismo de montanha. William vai convivendo com outros povos, crescendo rápido, com a inocência e a força das montanhas.
- Quem não aprende a ler nem a escrever não pode ser grande coisa na vida. – entende ele - Bebi uma vez grogue e jurei para nunca mais, parecia que já estava morto, via estrelas em todo o lado. – acrescenta estrategicamente.
Fala tudo o que lhe deixarem, um correctíssimo português com sede de pessoas novas que o escutem.
– O meu tio é mecânico de automóvel em Portugal – continua - se eu estudar e conseguir ter boas notas vou trabalhar com ele. – O sonho de emigrar existe em quase todos os habitantes desta terra, mais cedo ou mais tarde, todos tomam consciência que é a única saída para quem ambiciona trepadas ainda mais altas.
O professor Jorge, encostado a uma palmeira e com um cálice de grogue a descontrair a tarde, lecciona o primeiro ciclo na escola de Sinagoga, uma aldeia a alguns quilómetros dali. Nasceu em Poço do Bispo em Lisboa e a mãe, cabo-verdiana, não o podendo criar, pô-lo na antiga “Roda”, a extinta instituição que aceitava crianças abandonadas. As crianças eram recolhidas numa estrutura que rodava entre a rua e o interior das instalações, conferindo assim o anonimato ao progenitor que a abandonava. Morou sempre em Lisboa e já em adolescente veio viver para S. Antão e nunca mais daqui saiu.
William pergunta-lhe sobre a lenda da bruxa que existiu nuns montes no Paúl, uma mulher a quem as pessoas temiam pela anormal formosura. Jorge explica ao pupilo que essa lenda existiu e ainda se sabem de algumas histórias de pessoas muito bonitas com fama de bruxas.
- A diversidade racial em Cabo Verde é tanta, com todas as misturas possíveis entre raças, que de vez em quando aparecem pessoas que até espantam pela beleza. Incomodadas pelo falatório, antigamente, havia quem se recolhesse em casa, levantando suspeitas de conjuras com o diabo. - exclama Jorge.
Cai o sol. O matraquear do trapiche mecânico a funcionar imprime uma função diferente ao tempo, não é noite nem dia, é hora de trabalho. Grandes montes de cana enchem os terreiros à espera de novo destino, provavelmente para entelhar as casas por construir, um telhado perfeito, dizem, não deixa penetrar uma gota das chuvadas.
Cabras desengonçadas descem resvalando de um pico escarpado e sem caminho à vista. Um homem velho surge pouco depois, ultrapassando-as e assobiando. Não usa as mãos e apenas um cajado dá impulso aos saltos que vai dando de rocha em rocha.
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