AS MONTANHAS DOS SHERPAS, O OXIGÉNIO DOS DEUSES




A subida ao Campo Base do Everest

De Jiri a Kala Patar, o velho percurso que alcança o sopé do Everest, antes ainda dos aviões chegarem a Lukla até há uns anos, era o único e longo caminho possível para chegar ao Base Camp do Everest e Kala Patar, o local onde melhor se avista o ponto mais alto do mundo, sem o escalar. A riqueza que o turismo trouxe é distribuída de forma irregular e se em certas zonas em tempos se lucrou muito, hoje transformaram-se em periferias pouco procuradas.



Himalaias, Kumbu Valley
Namche Bazar aparece solarenga, os picos brancos gelados, e os verdes de mais baixa altitude, fecham-na em ovo, dispondo-a em anfiteatro que aproveita a encosta menos a pique. É uma vila de pedra, com telhados multicolores e movimentação nas ruas situada a 3440 metros de altitude. Comércio a alto custo para os milhares de turistas que aqui se acomodam durante o ano, é também o local ideal para uma primeira aclimatização à altitude. Todo o tipo de hotéis e requintes culinários podem ser encontrados, boas pizzas, óptimas tartes, fondue de queijo, e muito mais. Mas não só, há inclusive um heliporto que serve um hotel de luxo em Shyangbuje, possibilita operações de resgate, bem como viagens a membros de expedições e elementos militares. Esta é a maneira mais rápida de chegar a Namche, ganhando um dia de caminhada aos que aterram em Lukla e para aqui ainda têm de se deslocar.
Todos os hotéis têm nomes parecidos, em Namche e em todo o percurso. Este chama-se “Valley View Lodge” e o proprietário, Nima Tamang, é um homem que sabe receber.
“ As últimas três décadas tiveram uma enorme repercussão na zona de Khumbu – afirma ele - a introdução do turismo trouxe oportunidades extraordinárias ao povo sherpa. Enquanto alguns povos como os Bhotia, que viviam das rotas trans-himalaicas, transportando e comercializando mercadorias, viram a sua cultura e subsistência dramaticamente alterada quando o Tibete foi anexado pela China e as relações fronteiriças sofreram alterações substanciais, os Sherpas encontraram no turismo uma alternativa.
A experiência de montanhismo e alpinismo de Nima revelou-se num instrumento precioso para acompanhar as crescentes expedições: “Já servi dezenas de vezes em expedições, como cozinheiro. O máximo que subi foi até aos 7400 metros. Tenho de ligar o fogão às 6:00 para conseguir ter o leite a ferver às 9:00.
“Os sherpas enriqueceram como nunca – continua - no entanto, não há só vantagens, o grande senão do turismo é que uns ganham outros gastam. O lucro fica quase todo com certos clãs que pagam muito mal aos seus empregados que fazem o trabalho mais duro.”
Dan come uma Rigi Kur (panqueca de batata), especialidade sherpa e mete-se na conversa. É um sherpa, carregador em serviço, mas nota-se que tem um tratamento especial. Acompanha um grupo de quatro norte-americanos que pela segunda vez vêm a este trilho e, como já o conheciam, pediram-lhe para chamar mais três amigos, contratando-os directamente.
“Ganho o dobro do que se trabalhasse para uma agência e eles (americanos) pagam metade.” – confirma Dan.
Sherpa é uma designação étnica, muitas vezes mal entendida pelos estrangeiros que pensam que apenas designa “carregador”.
“Outra das desvantagens do turismo – explica Dan – é que todos os produtos sofreram uma inflação tremenda. Como seria de calcular, quanto mais se sobe, mais altos são os preços. Mas só quem está a ganhar bem com o turismo não se vê em dificuldades para suportar estes preços. As outras pessoas viram a sua vida tornar-se muito mais difícil e o turismo é recebido com pouco ou nenhum entusiasmo.”
“E depois há situações irónicas” – avança Nima. “Até à chegada dos aviões a Lukla (a 2840 metros de altitude) e de helicópteros a Namche Bazar, as localidades de altitudes mais baixas, desde Jiri, eram as que lucravam mais com a chegada de estrangeiros. Hoje em dia, vêem os seus alojamentos desertos e as formas de subsistência tiveram de voltar aos métodos tradicionais de agricultura e imigração”.

De Jiri a Kala Patar, AS MONTANHAS DOS SHERPAS, O OXIGÉNIO DOS DEUSES




Caminhos de paciência
O autocarro que demora oito horas a chegar a Jiri, sai de um terminal caótico e apinhado de gente. As imagens de pobreza e doença dos mendigos confiscam a beleza à cidade de Katmandu e impelem à busca das partes mais altas, mais puras, menos oxigenadas.
Horas a ver montanhas crescer, a estrada tornava-se mais insignificante e atrevida. Uma noite de repouso em Jiri (1955 metros), uma aldeia de casas de madeira e comércio destinado apenas aos locais, recorda que este é o último ponto antes de se penetrar nas trilhas sem veículos motorizados. Mulheres avantajadas encostam-se às portas das suas lojas, sentadas em bancos, disfarçadas pela quantidade de material que as rodeia, esperando que alguém lhes dê conversa. Todo o material pesado ou de grandes dimensões, parece estar estacionado neste último armazém, à espera de ser levado para os montes isolados: mantas empilhadas, pás de agricultura, grandes bidões, sanitas “Indian style” ( latrinas), canos, roupa e cestas de mais de um metro em formato abaulado (dhoko).
O início da trilha é percorrido por mulheres adolescentes, caminhando rapidamente com dhokos às costas, carregadas até ao cimo. Jiri desaparece do mapa e os pequenos povoados de 4 ou 5 casas aparecem hora sim hora não. Muitos carregadores levam as suas cargas apoiados com dois objectos fundamentais: uma faixa que liga a carga à testa e uma”teko”. A teko tem utilidade repartida: é uma vara grossa, em forma de T que serve para descansar nos momentos de menos forças pousando a carga contra o pau que a ampara (nem é necessário retirá-la do contacto com as costas); serve de bengala e ainda como arma de defesa para algum perigo inusitado.
Pontes himalaicas recentes cruzam inúmeras vezes os rios. Substituíram a madeira pelo aço e bamboleiam só em dias de monções. O progresso foi chegando com a fama crescente da cordilheira.
Camponeses separam o trigo do joio sentados nas varandas com vista soberba.
“ Namasté!” - Saúdam quem passa.
O rio é o mote para uma nova aldeia, Shivalaya, quatro horas depois de Jiri e daqui a subida inclina-se com orgulho, os carregadores nem repousam, tal deve ser a ansiedade de se verem livres de tal rampa. Até Deorali, onde se pernoita, sobe-se até aos 2750 metros e de seguida desce-se até aos 2150. Além da duração e extensão percorrida (mais de 200 quilómetros), este trekking tem esta dificuldade acrescida: até aos 3400 metros de altitude, os montes sobem-se e descem-se constantemente, numa dança em carrossel que adapta o corpo para passeios mais altos, mas o desgasta lentamente.
Passa-se ao largo de uma fábrica de queijo, construída com a ajuda da Suíça nos anos 50 antes de chegar a Bhandar. Daqui até Nuntala são mais três ou quatro dias de caminhada
passando por Kenja a 1570 metros e subindo depois até Sete, junto a uma Gompa (mosteiro budista tibetano) a 2575. Depois começa uma grande mas gradual subida até aos 3530, Lamjura, que marca o ponto mais alto até aos últimos dias de trekking, quando se passa ao reino dos 4000 metros. É o desfilar de pequenas aldeias de telhado de alumínio, brilhando ao sol; vacas lavrando com arados de madeira e crianças que as comandam; búfalos presos ou à solta; stupas (estruturas hemisféricas budistas) homenageando a fé dos homens; mulas que - a esta altitude - ainda podem transportar o que os donos lhes mandam; miúdos brincando à pesca à beira dos regatos; cabras e bodes cabeludos.
Os alojamentos que se encontram para pernoitar são cabanas ou casas de madeira com cheiro a roupa lavada, mas sem qualquer extravagância de conforto. A casa de banho é um cubículo com um buraco entre as tábuas e um grande monte de erva seca e terra está à disposição de todos para que se arranque um punhado, substituindo a descarga do autoclismo. As cozinhas sempre com lenha a queimar, estão preenchidas de fumo de fogo e vapores cheirosos de comida prestes a atacar o frio das entranhas. A loiça metálica e de plástico alinha-se pelas estantes de madeira envernizada e grandes panelas fervem leite de yak na boca do fogão a lenha.
Passam poucas pessoas no caminho, quase exclusivamente carregadores. Poucos ou nenhuns turistas se aventuram tantos dias a contornar montanhas. A espera pelos picos de 6000 ou mais, torna-se impaciente, o cansaço suspira por imagens mais inéditas, mas cada dia tem a obrigatoriedade de várias horas de andamento, o ritmo é imposto para se chegar a Namche Bazar, que a dado momento parece muito mais longínquo do que era de se esperar.
Uma grande descida, de horas a percorrer calhau em calhau, desemboca em Phurtyang.
O ambiente de serra manifesta-se no verde dos matos e força dos rios. Roupa seca estendida em troncos de madeira, ou na erva ou na sebe. O sol penetra por entre as nuvens depois de tantas vezes ameaçar chover e desistir. O objectivo final: Kala Patar e o Campo Base do Everest, por esta altura estava longe. Mas é em Phurtyang, pela madrugada, que se tem a primeira visão do Everest, longínquo, um dos vários picos que trespassam as nuvens. O ajuntamento de telhas onde se pode tomar um “hot shower” como anunciou o estalajadeiro (mas não passou de uma bacia com água a ferver e um púcaro) tem uma fenda com vista para os cumes. Até a montanha mais alta do mundo cabe dentro de uma fenda. Tudo é possível realmente.
Um carregador com uma carga quase exclusiva de guarda-chuvas passa com ligeireza e deixa o rasto do seu rádio a pilhas que entretém o grupo. Têm uma dinâmica muito própria - quem leva a música, quando há, vai no meio do grupo; o menos carregado na dianteira e o mais sobrecarregado atrás. Quando o último pára para descansar, assobia. E todos param ou assobiam até a informação ter chegado ao ponteiro da comitiva.
Camponeses de blusões atados à cintura, dão uso à enxada e esquecem-se do frio por umas horas. Cavam energicamente de nádegas para cima e costas encurvadas.
As “orações automáticas” como lhes chamam, são bandeirolas quadradas muito coloridas presentes em todo o lado, quer perto de mosteiros e templos quer atadas a postes ou árvores. São automáticas porque o vento passa e faz com que as escrituras sagradas budistas lá inscritas bailem ao ar, rezando. Em rota de colisão com a divindade está também o Numbur. De Phurtyang a Nuntala (a aldeia de tectos vermelhos, azuis, cinzentos e amarelos) o trajecto é marcado pela aparição da montanha Numbur, claro e frio, o primeiro grande gigante de 6959 metros a desentorpecer o monotonia de montes verdes e viçosos.

Himalaias, Kumbu Valley




A chegada a Bupsa dá-se ao fim da manhã e o alojamento acolhedor de Geljen Sherpa (todos os sherpas têm este apelido) ajuda a escolha de por ali ficar. Passados seis dias, uma tarde sem caminhadas.
É uma casa de pedra com dois andares, janelas pintadas de roxo e um pátio-mirante, sem nenhum hóspede até então. Geljen é um homem de quarenta e poucos anos, bonito de porte atlético e a sua estalagem está cheia de referências às mais altas montanhas do mundo; não só o maciço do Everest como também o K2 (Paquistão) e Kangchenjunga, a terceira mais alta (que faz fronteira com Sikkim, na Índia). Percebe-se rapidamente que a sua relação com as montanhas está para a além dos lindos posters que enfeitam a sala de estar.
“Subi-o em 2005. Foi o monte Everest que me deu a oportunidade de construir esta casa.” – menciona de sorriso discreto.
O Governo nepalês contempla os cidadãos nacionais com cerca de 10 000 euros a quem “conquiste” a mais alta montanha, uma pequena fortuna que permite começar a vida a muitos casais e aumentar o record de nepaleses que figuram no registo.
“ Na altura a minha mulher estava grávida e não sabíamos muito bem como seria o futuro. Nunca me tinha lembrado de correr tamanho risco, mas naquele dia decidi e pronto, fui. Tinha já escalado montanhas de 7000 metros e sou um sherpa, nós percebemos destas coisas.”- afirma Geljen.
O que sentiu quando chegou lá acima, está à vista de todos, exposto em fotografias e mapas com linhas amarelas e verdes delineando percursos.
“ O que senti, o que pensei…. – ri-se – foi: o que é que eu estou a fazer aqui em cima, quero ir ter com a minha mulher. – exclama com uma certa penumbra no olhar - Só passado algum tempo consegui sentir a alegria de o ter escalado. No momento não senti nada, só a sensação de me estar a meter onde não devia…Mas hoje sou um homem feliz, voltei e realizei o que queria.”
Menciona também que tal proeza está ao alcance de muitos, hoje em dia.
“Sinceramente acredito que a partir dos 7000 metros, somos todos iguais, pouco ou nada importa a preparação física que tenhamos. As condições são tão árduas que somos todos igualmente frágeis, o que ajuda é sem dúvida a força mental com que levamos até ao fim o nosso objectivo. Depois é uma questão de sorte.” – afirma quem desafiou a morte. O sorriso é tão grande que qualquer um parece carrancudo ao seu lado. Cozinha ao lado da esposa e só responde ao que lhe perguntam.
Crianças são lavadas em grandes bacias metálicas na rua, choram ou queixam-se. A água é límpida mas vem do gelo. O rio Dudh Koshi, que quer dizer “Rio de leite”, desce pelas encostas trazendo as últimas novas dos glaciares. A aldeia plantada na montanha tem um cenário soberbo sobre as outras em volta.
De Bupsa a Surkey foi mais um dia a subir, observando aranhas que trepam as suas teias invisíveis na luz do entardecer, e as mani, pedragulhos esculpidos com o canto tibetano budista “om mani padme hum”, omnipresentes em quase todos os quilómetros do itinerário montanhista. As paragens servem para observar um pouco mais este povo peculiar, o corrupio da época alta do turismo já passou, mas agora há que preparar a estação das chuvas que já visitam alguns dias neste período de Junho. Encontram-se alguns monges budistas nas aldeias maiores, acompanhados dos seus pupilos. Crianças carregam a mochila da escola com uma das alças à cabeça, imitando os hábitos de gente graúda. Alguns carregadores espetam um guarda-chuva aberto por cima da carga já envolta num grande plástico. De costas ostentam o tamanho de dois metros e meio ou mais. O caudal do rio Dudh Koshi aumenta na zona de Bengkar, no vale com o nome do rio, há quedas de água e a chegada a Namche, a grande vila das montanhas, já não está longe. Foram nove dias a caminhar até aqui. Falta apenas pedir e pagar a entrada no Sagarmatha National Park, entrar em território protegido e subir uma inclinada trilha que dos 2810 alcança os 3480 metros.

De Namche Bazar ao miradouro do Everest





Faltam 4 ou 5 dias para Kala Patar, no mínimo. Estão reunidas forças e mentalização, fruto da climatização seguramente, para subir a grande escadaria que é a porta de saída de Namche Bazar. O caminho continua em direcção aos picos mais altos e logo ao sair do anfiteatro formado por Namche, é possível avistar montanhas tresmalhadas sem dono, isoladas e obstinadas, pouco tempo sem a companhia das nuvens. É aliás pouco depois que se avista claramente o pico do Everest, por detrás de uma Stupa branca, com dois olhos minuciosamente desenhados, hipnotizados pelas bandeirolas esvoaçantes. Aparece disfarçado pelas suas montanhas familiares, rodeado e protegido, um cume até insignificante, dá ideia ao princípio. As nuvens aparecem a meio da manhã, apoderam-se das vistas magníficas e obrigam quem por ali anda a focar paisagens mais próximas. O número de turistas aumenta consideravelmente a partir de Namche, a esmagadora maioria chegou via Lukla.
Mulheres, homens e adolescentes nepaleses carregam dhokos extremamente pesadas, cheias de madeira. Uma movimentação extraordinária de lenha observa-se a partir dos 3800 metros. Nima já havia explicado: “Uma das directrizes principais do Sagarmatha National Park, a quando da sua criação em 1976, foi o controle de abate de árvores no perímetro do parque, limitando as espécies e a quantidade permitida a cada aldeia. Esta medida reduziu a desflorestação mas houve custos: as florestas fora das fronteiras do parque sofreram uma procura muito maior. Por outro lado, a maior parte dos “rangers” que trabalham na vigilância deste parque são Newaris, ou seja, o povo nepalês das terras baixas, do Vale de Katmandu. Isto é um território de difícil compreensão para eles e não conseguem penetrar em muitas zonas e locais elevados onde se situavam muitas das florestas que deviam proteger. É uma situação complicada, estes guardas têm a missão de proteger o ambiente das pessoas que são os donos destas terras, o povo original deste território desde há 500 anos. E que procuram o que sempre procuraram: a satisfação das suas necessidades básicas como cozinhar e aquecerem os lares.”
Aldeias ancoradas em fundos vales deixam sair fumo das chaminés. A caminhada sobe sem fôlego até Tengboche, a 3860 metros, onde um mosteiro altaneiro dá as horas através de sinos que ressoam a quilómetros. Monges e monjas vestidos com cores que não variam mais do que o vermelho, amarelo e cor de vinho, agarram em varas e “sticks” em preparação para a descida. Até para isso parecem concentrar-se.
O Ama Dablam, de 6856 metros, paira no horizonte com a sua forma de montanha atípica, com um pico quase redondo encostado a outro de forma mais normal, como se fossem gémeos falsos, ou um monstro de duas cabeças.
Muitas horas de caminho quase a direito reanimam os montanhistas, um presente da natureza para estimular a subida a “Periche Pass”, a 4270 metros, antes de entrar em Periche, uma aldeia protegida por um vale gigante, atravessado por um rio e campo sem limites para a pastagem de inúmeros de yaks e naks (a fêmea). Os yaks domésticos nepaleses, por sinal os mais pequenos entre as populações das redondezas (Tibete, China, Mongólia) pesam cerca 360 quilos. Se falarmos das naks rondarão os 300 quilos. Encontram-se acima dos 3000 até aos 6000 metros. Não é possível encontrá-los antes devido ao seu pêlo extremamente comprido e abundante e porque não são imunes às doenças que existam a baixas altitudes. Observam-se algumas naks a grunhir às suas crias, é muito curiosa esta vocalização. São animais impressionantes, ostentam ar de complacência, dá a ideia que se recordam que já foram donos de tudo aquilo e agora, domesticados, prestam um favor, aturam os humanos e os seus desmandos. De qualquer maneira, os pastores da zona contam histórias de yaks intratáveis e imprevisíveis, que conseguem soltar as cargas e atirá-las para os grandes precipícios.

Picos de 6000 e 7000 metros amanhecem com tons rosa. Depois de uma noite de descanso o objectivo final está cada vez mais próximo. Só falta a distância até Lobuche, onde se pernoitará e depois seguir a trilha até Gorak Shep, a 5140 metros, o último amontoado de casas nas alturas. Pelo caminho, yaks impedem a passagem, no seu passo por vezes lento, desconhecem a dificuldade respiratória (evidente entre os ocidentais) e obedecem aos assobios do pastor ou aos estalidos que faz com a língua, indicando que devem parar ou acelerar a marcha.
A chegada a Gork Shep é acompanhada com a visão dos mais intrépidos carregadores, levando às costas dois ou três bidões de plástico azul, tanto no sentido descendente como ascendente. Mas há um carregador que supera todos os outros. É uma imagem assombrosa: a 5200 metros, um sherpa carrega dois grandes armários amarelos, um sobre o outro, envoltos numa corda. É-lhe perguntado em nepali quantos quilos imagina levar ali. Não levanta os olhos do chão, nem responde. O companheiro da mesma língua arrisca: “ 120 …”
“Mais…” – responde o homem enquanto expira.
A paisagem torna-se lunar, a vegetação fugiu e o único elemento que destoa são as bandeirolas coloridas ou as pequenas stupas em memória dos imensos alpinistas que pereceram neste ou naquele cume. É um verdadeiro desfile de nacionalidades e eternas saudades.
Esta pequeníssima aldeia está enclausurada num vale de areia. Tão branca que cega a vista. Para um lado há o trilho para Kala Patar, mais 400 metros, os últimos, a pique. Para o outro, sem grandes inclinações nem declives, segue-se até ao Campo Base do Everest, já por entre glaciares camuflados de terra e areia. Um número insignificante de tendas revela que a época de alpinismo ao Sagarmatha (nome nepalês do Monte Everest) está dada por terminada. Só no dia seguinte, pelo nascer do sol, os 400 metros que antecedem um dos maiores miradouros do mundo, serão subidos a passos lentos, pensados, raciocinados. Montanhas rainhas tais como o Pumori, Nupse, Lotse e Everest afunilam Gorak Shep e Kala Patar, todos os picos estão na casa dos 7000 e 8000 metros. O pouco oxigénio que se respira já não é para os humanos.

Ilha de Sto Antão - A TEIMOSIA DE EXISTIR




Em pleno Oceano Atlântico, uma ilha do arquipélago de Cabo Verde destaca-se das demais pela sua morfologia e latitude. As suas gentes, desde há séculos enfrentam o desafio de viver em condições acrobáticas, pendurando-se nas serras e transpondo-as com a força de uma comunidade. Encaram-se os dias. Os pais vão ensinando algo aos filhos: a teimosia de existir.

As gentes de S. Antão, são um povo escalador e teimoso, as casas são construídas tendo como arrimos certos blocos de rocha, ou encavalitadas nas encostas, perseguindo as estrias vincadas da montanha. Muitas choupanas também se equilibram em confluências de rochas, encaixadas em grandes aberturas de grutas. As reentrâncias na terra, quando largas, servem de estábulo aos burros, ou de depósito de colheitas.
À medida que se vai avançando pelo Paúl acima, torna-se mais claro o esforço dos camponeses desta terra: os socalcos são construídos em locais impensáveis, permitindo hortas verdadeiramente suspensas, culturas às prateleiras que quanto mais em altitude, mais difíceis se adivinham de lavrar. Aldeões também se encontram dispersos e pendurados na paisagem, recolhendo pacientemente palhas estéreis que servem de pasto para o gado e também de lenha.
Chega-se a Cabo da Ribeira. O percurso deixa de ser transitável por veículos, tudo é carregado às costas e encontra-se logo de seguida uma quinta onde o trapiche está a funcionar. Um odor característico da calda e grogue bagaço junta-se ao queixume das canas esmagando-se contra os cilindros de aço. Lembra que o grogue (aguardente de cana de açúcar) é produzido nesta ilha e faz as delícias e as loucuras do resto do arquipélago. Carregam-se os baldes de calda até às pipas de fermentação no armazém onde repousarão quinze dias, por um trilho que acompanha a encosta íngreme, rodando-se os baldes para à frente ou para os lados, conforme o espaço que existe para passar. No alambique é colocada a calda já pronta, o forno alimentado a lenha leva à fervura este soro transformando-o em aguardente, o grogue que no final, através de um cano aberto ao ar desagua num garrafão de vidro transparente.
No meio dos homens que trabalham, duas ou três crianças bebericam a calda da cana. Um deles, William, de 12 anos, o mais conversador e curioso, ajuda nas tarefas que os adultos lhe encomendam. O seu sorriso franco acompanha-o à escola todas as manhãs e assim continua durante o resto do dia. Os olhos muito abertos, acompanhados pelo português desenvencilhado (além do francês e inglês que já arranha) permitem-lhe dialogar com pessoas de inúmeras nacionalidades. S. Antão é procurado sobretudo por turismo de montanha. William vai convivendo com outros povos, crescendo rápido, com a inocência e a força das montanhas.
- Quem não aprende a ler nem a escrever não pode ser grande coisa na vida. – entende ele - Bebi uma vez grogue e jurei para nunca mais, parecia que já estava morto, via estrelas em todo o lado. – acrescenta estrategicamente.
Fala tudo o que lhe deixarem, um correctíssimo português com sede de pessoas novas que o escutem.
– O meu tio é mecânico de automóvel em Portugal – continua - se eu estudar e conseguir ter boas notas vou trabalhar com ele. – O sonho de emigrar existe em quase todos os habitantes desta terra, mais cedo ou mais tarde, todos tomam consciência que é a única saída para quem ambiciona trepadas ainda mais altas.
O professor Jorge, encostado a uma palmeira e com um cálice de grogue a descontrair a tarde, lecciona o primeiro ciclo na escola de Sinagoga, uma aldeia a alguns quilómetros dali. Nasceu em Poço do Bispo em Lisboa e a mãe, cabo-verdiana, não o podendo criar, pô-lo na antiga “Roda”, a extinta instituição que aceitava crianças abandonadas. As crianças eram recolhidas numa estrutura que rodava entre a rua e o interior das instalações, conferindo assim o anonimato ao progenitor que a abandonava. Morou sempre em Lisboa e já em adolescente veio viver para S. Antão e nunca mais daqui saiu.
William pergunta-lhe sobre a lenda da bruxa que existiu nuns montes no Paúl, uma mulher a quem as pessoas temiam pela anormal formosura. Jorge explica ao pupilo que essa lenda existiu e ainda se sabem de algumas histórias de pessoas muito bonitas com fama de bruxas.
- A diversidade racial em Cabo Verde é tanta, com todas as misturas possíveis entre raças, que de vez em quando aparecem pessoas que até espantam pela beleza. Incomodadas pelo falatório, antigamente, havia quem se recolhesse em casa, levantando suspeitas de conjuras com o diabo. - exclama Jorge.
Cai o sol. O matraquear do trapiche mecânico a funcionar imprime uma função diferente ao tempo, não é noite nem dia, é hora de trabalho. Grandes montes de cana enchem os terreiros à espera de novo destino, provavelmente para entelhar as casas por construir, um telhado perfeito, dizem, não deixa penetrar uma gota das chuvadas.
Cabras desengonçadas descem resvalando de um pico escarpado e sem caminho à vista. Um homem velho surge pouco depois, ultrapassando-as e assobiando. Não usa as mãos e apenas um cajado dá impulso aos saltos que vai dando de rocha em rocha.

Mar di Canal - Ilha de Sto Antão




No porto de S. Vicente aglomeram-se as pessoas prontas para mais uma travessia do mar di Canal. O Atlântico não brinca em dias de ventania mas hoje, o mar anuncia uma especial viagem de altos e baixos. O barco Ribeira do Paúl, com capacidade para 160 passageiros, recebe os de hoje através de uma escada ondulante ligada ao cais. Começa a viagem até S. Antão, o barco distancia-se da terra com a ligeireza de uma tartaruga, pequena face ao oceano, robusta face aos golpes da viagem marítima. No mar di canal a história de naufrágios é tão longa como a memória de aqui viver.
O Ilhéu dos Pássaros, uma rocha plantada no meio do canal, faz as vezes de bússola, depois dele são uns 40 minutos a navegar com dois territórios insulares à vista, mas estranhamente distantes devido à força das correntes.
S. Antão é a última (ou a primeira) das ilhas do grupo do Barlavento. S. Vicente sempre a usou de celeiro. Por sua vez, de S. Antão imigra-se para a cidade do Mindelo, em busca cultural e comercial.
Existe uma atmosfera descontraída entre os locais, os cabo-verdianos- santantonenses ou saovicentinos - fazem mais uma viagem de ilha para ilha, carregam sacos agrícolas e algumas cestas. Bananas, papaias, feijão, milho, fruta-pão, garrafões de grogue e até molhes atafulhados de cana-de açúcar, tudo encravado debaixo dos bancos, a forma de não rebolarem pelo convés quando chegarem as investidas das ondas.
As ondas surgem a bombordo e a estibordo, sincronizadas, fazendo do barco um baloiço, ora para um lado ora para o outro, num movimento inacabado de centrifugação.
Os rostos ficam visivelmente mais tensos, mas nada que alguns vómitos sonoros não aproveitem para aliviar. O oceano, esse vai espalhando ar fresco e baleado de gotas de água, só ele e o comandante do barco participam da quantidade de direcções daquelas correntes.
Porto Novo aparece desértica. É a cidade-porta, recente e esbranquiçada. No cais já está instalado o furor da chegada diária do Ribeira de Paúl. Existe outro transporte, uma grande embarcação que faz esta travessia, mas é usado por pessoas mais endinheiradas e turistas.
- Ponta do sol! Ribeira Grande!!! - E os demais destinos são gritados pelos motoristas. Aparentemente todas as pessoas se conhecem. É um meio pequeno e as viagens já estão quase todas combinadas.
O motor da “Hiáce”, como eles dizem, um Toyota de nove lugares, arranca subindo lentamente até ao sopé da montanha, parando algumas vezes para recolher passageiros. Rostos negros e mulatos encostam-se confortavelmente aos vidros das janelas, deixando-se embalar pela estrada empedrada.

O Vale do Paúl, chega duas horas depois e já deixou para trás uma viagem de uma ponta à outra da ilha. O troço final até Vila das Pombas são alguns quilómetros de via marginal sempre a contornar o Atlântico. A estátua de S. Antão (S. António em língua Crioula) agarra o menino e não tira os olhos do oceano. Já cheira a Brasil…
Existe movimentação na vila, a maior de todo o Vale, as crianças vão para a escola de bata azul, aparentemente satisfeitas.
A origem vulcânica está presente na paisagem e entre as pessoas reina a tranquilidade de quem já viu a tempestade passar. As primeiras árvores plantadas a partir dos anos vinte do século passado, vieram da Serra da Estrela e com elas, também a metrópole enviou técnicos especialistas em implementação da agricultura com a missão de tornar estes vales e picos a rondar os dois mil metros em terrenos produzíveis. Pinheiros, eucaliptos, grevílias, ciprestes e até algumas figueiras, entre outras espécies autóctones, compõem a família florestal. Esta, entre as dez do arquipélago, é das poucas ilhas onde ainda chove, praticamente todos os anos.

Ilha de Sto Antão - Falésias e Trapézios







Falésias e trapézios
Atravessa-se Ribeira Grande à hora de saída dos quase três mil alunos do Liceu Lizete Delgado. Dispersam-se pela cidade e pelas montanhas, trepando os inóspitos desfiladeiros.
Segue-se viagem para Chã da Igreja. Nhô Silva, um dos quinze passageiros que viajam na “Hiáce” aproveita a viagem para desabafar as suas preocupações, com peculiar sentido de humor:
-“ Os chineses e as lojas deles já não me enganam mais vez nenhuma. Comprei lá umas sandálias que duraram dois dias. – Já viveu em Portugal muito tempo, trabalhando na construção civil. De facto, como em muitos outros locais do mundo, também em Cabo Verde as lojas chinesas imperam a cada esquina.
- Já cheguei à conclusão que mais vale comprar dez camisas logo de seguida nas lojas dos chineses para as ir substituindo conforme se rompam. - remata.
As conversas tornam-se impossíveis com o ranger dos travões nas descidas até Chã de Igreja, já bem junto ao mar.
De Chã de Igreja a Cruzinha, uma pequena aldeia piscatória, e até Fontainhas, pode-se fazer um percurso pedestre sempre na rocha à beira-mar. A trilha faz lembrar uma antiquíssima estrada romana, pede um metro e meio emprestado à falésia, quer acompanhado por um muro de protecção quer sem ele, quer subindo quer descendo, degraus e zigue-zagues.
Antes de chegar às Fontainhas ainda se passa por Formiguinhas e Corvo, duas aldeias encravadas entre o mar e o maciço rochoso, num isolamento com tanto horizonte que potenciará mais ainda a aflição de emigrar.
Ti Jôn abre as portas da sua casa, vende cervejas e água a quem passa, nada mais. Na sua sala de estar exibem-se em prateleiras os mais variados electrodomésticos, um microondas, uma torradeira, um dvd, uma pequena aparelhagem, uma batedeira eléctrica, uma varinha mágica. Tudo dentro das respectivas embalagens, sugerindo pouco ou nenhum uso.
- É a minha filha que me envia estas coisas. Vêm da Alemanha. – esclarece.
O troço do percurso até ao Corvo é mais escarpado e sinuoso. Aqui existem uns estabelecimentos parecidos com cafés, mas de qualquer maneira a vida continua a enunciar-se dura e cheia de sacrifícios.
As Fontainhas, a aldeia-presépio surge finalmente no horizonte. As casas usam-se umas às outras como alicerces e o precipício, que se desenha aos socalcos, é aproveitado ao milímetro para cultivo. Alfaces crescem no sentido horizontal, mas de raiz persistente. A parte inferior da aldeia serve de trapézio à de cima e a falésia é apenas uma armadilha que há muitos anos passou a ser ignorada. Junto ao mar, à distância de vários metros de altitude, foi alisado um campo de futebol e as crianças chutam as bolas, trajadas de camisolas de jogadores lusos ou brasileiros.
O Sr. Teófilo é dos poucos com vontade de falar. Em poucos minutos põe-se à vontade e começa a recitar a História de Portugal como quem recita poesia, às vezes perde-se no tempo, nunca a coerência. Dá a entender que decorou pedaços de livros inteiros. A época de D. Afonso Henriques e da formação de Portugal é a sua preferida. Egas Moniz o seu herói. Com a quarta classe, estudou Geografia, Economia e História:
- Sem dúvida que antigamente o ensino era muito mais exigente, e as crianças saíam dali preparadas para a vida, mas confesso que até aos vinte e tal anos sabia de cor todas as linhas férreas de Portugal e nem sequer sabia por quantas ilhas era formado o arquipélago de Cabo Verde. – comenta o Sr. Teófilo um senhor com setenta anos e aspecto de cinquenta.
É a nota comum entre este povo, a partir de uma certa e avançada idade, todos aparentam aproximadamente menos dez ou quinze anos.
A televisão sintoniza os canais portugueses. As pessoas estão ocupadas com as suas vidas, não há pressa para nada, só teimosia de existir.
O tempo passa tão devagar que se enganam as rugas, se enganam os filhos, os netos e os bisnetos: a saúde e a total ausência de stress deve ser a dádiva dos deuses atlantes aos bravos que persistem em habitar locais tão remotos.
Quem melhor explica tal ímpeto do espírito, é o filho mais novo do Sr. Teófilo, juiz da comarca de Ponta do Sol, a vila mais próxima. Estudou na Faculdade de Direito de Lisboa e frequentou o SEJ (Centro de Estudos Judiciários) durante mais dois anos. Regressou a S. Antão contente com a experiência em Portugal, com o enriquecimento cultural e profissional que desejava. Agora, sentado no chão com uma mini Sagres presa entre os dedos, camisola de alças realçando o corpo mulato, cerra os olhos por detrás dos óculos descansando brevemente de mais um dia de processos e sentenças.
- Só na minha ilha tenho a sensação de estar em casa e ao mesmo tempo navegar continuamente. É um sentimento ilhéu e atlântico. Ironicamente, só em S. Antão não me sinto preso ao chão. – Explica descontraído, de sorriso enigmático.