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De Namche Bazar ao miradouro do Everest





Faltam 4 ou 5 dias para Kala Patar, no mínimo. Estão reunidas forças e mentalização, fruto da climatização seguramente, para subir a grande escadaria que é a porta de saída de Namche Bazar. O caminho continua em direcção aos picos mais altos e logo ao sair do anfiteatro formado por Namche, é possível avistar montanhas tresmalhadas sem dono, isoladas e obstinadas, pouco tempo sem a companhia das nuvens. É aliás pouco depois que se avista claramente o pico do Everest, por detrás de uma Stupa branca, com dois olhos minuciosamente desenhados, hipnotizados pelas bandeirolas esvoaçantes. Aparece disfarçado pelas suas montanhas familiares, rodeado e protegido, um cume até insignificante, dá ideia ao princípio. As nuvens aparecem a meio da manhã, apoderam-se das vistas magníficas e obrigam quem por ali anda a focar paisagens mais próximas. O número de turistas aumenta consideravelmente a partir de Namche, a esmagadora maioria chegou via Lukla.
Mulheres, homens e adolescentes nepaleses carregam dhokos extremamente pesadas, cheias de madeira. Uma movimentação extraordinária de lenha observa-se a partir dos 3800 metros. Nima já havia explicado: “Uma das directrizes principais do Sagarmatha National Park, a quando da sua criação em 1976, foi o controle de abate de árvores no perímetro do parque, limitando as espécies e a quantidade permitida a cada aldeia. Esta medida reduziu a desflorestação mas houve custos: as florestas fora das fronteiras do parque sofreram uma procura muito maior. Por outro lado, a maior parte dos “rangers” que trabalham na vigilância deste parque são Newaris, ou seja, o povo nepalês das terras baixas, do Vale de Katmandu. Isto é um território de difícil compreensão para eles e não conseguem penetrar em muitas zonas e locais elevados onde se situavam muitas das florestas que deviam proteger. É uma situação complicada, estes guardas têm a missão de proteger o ambiente das pessoas que são os donos destas terras, o povo original deste território desde há 500 anos. E que procuram o que sempre procuraram: a satisfação das suas necessidades básicas como cozinhar e aquecerem os lares.”
Aldeias ancoradas em fundos vales deixam sair fumo das chaminés. A caminhada sobe sem fôlego até Tengboche, a 3860 metros, onde um mosteiro altaneiro dá as horas através de sinos que ressoam a quilómetros. Monges e monjas vestidos com cores que não variam mais do que o vermelho, amarelo e cor de vinho, agarram em varas e “sticks” em preparação para a descida. Até para isso parecem concentrar-se.
O Ama Dablam, de 6856 metros, paira no horizonte com a sua forma de montanha atípica, com um pico quase redondo encostado a outro de forma mais normal, como se fossem gémeos falsos, ou um monstro de duas cabeças.
Muitas horas de caminho quase a direito reanimam os montanhistas, um presente da natureza para estimular a subida a “Periche Pass”, a 4270 metros, antes de entrar em Periche, uma aldeia protegida por um vale gigante, atravessado por um rio e campo sem limites para a pastagem de inúmeros de yaks e naks (a fêmea). Os yaks domésticos nepaleses, por sinal os mais pequenos entre as populações das redondezas (Tibete, China, Mongólia) pesam cerca 360 quilos. Se falarmos das naks rondarão os 300 quilos. Encontram-se acima dos 3000 até aos 6000 metros. Não é possível encontrá-los antes devido ao seu pêlo extremamente comprido e abundante e porque não são imunes às doenças que existam a baixas altitudes. Observam-se algumas naks a grunhir às suas crias, é muito curiosa esta vocalização. São animais impressionantes, ostentam ar de complacência, dá a ideia que se recordam que já foram donos de tudo aquilo e agora, domesticados, prestam um favor, aturam os humanos e os seus desmandos. De qualquer maneira, os pastores da zona contam histórias de yaks intratáveis e imprevisíveis, que conseguem soltar as cargas e atirá-las para os grandes precipícios.

Picos de 6000 e 7000 metros amanhecem com tons rosa. Depois de uma noite de descanso o objectivo final está cada vez mais próximo. Só falta a distância até Lobuche, onde se pernoitará e depois seguir a trilha até Gorak Shep, a 5140 metros, o último amontoado de casas nas alturas. Pelo caminho, yaks impedem a passagem, no seu passo por vezes lento, desconhecem a dificuldade respiratória (evidente entre os ocidentais) e obedecem aos assobios do pastor ou aos estalidos que faz com a língua, indicando que devem parar ou acelerar a marcha.
A chegada a Gork Shep é acompanhada com a visão dos mais intrépidos carregadores, levando às costas dois ou três bidões de plástico azul, tanto no sentido descendente como ascendente. Mas há um carregador que supera todos os outros. É uma imagem assombrosa: a 5200 metros, um sherpa carrega dois grandes armários amarelos, um sobre o outro, envoltos numa corda. É-lhe perguntado em nepali quantos quilos imagina levar ali. Não levanta os olhos do chão, nem responde. O companheiro da mesma língua arrisca: “ 120 …”
“Mais…” – responde o homem enquanto expira.
A paisagem torna-se lunar, a vegetação fugiu e o único elemento que destoa são as bandeirolas coloridas ou as pequenas stupas em memória dos imensos alpinistas que pereceram neste ou naquele cume. É um verdadeiro desfile de nacionalidades e eternas saudades.
Esta pequeníssima aldeia está enclausurada num vale de areia. Tão branca que cega a vista. Para um lado há o trilho para Kala Patar, mais 400 metros, os últimos, a pique. Para o outro, sem grandes inclinações nem declives, segue-se até ao Campo Base do Everest, já por entre glaciares camuflados de terra e areia. Um número insignificante de tendas revela que a época de alpinismo ao Sagarmatha (nome nepalês do Monte Everest) está dada por terminada. Só no dia seguinte, pelo nascer do sol, os 400 metros que antecedem um dos maiores miradouros do mundo, serão subidos a passos lentos, pensados, raciocinados. Montanhas rainhas tais como o Pumori, Nupse, Lotse e Everest afunilam Gorak Shep e Kala Patar, todos os picos estão na casa dos 7000 e 8000 metros. O pouco oxigénio que se respira já não é para os humanos.

Comentários

  1. E aqui vive gente! E nós a queixar-mo-nos de quê?!...

    A.A.

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