Ilha das Flores
- Ilha das Flores
Chegando às Flores mudamos o vocabulário. Mudámos de placa continental, já estamos na americana, é uma terra imune aos terramotos. D. Gracinda, há dez anos, mudou-se do Faial para aqui pois não aguentava mais nenhum tremor de terra. O marido não quis, mas ela não hesitou.
“Ele vem cá e eu vou lá quando se pode, mas não aguentava ter de reconstruir novamente a minha casa. Aqui nas Flores estou sossegada.”
Talvez a ilha mais selvagem das nove, aqui sente-se o isolamento de outra forma. Não é só a distância física - que é bastante das outras ilhas e claro, a maior do continente (Flores e Corvo compõem o grupo oriental dos Açores). Aqui vive-se um estado de espírito diferente. As doze horas que de barco se demoraram a aqui chegar, vindos da Terceira, atestam-no. Não fossem as baleias e os golfinhos avistados, bem como a Graciosa, S. Jorge, o Faial e o Pico que interrompem majestosamente a paisagem de azul marítimo, e até diríamos a viagem longa demais.
Mas as Flores é um sítio que não se descreve, se não o sentir não o compreende. Faz parte daqueles pontos da Terra em que não há prosa, nem câmara, nem arte que a agarre.
Começando pela Fajã Grande, uma montanha que se amuralha com o mar e se divide em cascatas. Ao fundo o ilhéu de Monchique. Que me perdoe o Cabo da Roca, mas este sim é ponto mais ocidental da Europa. E não há fotografia que capte este quadro. Sem falar do Poço do Bacalhau, onde chega ao chão uma das cascatas, ou a Alagoinha, uma réplica da Fajã Grande, desta feita depois de percorrer uma floresta tropical que se assemelha ao que imaginamos serem as paisagens do Bornéu.
Santa Cruz é bonita e o Corvo visto daqui é uma tentação.
Há sete lagoas para participar no conto de fadas, mas há algo estranho que paira no ar, é um conto de fadas negro. Há caminhos que tentam mas não levam a lado nenhum. Há paisagens que se fecham durante semanas e não deixam ninguém avistar um palmo à frente do nariz. As pessoas são calmas e humildes. Perspicazes para aguentarem o belo e o terrível de conviver diariamente com esta ilha. Aqui, os dias de Inverno devem ser uma experiência do outro mundo.

A ilha que eu mais gosto nos Açores, sim é a ilha das Flores.
ResponderEliminarSempre que o avião levanta voo para voltar uma grande parte de mim quer ficar.
Gostaria de em breve retornar mas este ano já não vai dar.
A ilha das Flores é diferente tem alguma coisa que fica entranhada na gente!
Ilha das Flores para sempre.