


Caminhar por cima da ria
Não é mar nem é firme. Não é rio nem é pântano. É a ria no Estuário do Sado, que sobe e desce com o desejo das marés. Os pescadores, quando a água foge, saem com os seus barcos empurrados ao longo dos canais, à força da vara, qualquer semelhança com gondoleiros é pura coincidência.
D. Isabel Maria chega de uma tarde afortunada. Esta ria dá o pão a muitas pessoas: da apanha pode-se voltar com um balde cheio de amêijoas, canivetes, polvos, raia…
O seu sorriso para a fotografia é igual ao que largou quando pôs os pés no Porto Palafita, abandonando o barco que o marido ficou a atracar.
Há uns anos ainda pensou em abandonar a arte, já tinha feito cinquenta anos e nessa altura até foi integrada num curso onde lhe ensinavam o novo ofício - saber armar arranjos de flores secas.
Quando é interrogada sobre a idade deste Porto Palafita, necessita de fazer algumas contas com a memória:
- Pois isto já tem para lá de muitos anos, foi na altura que a Catarina Furtado aterrou cá de helicóptero, lembra-se?
Não fica satisfeita com a resposta mas não se acanha:
-Ora, já foi no tempo em que o Sampaio visitou a Carrasqueira.
De facto, este porto já tem mais de 20 anos e assenta numa precária e labiríntica estrutura de estacas de madeira, enterradas no lodo do sapal que progride ria adentro.
Foi construída pelos órgãos camarários para atrair turismo. Faz sentido, o sítio é inspirador.
D. Isabel construiu a sua parte também, era ali junto ao arrozal. Quando teve oportunidade de escolher entre esta e outra profissão disse a si mesma:
- Mas que quero eu mais da vida?
E ficou pelas estacas, pregos e ria. A reforma não vinha longe e não lhe apetecia abandonar a embarcação.
O marido não é tão optimista, diz que a ria está toda “rapada”, que já não deixam crescer os bichos o tempo que a natureza lhes pede. E como quem confessa apenas meia verdade de um segredo, ainda acrescenta:
- Eu pus umas amêijoas pequenitas num sítio que eu cá sei e já lá hei-de voltar, dêem-lhes tempo…
O arrozal alagado está quieto, embora o cereal cresça a olhos vistos. Os barcos baloiçam muito suavemente que hoje não há vento.
Não é mar nem é firme. Não é rio nem é pântano. É a ria no Estuário do Sado, que sobe e desce com o desejo das marés. Os pescadores, quando a água foge, saem com os seus barcos empurrados ao longo dos canais, à força da vara, qualquer semelhança com gondoleiros é pura coincidência.
D. Isabel Maria chega de uma tarde afortunada. Esta ria dá o pão a muitas pessoas: da apanha pode-se voltar com um balde cheio de amêijoas, canivetes, polvos, raia…
O seu sorriso para a fotografia é igual ao que largou quando pôs os pés no Porto Palafita, abandonando o barco que o marido ficou a atracar.
Há uns anos ainda pensou em abandonar a arte, já tinha feito cinquenta anos e nessa altura até foi integrada num curso onde lhe ensinavam o novo ofício - saber armar arranjos de flores secas.
Quando é interrogada sobre a idade deste Porto Palafita, necessita de fazer algumas contas com a memória:
- Pois isto já tem para lá de muitos anos, foi na altura que a Catarina Furtado aterrou cá de helicóptero, lembra-se?
Não fica satisfeita com a resposta mas não se acanha:
-Ora, já foi no tempo em que o Sampaio visitou a Carrasqueira.
De facto, este porto já tem mais de 20 anos e assenta numa precária e labiríntica estrutura de estacas de madeira, enterradas no lodo do sapal que progride ria adentro.
Foi construída pelos órgãos camarários para atrair turismo. Faz sentido, o sítio é inspirador.
D. Isabel construiu a sua parte também, era ali junto ao arrozal. Quando teve oportunidade de escolher entre esta e outra profissão disse a si mesma:
- Mas que quero eu mais da vida?
E ficou pelas estacas, pregos e ria. A reforma não vinha longe e não lhe apetecia abandonar a embarcação.
O marido não é tão optimista, diz que a ria está toda “rapada”, que já não deixam crescer os bichos o tempo que a natureza lhes pede. E como quem confessa apenas meia verdade de um segredo, ainda acrescenta:
- Eu pus umas amêijoas pequenitas num sítio que eu cá sei e já lá hei-de voltar, dêem-lhes tempo…
O arrozal alagado está quieto, embora o cereal cresça a olhos vistos. Os barcos baloiçam muito suavemente que hoje não há vento.
Parabens pelo prémio!!!
ResponderEliminarÉ Portugal, desconhecido para alguns, no seu melhor.
ResponderEliminarNão vou mentir. Li pela primeira algo seu hoje, na revista que acompanha o JN. Fiquei muito agradado, para não dizer mais. Continue a brindar-nos com a sua escrita.
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