

De 2001 para 2011 noto a Índia bem diferente (como se isto fosse um país homogéneo e não uma aglomeração de 26 países, portanto Estados, diferentes) na sua sempre surpreendente condição.
A classe média cresceu, há tantos carros que não andavam por aqui da última vez (2007). A classe pobre também.
Como há imensos novos milhões de pessoas, o trânsito já roça a guerra , o som das buzinas é constante, metódico, desagradável, invasivo. Habituamo-nos claro, tolera-se, mas estas estradas sem sinais de trânsito (não é uma hipérbole) são dominadas por quem apita mais, mais alto e ininterruptamente.
A pobreza é cada vez mais chocante, sobretudo nas grandes cidades, mas é-o em todo o lado, pois o que eram cidades pequenas há uns anos, tornaram-se aglomerados assustadores neste momento. Crianças libertam as suas fezes doentes na linha, antes que o comboio chegue. Pessoas com cotos em vez de braços ou pernas, calcinados de tão negros.
Nos subúrbios de Delhi vêm-se burros cabisbaixos a carregarem esterco de latrinas que é necessário desentupir e mulheres a guiarem-nos pela linha férrea, tão desesperançadas quanto os animais. Vêm-se crianças com irmãos bebés ao colo, a recolherem comida no meio das lixeiras, como se fosse uma horta ou um pomar. As lixeiras estão em todo o lado para onde quer que se olhe. Não há recolha de lixo organizado em praticamente nenhum estado. Cada rua varre o seu e lança-lhe o fogo ao raiar do dia. Junte-se-lhe a poluição constante dos escapes.
Tudo isto convive, em Delhi, Bombaim e outras grandes cidades, com centros comerciais parolos, ainda mais parolos que os nossos, onde os preços das etiquetas aparecem em euros e dólares e são os que se praticam na Europa e Estados Unidos. O poder económico e o poder de compra anda lado a lado com os milhares de cães sarnentos e maltratados, mais os ratos que se vêm nas cozinhas dos “hotéis”, nas ruas, nas estações de comboio.
Tudo isto é uma experiência visceral, de constante auto-superação. É imperioso para um estrangeiro fazer um esforço para não ver, para não sentir, mecanismo de defesa essencial, mas para evitar o contacto visual com um deficiente que parece uma aranha, não um homem, tal a deformação do seus membros, olha para o lado e tem uma garota a agarrar-lhe o braço pedindo esmola para um irmão que tem um olho de fora. É cega, pede para ele e para ela.
Assim sendo, porque é que se vem à Índia?
Porque há tanta gente a gostar disto afinal?
Não gostam. Não é essa a palavra.
Não reconheço a Índia que vi em 2007, e muito menos em 2002 e 2001.
Tudo muda.
Mas há nesta viagem, e sempre haverá, uma experimentação do lado mais humano da vida, porque tudo à nossa volta é sobrevivência, luta e coragem.
A criatividade é sem limites, pois convive-se segundo a segundo com o insólito, o inusitado.
Escolher a Índia rural, ir para o sul, ou o Norte de montanhas pode ser a melhor ideia para escapar (que significa ver menos) a este bombardeamento de condições dificílimas de vida.
Mas a Índia real é a Índia que mostra quase tudo. Tudo o que se queira ver. Tudo o que tenhamos coragem para ver.
E no final, não sei porquê, o coração começa a bater com mais força.


A Índia do fim do Mundo...! H
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