Sikkim - O escondido Reino Himalaia


Os vistos e permissões são carimbados em Siliguri, a entrada no 22º Estado da Índia está assegurada. O segundo estado mais pequeno e o menos populoso está encostado ao Tibete (administrado pela China), ao Nepal e ao Butão e a sua história é de invasões e tratados de paz, Budismo e Hinduísmo que à mistura se foram adaptando às encostas escarpadas e profundos vales neste recanto de Himalaias tropicais.
O clima oscila entre temperado, tropical e alpino, uma vez que a altitude varia entre os 280 metros e os 8590, mas Sikkim é diverso em vários outros aspectos, a população reparte-se entre lepchas, bhutias, e nepaleses, o que, culturalmente, triplica o interesse da região, sobretudo por conviverem pacificamente. Residem outras comunidades de emigrantes, nomeadamente tibetanos, sobretudo no Norte e no Oeste do Estado.
O autocarro apinhado dirige-se a Gangtok, as sucessivas paragens devem-se aos desvios improvisados que escapam aos destroços das enxurradas da estação das chuvas que lamberam vários troços da estrada que agora se recupera vagarosamente. Ninguém se preocupa com os precipícios e há quem durma apoiado ao braço, estirado firmemente e agarrado ao manípulo suspenso no tecto do autocarro.
Gangtok, além de capital e cidade mais populosa, também se confunde com um desmesurado miradouro, bem aproveitado através de uma linha de teleféricos que balouçam junto às nuvens e espreitam para os cumes mais altos disfarçados pela neblina. É uma cidade em escalões, rodopiada por jipes pujantes e automóveis que a sobem e descem, espectacularmente edificada por prédios simples de três ou quatro andares, apoiados uns aos outros como peças de puzzles da engenharia. Vêem-se transeuntes com pressa e sem ela, mas é na avenida principal, que a partir das 17 horas se transforma numa enorme via pedonal que se reencontram os compadres e as comadres, os jovens e os velhos, os monges e os leigos, os comerciantes e os consumidores. As etnias confundem-se, não se está na Índia nem na China, não é Tibete nem o Nepal. Os números indicam que 60% da população é hindu, 30% é budista e 7% é cristã, sobretudo os lepchas convertidos pelos ingleses quando exerciam influência nesta zona antes da independência da Índia em 1947. Uma estátua de Nossa Senhora dá as boas vindas aos crentes na fachada principal da sua igreja enquanto os miradouros da cidade estão preenchidos com orações de quadrados de pano, uma colorida demonstração de fé budista. O Budismo foi introduzido no séc. XV e aparentemente é a religião predominante. Os seus muitos e antigos mosteiros espalhados pelo estado são a prova terrena disso mesmo. Intercalam-se os vestuários, os prazeres culinários, os festivais religiosos que cada cultura aprimora.
Na paragem dos táxis-jipes podem ser escolhidas várias direcções, basta perguntar quando não há tabuleta. Arranja-se sempre lugar para mais um e os veículos normalmente partem com o tejadilho carregado de materiais de construção ou grandes sacolas amarfanhadas. Dentro do jipe reina o silêncio, mais do que isso, assiste-se a uma certa concentração que do condutor é contagiada para os passageiros, alguns murmúrios ou o som das contas dos terços a tilintar não interrompem a meditação que parece ser o estado normal em que vive aquela gente. Nem o chiar dos travões que permitem atravessar o percurso de curva e contra-curva até ao mosteiro de Rumtek perturbam os passageiros.
À entrada do mosteiro, fileiras de chu mani tengur (orações inscritas num cilindro que com impulso dado pelos crentes rodam sobre o seu eixo) indicam o caminho para o recolhimento. O primeiro portão é vigiado por um guarda e assim que se trespassa a entrada para o átrio dois homens de bastante idade chamam à atenção, agachados num canto, debaixo de um telheiro. Um rapa a cabeça ao outro. Têm trajes de cor açafrão e quase não existe luz para executar a tarefa. O resto do átrio está vazio, de vez em quando passa um estudante de sacola na mão que entra para dentro do mosteiro. Este é um verdadeiro espaço contra a monotonia, já que tanto a sua entrada como o seu interior estão revestidos de pinturas à mão com a conjugação de tantas cores e tantas histórias, tantas personagens e tantos símbolos, tantos deuses e dragões. Cada coluna vermelha e dourada é enfeitada por faixas que pendem do tecto desenhadas com campos floridos. O requinte e pormenorização destas figuras é espelho de um trabalho que sugere séculos de paciência. Os olhos de Buda estão fechados mas concentram as atenções dos presentes: alguns monges e senhoras muito velhas.
Procurando as traseiras do mosteiro, entende-se que ali se estende um complexo de edifícios que estruturam uma universidade: Karma Shri Nalanda Institute, onde se desenvolvem os Estudos Budistas Superiores. Aprendizes debatem serenamente nos jardins, ou manuseiam um livro isoladamente, ou estendem-se ao sol de braços e ombros nus com as vestes vermelhas contrastando com o verde da relva.
Um som surdo mas sonante provém de uma sala interior, é possível entrar, realiza-se uma oração budista, no qual um garoto de cinco ou seis anos lidera o grupo de dez jovens adultos, batendo desajeitadamente num gongo estridente, enquanto os outros entoam um canto perturbador, a uma só voz. Nenhuma explicação é oferecida, nem se vislumbra espaço para colocar questões. Os visitantes devem usufruir dessa sua qualidade, de forma resguardada e sem interferir nas rotinas da universidade.


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Sikkim em troca do Tibete




Rumtek é uma fiel réplica das instalações de Kagyud, no Tibete. Muitos dos fiéis são tibetanos. Muitos dos tibetanos encontraram em Sikkim o início de uma nova vida, bem mais próxima da antiga realidade do seu país do que a actual realidade da colonização chinesa. O Namgyal Institute of Tibetology, por exemplo, é um prestigiado centro de tibetologia com uma rara colecção de manuscritos sânscritos, tibetanos e lepchas onde se podem observar mais de 200 objectos de arte budista que encantam os visitantes.
Em 1947, uma consulta ao povo teve como resultado a decisão de Sikkim não se juntar à União Indiana, recentemente tornada independente da Grã-bretanha, pelo que o primeiro ministro Jawaharlal Nehru concordou que Sikkim seria um protectorado com um estatuto especial. Em 1973, motins em frente ao Palácio Presidencial pediam protecção formal à Índia, descontentes com as opções do Chogyal (líder político) e em Abril de 1975, através de um referendo que obteve 97,5% das votações a favor, Sikkim passou a ser o 22º estado da Índia, abolindo-se a monarquia.
Pela sua localização geográfica Sikkim, é um terreno propício a receber os efeitos colaterais de dois gigantes que exercem pressões a vários níveis, mais cedo ou mais tarde, por motivos políticos ou económicos, uma opção tinha de ser tomada. A China vive em 2000 um episódio incómodo a quando da fuga inesperada e desesperada do Lama Karmapa Urgyen Trinley Dorje (proclamado Lama pela China) para o mosteiro de Rumtek, uma vez que o ainda não havia sido oficialmente reconhecido pela China que Sikkim fazia parte da Índia. Tal só veio a acontecer em 2003 quando o acordo é assinado entre as duas potências no qual a China reconhecia que Sikkim era território indiano e a Índia reconhecia que o Tibete era território chinês.

Para chegar ao Tsombo lake, outro local de visita obrigatória, além de conseguir uma série de novas papeladas carimbadas é necessário percorrer uma estrada que desafia o desfiladeiro, conhecida como uma das mais altas estradas circuláveis do mundo, com pontes que também batem recordes, onde se observam anéis de nuvens roçando as montanhas em forma de torres. A presença militar é intensa e constante e os anúncios em cartazes amarelos escritos a tinta verde enunciam as mais variadas mensagens, políticas, espirituais ou sócio-económicas. Uma delas podia ler-se em inglês: “Quantas pessoas calcula que morreram na construção desta estrada para você aqui poder passar hoje.” Outro enunciava: “De Caxemira a Kanyakumari (ponto mais a sul do país) Índia é uma só.”
O lago, a 3780 metros de altitude, é apenas a 18 quilómetros da fronteira com o Tibete. Mantém-se mais tranquilo que a base militar, só as gotas de chuva o agitam, não há sinal de vento, nem as montanhas que o rodeiam podem ser avistadas através do nevoeiro. São expressamente proibidas as passagens de turistas para o lado nordeste do lago, soldados controlam todos os passos com as metralhadoras penduradas ao regaço. Dá a ideia que até a paz desta paisagem alpina é controlada por eles. Yaks povoam a paisagem, carregando pacientemente turistas indianos do sul. O pêlo abundante dá-lhes um ar de golden trevier gigantes. Talvez tenham assistido à origem do lago que, segundo as crenças budistas foi sobrenaturalmente trazido para aqui da região Laten.
A descida até Gagtok ainda possibilita uma visita ao Enchey Monastery, mais um festival de cores, com os arredores de colégios construídos para abrigar centenas de garotos de cabeça rapada e sem qualquer expressão decifrável. É impressionante observar crianças que não demonstram sinal algum de curiosidade, apenas dedicados a estudar a natureza da alma e para quem o estado último será chegar à iluminação. Conseguirão? Em contrapartida, o interior do templo é um convite à infância, os cenários de natureza recriam lições religiosas com criaturas espampanantes, como se se tratasse de um convite a ler uma banda desenhada.
Himalayan Zoological Park, é uma espécie de reserva natural onde se podem observar raros animais da fauna himalaia, tais como o panda vermelho, os lobos brancos, o leopardo das neves himalaias e ainda o urso negro himalaia. Como o panfleto-mapa que é distribuído à entrada avisa, “venha com muito tempo e paciência” é necessário esperar bastante para que os animais se coloquem em pontos visíveis para os visitantes, mas sobra o consolo de saber que terão uma vida aproximada do que seria o ideal selvagem.
Falta visitar muitos outros locais interessantes, Rinchepong, por exemplo, local de onde se pode avistar os vários picos do Khangchendzonga (8586 metros de altitude), a terceira maior montanha do mundo com o amanhecer. Para pernoitar só há dois alojamentos à escolha. As varandas são bonitas, mas atraem borboletas gigantes, com cerca de 15 centímetros, de cor castanha e alaranjada que tentam entrar para o quarto.
De manhã, com os primeiros raios de luz a paisagem aumenta até aos picos brancos em forma de muralha, a cordilheira deixa-se avistar por pouco tempo, mas vale a pena olhar, mesmo que poucos segundos, para tal espectáculo.
A saída de Rinchepong não é fácil. Os costumeiros jipes-táxis já partiram todos às 6 horas da manhã. O dono de uma mercearia sabe que o cunhado vem entregar umas mercadorias, se houver perseverança em esperar talvez seja possível uma boleia. Quatro canecas de “Chai” depois (chá com leite e especiarias) chega a ansiada boleia que pode fazer o transporte até Yuksom. Pelo caminho avistam-se bandos de crianças com as suas mochilas, dirigem-se para a escola, os irmãos ou vizinhos de 6 anos, cuidam dos de 3 ou 4, fazem quatro ou cinco quilómetros por dia, sem qualquer sentimento de insegurança. A paisagem até Yuksom, no oeste de Sikkim é verdejante. Os trilhos são muito procurados por turistas caminhantes mas oferecem alguns perigos, nomeadamente as sanguessugas que costumam aparecer junto às zonas com lagos e conseguem trepar pelo corpo humano chupando o sangue que as deixarem. É o que acontece a um grupo de ingleses que começa por as arrancar com algum esforço e algumas gargalhadas, mas que pouco depois têm de correr ao hotel para se examinarem sem roupas e tentarem erradicar todas sem excepção, o que não é fácil devido à sua extrema resistência.
A vida nestas montanhas e vales vai subindo e descendo, ao sabor da geografia acidentada. Um dos locais mais recônditos do mundo é também um orgulhoso reino que surpreende com as suas histórias e inventa novas entradas para os Himalaias.

Peru - Os carregadores dos Andes



Quem opta por chegar a Machu Pichu através do caminho inca, num trekking de três dias, cede muitas vezes a passagem a homens que levam tudo às costas. Correm em vez de andarem e transportam cargas à primeira vista impossíveis de suportar. São os carregadores dos Andes.

A bruma aparece subitamente. Nada a fazia prever num céu descoberto e de um azul total até há cinco minutos atrás. Muito menos que as montanhas aqui em frente iam desaparecer do campo de visão.
“Porter!!”- ouve-se gritar com força. É a palavra-passe que todos os turistas entendem e significa a obrigação de dar passagem a alguém que aí vem carregando o dobro da carga, caminhando ao dobro da velocidade. Carlos, Francisco, Sábio e Pepe são uma equipa de carregadores formada para levar a cabo mais um trekking nos Andes. As suas idades variam entre os 39 e os13 anos. São oito os estrangeiros que vão acompanhar desta vez, a maioria da Europa, uma mexicana e um chileno.
Os quatro já caminham lestamente em fila indiana. Acabaram de amarrar tudo o que lhes incumbiram para o seguinte destino, e embora aquele grupo de turistas tenha saído com uma hora de avanço, cruzam-se neste momento. A um bom carregador não se exige só força para suportar o peso. Terá também de caminhar velozmente. O objectivo é que o próximo acampamento esteja montado quando se der a chegada deste grupo que agora lhes desimpede o trilho. As montanhas parecem maiores com o início da queda de chuva cinzenta, é miudinha, mas torna todo o caminho mais deslizante. É a primeira regra do alpinismo: é mais fácil subir que descer, e também aqui se aplica.
Carlos Vasquez tem 20 anos, vive nos arredores de Cuzco, e depois da morte da mãe aos 15, deixou a escola para trabalhar.
Há cinco anos que o seu quotidiano é feito de idas e vindas a Machu Pichu, chegando até lá perto com tudo o que lhe é requisitado transportar nas costas e mãos, e saindo em direcção a casa com o precioso, mas muito mais levem, punhado de soles, a moeda peruana. Soube deste trabalho através de um amigo que o avisou: “O trabalho é muito duro, mas chamam-te sempre.”Carlos tem uma família numerosa, quatro irmãs e um irmão, o seu pai trabalha no campo, lavrando a terra de outros, em troca de algum dinheiro que apenas alimenta a família, não a veste, não a acode se algum problema de saúde surgir, não paga os estudos dos cinco filhos ainda menores. Carlos chega a estar três meses sem ir a casa, trabalhando consecutivamente, na altura em que a afluência de turistas atinge o auge. Normalmente, depois de três dias de intenso trabalho, regressa das montanhas, dorme uma noite numa cama mole a que as suas costas chamam de ortopédica, e parte no dia seguinte, fazendo parte do “staff” de mais um “tour” composto por quatro ou cinco carregadores, um cozinheiro, um guia, e grupos entre os cinco e os 13 turistas.
Carlos parece não dar pelo piso molhado, o início da descida dá-lhe fôlego para saltitar e estugar o passo, quanto mais cedo chegar, mais cedo pousa a carga e descansa.
O seu rosto está marcado pelo frio, numas rosáceas que se tornam ainda mais visíveis com o esforço físico da última subida.
A sua respiração é profunda e concentrada, parece controlar serenamente o pulmão. Não se observando os gémeos a tremer involuntariamente, seria imperceptível o cansaço.
Quando se aproxima de Francisco, companheiro que leva aproximadamente menos dez quilos, embora tenha menos sete anos que Carlos, grita em quechua:
“Já falta pouco para o nosso chá de coca”.
Ventos e brisas imperceptíveis deslocam as nuvens de um lado para o outro, e a paisagem já de si imensa, torna-se inconstante, volátil, recria-se em cada momento.
São os primeiros a chegar ao acampamento onde se volta a reunir todo o grupo, Francisco e Carlos são irmãos, e não só trabalham em conjunto, como o seu salário é para a mesma causa.
Francisco senta-se num degrau, solta um suspiro de alívio, e tira uma alça de cada vez, com os braços magros muito lentos, como se não os sentisse muito bem. O irmão faz o mesmo, desenvencilhando-se da carga com menos cuidado, como se por um momento a odiasse, e a abandonasse convictamente para todo o sempre. Dobra-se para trás de olhos fechados, contorcendo os lábios e transparecendo assim uma coluna dorida. Depois de contrariar uns segundos aquela postura curvada que o acompanhou nas últimas quatro horas, foca a vista no infinito e, sem daí desviar o olhar, dá a ordem ao irmão: “Tira o fogão do saco, vou fazer chá.”
“O Caminho Inca “, como lhe chamam, como se só um existisse, e não imensos, os quase incontáveis caminhos incas, que ligavam toda a América do Sul até ao coração do império, Cuzco, é uma das formas mais usadas para chegar a Machu Pichu. Só o comboio e uma linha férrea lindíssima, que serpenteia romanticamente uma infindável paisagem de montanhas verdes, leva maior número de pessoas. Esse percurso é quase claustrofóbico, ao início segue lado a lado com uma pequena corrente de água, passando de seguida a estar confinado à margem do Rio Urubamba e aos montes que o vigiam.
A grande vantagem de fazer o caminho inca, o que implica três dias a caminhar por altitudes que chegam aos 4200 metros, (e as mesmas noites a acampar sob o som e contacto da chuva, além de todo um passeio andino fascinante), é a visão de 30 minutos ou menos às 6 horas da manhã. Nessa altura, com o amanhecer, o santuário arqueológico permanece intocável por humanos, uma cidade só habitada por memórias, aves de grande porte e lamas.
Esta visão é possível da “Puerta del Sol”(Intipunku), e para os amantes das coisas como elas eram, constitui, sem dúvida, a única forma de contemplar Machu Pichu - o sítio mais visitado da América do Sul - sem as costumeiras centenas de turistas.

Ganhar a vida a subir montanhas




Este é um povo que sempre viveu nos rigores da altitude, dos climas definidos e incontornáveis.
É assim nos Andes, nos Himalaias, no Atlas, e em todas as grandes cadeias montanhosas. Pessoas com uma capacidade de trabalho impressionante. Viajando de autocarro pelo Peru, é frequente encontrar-se casais de pessoas já idosas, acompanhados pelas suas enxadas, catanas, e grandes sacos de sementes, descendo nos sítios mais improváveis, campos no meio de montanhas sem horizonte de área habitada num raio inarrável, e ali passam o dia, quem sabe a noite, talvez semanas, até voltarem a casa com esperança de que este ano haja uma boa colheita “por altura do Domingo de Ramos”.
Os carregadores são desta “raça”, homens e adolescentes para quem a montanha significa os únicos horizontes possíveis, a fonte de subsistência, o retiro espiritual, o sacrifício diário.
No Peru a maior parte da população do interior vive da agricultura. O turismo em ascensão que despoletou nos últimos anos uma economia quase paralela, alicia estes homens para o dinheiro “fácil”. Mas de “fácil” não tem nada.
Numa zona dos Andes em que as montanhas se sobrepõem umas às outras a civilização Inca ousou calcetar vias, construir povoações, cidades. Mas a maioria dos caminhos são intransitáveis, só pernas comandadas por cérebros atentos podem ali circular, nem mulas de carga desafiam os empinados degraus escaladores das alturas, que à primeira vista parecem mais socalcos que escadas.
O trabalho dos carregadores é levar cargas a rondar os 40 quilos, embora possam ser mais, se conseguirem, ou menos, tudo equilibrado e medido por quem os contrata, numa análise que tem em conta o que conseguem suportar de peso e a velocidade que conseguem caminhar com essa carga.
Os incas tinham um conceito cíclico de História. Em cada nova mudança de poder a que chamavam “pachakuti” (numa tradução bastante literal – viragem no tempo e no espaço) reescreviam o passado.
Nesse aspecto, nada mudou então, tudo se reescreve, a mobilidade das pessoas e dos seus pertences continua a realizar-se como há 500 anos atrás, nas costas curvadas dos carregadores.
Na verdade, embora o nome os honre, não é o mais justo, pois estes homens além de levarem todo um acampamento ás costas (que inclui tendas, bancos desmontáveis, uma tenda maior que serve de sala para refeições e espaço de convívio, toda a comida e a loiça), montam tudo isto e fazem trabalho de garçons. É todo um papel que cumprem em silêncio e com descrição.
Lá em cima já se avistam novas nuvens que chegam em colunas horizontais tornando a paisagem menos ampla, mas sem dúvida mais mística, e por entre elas, os outros dois carregadores que trazem as maiores cargas, descendo aos saltinhos, mais seguros das suas forças do que a sua aparência magra sugere. Quando chegam à zona de acampamento já o chá de coca, conhecido pelas propriedades benéficas aos sintomas da altitude, está pronto.
Juntam-se os quatro, e apenas se ouvem respirações aceleradas. Os copos são distribuídos por todos, o silêncio e esgotamento são dispersados pelo vapor que sai do chá acabado de ferver.
Alguém passa e cumprimenta Carlos com um gesto de cabeça.
Este sorri com doçura, sopra ligeiramente para afastar as folhas que flutuam à superfície do copo de plástico. Sorve um pouco.
A infusão termina num instante, é altura de continuar o trabalho. Agora é necessário montar as tendas, incluindo a do cozinheiro que está prestes a chegar e pouco depois começará a confeccionar o almoço.

Peru - Espírito semi-indígena

Sábio Lopez é o primeiro a levantar-se, tem 39 anos e quem mais experiência como carregador. Desde os seus vinte que percorre estes trilhos: “Já vi mais europeus, norte americanos ou australianos, do que peruanos ou sul-americanos. Mas conhecer, conhecer, falar com as pessoas e elas comigo, lembro-me de cinco ou seis.” Afirma desatando os atilhos da sua carga, todos enrodilhados à volta de um oleado que abriga todo o amontoado de coisas que ali são trazidas. Ao volume que cabe a cada um, improvisam-se umas alças daquele material também, que o liga ás costas, embora de uma forma totalmente precária, suportando exclusivamente o esforço nos ombros. O facto de Sábio não ter convivido com muita gente de outros continentes, explica-se sobretudo pelo seu castelhano ser quase inexistente, não saber escrever uma palavra e não falar nenhum outro idioma a não ser a sua língua, o quechua: “Nunca fui à escola, mas não saber ler ou escrever não me impediram de ganhar a vida”. É como interpreta o seu analfabetismo.
Não fala da família, dá a entender que não há muito para dizer. Aliás, é necessário arrancar-lhe as palavras independentemente do assunto, exprime-se com voz branda, impessoal, com a qual não acompanha nenhum gesto ou olhar. Essa timidez ou desconfiança acentua-lhe os traços indígenas:”O vento está a rodar para sul, temos de despachar-nos: vai chover.”Afirma, absorto no desenvencilhar de tantos cordéis. Dá duas ou três ordens que explicam onde devem ser montadas as tendas para os estrangeiros dormirem. E começa a falar muito rapidamente em quechua, provavelmente assuntos que só dizem respeito aos autóctones. Passam alguns momentos, e o acampamento está montado, com a rapidez de uma distracção.
Pepe é o mais conversador e destaca-se dos outros devido à sua postura mais aristocrata que a comum simplicidade peruana costuma permitir. Nasceu nos arredores de Lima (Huatocay), numa aldeia rural que já nem sabe se existe. Tem vinte e oito anos, um castelhano perfeito, e um enorme interesse pela cultura do seu país. É filho de um peruano de classe média, viveu até aos dezanove na propriedade da família, onde trabalhava sobretudo a tratar do gado, a quinta com os animais mais valiosos da região, explica. Não lhe desagradava a vida que tinha até então, a casa tinha uma biblioteca considerável e entretinha-se quando podia com os livros que o desfiavam a conhecer mais do seu mundo:”Quero satisfazer a minha curiosidade até às últimas consequências”, foi a frase que escreveu na carta de despedida ao seu pai. “ Os meus dias na quinta resumiam-se a ordenhar cabras e a vigiar todo o rebanho para os defender dos frequentes ataques de pumas. Até que um dia um puma deu cabo de mais cabeças do que era normal, quase todas, e foi necessário ganhar dinheiro para voltar a comprá-las”. Explica Pepe tranquilamente no seu castelhano fluido. “Na altura decidi vir até aqui, se garantisse trabalho para umas semanas, podia conseguir dinheiro para comprar umas quantas. Na verdade era uma desculpa para conseguir sair de Huatocay. Não sabia que o trabalho ia ser tão duro, nem que este sítio fosse tão bonito”, exclama com os profundos olhos negros muito abertos. “Quando juntei o dinheiro necessário enviei-o ao meu pai. Eu fui ficando, até que um dia tenha outra vez vontade de matar pumas”.
Entretanto já tem esposa em Cuzco e trabalhava como ajudante de mecânico numa oficina. Há pouco tempo ficou desempregado e voltou às montanhas.”Sinto me tão capaz como antes, mas neste momento já só estou aqui porque tem de ser, uma necessidade urgente de dinheiro.” Os problemas económicos roubam-lhe o sorriso mas não a vontade de falar. O seu interesse reside sobretudo em Machu Pichu e nas civilizações andinas: “Os incas não possuíam sistema de escrita e por isso não deixavam testemunhos escritos. O melhor testemunho retira-se do solo, é como se os túmulos não guardassem pessoas mortas, mas sim livros de história, o registo dos costumes, e claro, as tradições religiosas”, diz num tom monocórdico mas seguro, ao mesmo tempo que ecoam gritos de águias que subitamente apareceram em bando a alguns metros de altura. Denota-se evidentemente uma cultura geral acima da média. Fala de tudo num tom muito baixo, como se contasse um segredo, ou abordasse algum tema proibido. Conta que a partir de Cuzco, as estradas dirigiam-se para Norte, Sul, Este, Oeste, as quatro principais divisões administrativas do império. Também da capital partiam mais de 40 caminhos que ligavam a cidade a aproximadamente 3000 huacas (locais sagrados) como montanhas, pedregulhos e nascentes. Não perde a oportunidade para referir que a primeira vez que chegou a Machu Pichu sentiu uma estranha familiaridade, e o arrepio que sentiu lhe revelou que era aqui perto que deveria ficar. “ Já há muito tempo programava esta visita, mas queria ali estar sem estranhos e ruídos de máquinas fotográficas digitais.” E mudando a expressão não explica como o conseguiu. Exibe um sorriso malandro, como se a sua esperteza fosse o seu trunfo, o seu triunfo. “ E ninguém imagina o que é estar lá sozinho, há coisas que só o espírito semi-indígena do sul-americano entende ”. Os olhos rasgados sorriem também.
As tendas já estão montadas e o almoço quase pronto. Passou uma hora e meia desde que acabaram de beber o chá de coca, até que chegassem os primeiros elementos mais adiantados do grupo. Uma cascata com cerca de 700 metros, cai desde lá de cima, percorrendo toda aquela altura, e impondo o seu som ininterruptamente. O caminho inca continua em frente, escalando toda a larga vista de montanha que o horizonte consegue proporcionar, até desaparecer na curva que contorna a subida. Dependendo dos humores meteorológicos, podem-se avistar ou não, as ruínas de uma casa sacerdotal inca, onde outrora se realizavam sacrifícios de virgens à “Pachamama” (Mãe-Natureza).
Depois do almoço todos descansam e chega a hora de jantar.
A noite cai entretanto e um novo dia de trabalho amanhece. Os turistas são acordados com ligeiras pancadas na tenda e o aviso: “Maté! Coca! Maté!” Pepe e Carlos servem chávenas de chá aos estremunhados. Este chá toma-se constantemente. Começar o dia com ele é uma das melhores formas de preparar o sistema respiratório para mais um dia de altitude. O pequeno-almoço é servido e pouco depois o grupo segue caminho. Para trás ficam os carregadores que atarefadamente embalam tudo novamente. A partir do momento em que ficam sozinhos na zona de acampamento, soou o disparo da pistola que dita o início de uma nova corrida. Sábio retira um saco de plástico do bolso. Contém as folhas de coca suficientes para o caminho. Os peruanos das montanhas (e os bolivianos também, únicos dois países onde consumir estas folhas é legal) utilizam muito este meio para ajudar a respiração. Muitos turistas também o fazem, mas não com a mesma convicção. Existe também uma substância negra que acrescentam à bola de coca que formam na boca e que, segundo eles, potencia os seus efeitos. Pepe explica melhor:” O efeito das folhas de coca é pura e simplesmente dar uma maior capacidade ao nariz e aos pulmões de inspirar mais e melhor. E como respiramos melhor, o cérebro está mais oxigenado, o ânimo mais forte, e a sensação de bem-estar pode ser mais generalizada.” Os dentes tornam-se verdes, enquanto os grandes volumes são colocados às costas. O primeiro quilómetro de caminho é uma subida longa até às tais ruínas da casa sacerdotal. O passo partiu desde logo acelerado, os olhos apenas fixam o chão. Quando chegam ao ponto cimeiro da montanha, o grupo de turistas está entretido com as explicações do guia, ou contemplando a paisagem, e ninguém se apercebe da passagem dos carregadores. Eles seguem caminho, com as pernas automatizadas, escondidos nos barretes que lembram os gorros dos pescadores, apoiados nos seus pés extremamente mal tratados, sujos, com unhas demasiado escuras sugerindo pouco tempo de vida. Todos calçam umas sandálias que à partida não inspiram confiança como instrumento fulcral para o montanhismo. São de material sintético, com duas tiras cruzadas na parte dianteira e assim se ligam aos pés.
Neste dia, a caminhada é menos cansativa, há menos alimentos a carregar.
As costas de Machu Pichu aproximam-se. Pepe inicia o seu já conhecido reportório de conhecimentos sobre a cidade inca, ao mesmo tempo que os companheiros aproveitam para demonstrarem claramente que já ouviram esses relatos vezes sem conta. Todos arranjam uma forma de se escaparem ás suas lições de história. Só Francisco, o mais novo do grupo, demonstra algum interesse, mas mesmo assim, pouco tempo. De facto, muita coisa há a dizer deste sítio. Foi edificado sobre um cerro, abarcando uma extensão de dois quilómetros de perímetro a 2800 metros sobre o nível do mar e a 400 sobre o caudaloso Rio Urubamba. Até hoje, ninguém sabe ao certo o significado arqueológico de tão majestosa cidade de pedra, toda construída em escadas, com quase todas as construções em níveis diferentes, com capacidade para resistir ás provações climáticas, e que, como cidade inteira, só perdeu os tectos de colmo.
É de calcular que a defesa não fosse difícil, uma vez que dois dos seus lados são formados por ladeiras quase a pique, o terceiro é uma garganta apertada, por onde passam caminhos, mas facilmente vigiáveis, e o quarto, é um pico que se eleva a 200 metros sobre um outro cerro. Daqui, Huainca-Pichu, lá de cima, tem-se Machu Pichu, já de si alta, aos pés.
Hoje, apenas os caminhantes mais arrojados e um sem número de borboletas de múltiplas cores por ali andam. Mas sobretudo a paisagem é arqueologicamente impressionante, aliada à beleza intrínseca desta parte dos Andes, revestidos por inspirações tropicais através de uma floresta semi-humida.
Amanhã, um novo grupo de turistas chegará ali, acompanhado do seu guia. Os carregadores, esses, depois de servirem o último pequeno-almoço, seguem mais leves rumo às suas vidas anónimas.

Andes - Os Guardadores da montanha




Os parques naturais do Chile são a porta de entrada para a magia dos Andes. Para aceder à cordilheira, é preciso conhecer dois homens que dão as boas-vindas e as coordenadas a quem se propõe a explorar tais caminhos. Clement Lauffret, 60 anos, e Victor Marquez, 19, são os guardas florestais dos parques naturais de Altos del Vilcray e Torres del Paine, respectivamente. Versões distintas da mesma militância.


Sentado na sua secretária de madeira de carvalho, D. Clement Lauffret, não desvia a atenção dos milímetros específicos que observa no mapa. É o Parque Nacional Altos del Vilcray que D. Clement administra há 12 anos e onde vive permanentemente. Situa-se no centro do Chile, paredes-meias com o mais conhecido Parque Nacional de Las Siete Tazas, uma estrutura geológica de granito por onde a água cai em cascatas, “de taça em taça”. Siete Tazas e Altos del Vilcray partilham a linha da cordilheira dos Andes que os atravessa e a intensa fauna que percorre todo aquele espaço em movimentos migratórios buscando comida e local apropriado à nidificação.
D. Clement, um espírito indigente de 60 anos com vigor de 30, é o decano dos guardas florestais de Altos del Vilcray, território que lhe corre nas veias. Como o casal de australianos que agora chegaram à cabana todos os turistas caminhantes que queiram visitar o parque, terão de anotar o seu nome no registo de entradas e saídas, bem como informarem-se dos pormenores mais importantes das condições para visita e pernoita. Este casal chegou com intenções de fazer um suposto trilho que liga as duas reservas ecológicas, acampando pelo caminho. D. Clement é obrigado a explicar que esse caminho ainda não está marcado e sinalizado, ou seja, os próprios guardas-florestais ainda não conseguem fazer esse percurso com a total segurança de não perderem o trilho, pouco mais que uma linha apenas traçada pela bússola .
Explica-lhes que há pouco mais de um mês, saiu um grupo destes funcionários, para reconhecerem terrenos ainda mal explorados dentro do perímetro do Parque.
Passados os cinco dias de expedição, quando D.Clement os esperava, não apareceram, e foi necessário recorrer a tecnologia de GPS para os localizar.
D. Clement acentua, baixando um pouco os óculos sobre o nariz: “E pessoas desaparecidas para sempre é uma história demasiado bem conhecida por nós neste Parque…” Volta a colocar os seus óculos bem graduados em frente aos olhos. Faz uma pausa e esboça um sorriso sem mensagem.
Os turistas não chegam a perceber se é verdade ou simplesmente exagero esta última informação. Pelo sim, pelo não, decidem não correr o risco e questionam sobre um itinerário alternativo.
Os Parques Naturais no Chile têm dinâmicas muito próprias, assemelhando-se a ilhas, com cultura e regras bem distintas do resto do território. As informações que os turistas recebem na cidade muitas vezes não coincidem com a realidade. Especialmente aqui, numa reserva enorme e com paisagens deslumbrantes, mas sem grande ou nenhum investimento na sua divulgação. Dentro dos limites territoriais de Altos del Vilcray encontra-se uma comunidade considerável de raposas, pumas e tarântulas. Percorrer trilhos não sinalizados é capaz de ser má ideia.

Andes - Montanhas e cordilheiras para contar


D. Clement repete várias vezes que refastelar-se numa poltrona na sua idade é um perigo, usando a recorrente ironia que lhe dá um traço misterioso. Trocou a família pelas montanhas há cerca de 20 anos, quando se tornou funcionário da CONAF, o organismo que gere as reservas ecológicas do Chile. A sua relação com a montanha é porém muito mais antiga. Depois de ter subido e escalado todas as montanhas do Chile, Peru, Bolívia, Argentina - navegando de Norte a sul pela cordilheira dos Andes - rumou à Europa.
Não satisfeito com os Alpes, fez duas viagens ao Nepal. Uma foto de um pico gelado de 8000 metros do Maciço de Annapurna, nos Himalaias, ocupa lugar de destaque na sua sala, precisamente sobre o umbral da lareira. Mas há outras, uma foto a preto e branco nas montanhas de Bariloche (Argentina, Patagónia-norte), como um sorriso de criança e satisfação.
Outra enquadra-o numa paisagem do Monte Branco, com um rosto a dar as boas-vindas às primeiras rugas e um olhar mais longínquo. As estantes que existem estão cravejadas de livros sobre montanhismo, alpinismo, parques naturais, exploradores dos picos mais arrojados do mundo. Mas também várias obras sobre as culturas que ali viveram, sobretudo as culturas Maia, Asteca e Inca, na América do Sul.
“ Não vamos perceber nada destas montanhas se não compreendermos que tipo de pessoas entenderam ser ali o seu lugar. É como se a montanha fosse o núcleo do polvo, e os habitantes os seus tentáculos”, afirma D. Clement. Mas a seu interesse e sabedoria também se alargam a outras civilizações. E não só por curiosidade. “Quando se iniciou a construção da cabana onde moro, fiz um levantamento sobre o solo e área circundante. Descobri primeiro que havia vestígios da tribo “ayamara”, que incluía um cemitério indígena. Foi precisamente no local do cemitério que entenderam que seria o melhor local para a construção da cabana e, contra as minhas ordens, aqui foi construída.”
Põe as mãos atrás das costas e vira-se para a lareira acesa, debruça-se para aquecer as mãos. Lá fora ouve-se o riacho e o relinchar súbito dos dois cavalos. Além destes, tem apenas a companhia de dois “zorros”, uma espécie de raposas que vêm todos os dias comer junto ao seu portão. “Por isso, tenho tão poucas visitas. É que ao contrário das aparências, não estou sozinho”, e ri-se dirigindo-se para a cozinha com o intuito de apagar o chá que já ferve.
Quando volta, continua a abordar o assunto: “Por volta de 1890, uma grosseira versão da teoria de Darwin, parecia encorajar a caça aos índios, com base num dos princípios capitais: a sobrevivência dos mais bem adaptados. Os europeus tinham certamente uma superioridade física sobre os nativos, mas apenas distinguível pelas cartucheiras de balas que traziam. Os nativos, diga-se de passagem, eram de longe os mais aptos, e hoje, nem o repouso dos seus corpos conseguimos respeitar.”
A influência da montanha é visível no seu carácter, denota-se a cada gesto, na maneira pausada como explica os percursos, nos passos decididos que o levam a cumprir as suas tarefas, no olhar trémulo com que procura no céu uma previsão do tempo. A cabana é muito bonita, dentro da simplicidade que é característica num albergue de montanha, este, até proporciona um espaço bastante acolhedor e cómodo. Bem mobilada, com quarto de visitas, que acaba por ser quase exclusivamente o quarto do rádio-amador.
D. Clement é apaixonado pela solidão da montanha, mas de eremita tem muito pouco.
Está ligado à humanidade com um rádio-amador, com quem comunica para todo o mundo, mais 3 telemóveis, internet, televisão e foguetes de sinalização, os únicos eficazes por vezes, nos 3 meses de Inverno rigoroso que o isolam.
Os mantimentos são guardados num baú gigante que faz lembrar uma arca de Noé. São trazidos de carro uma vez por mês e ali guardados até que seja hora de os repor. Nos meses de Inverno, a arca fica completamente cheia, é previsto ter capacidade para provisões de 90 dias.
“Quando me farto de torradas, começo a fazer pão, mas normalmente isso só acontece nos últimos dias, não perco muito tempo a tentar ter sucesso com as lides domésticas”, explica D. Clement. A farda verde-tropa dá-lhe um ar mais jovem do que tem. “É como a ilusão de me fartar de estar aqui…quando vou de férias, dez a 15 dias para outro lado, só penso em voltar.”

Andes - Torres del Paine, na ponta sul da cordilheira


A muitos quilómetros dali, não longe da Isla Grande de Tierra del Fuego, o sítio mais a sul do continente, Victor Marquez prepara um café. O pó é retirado de uma embalagem que originalmente foi de chocolate quente, mas este guarda-florestal preveniu-se contra as suas próprias distracções e colou-lhe uma tosca etiqueta com o nome do conteúdo actual. Tudo é demasiado precioso para ser desperdiçado, uma vez que, para estarem ali, foram carregados às costas durante algumas horas, portanto os mantimentos ali existentes são os imprescindíveis.
Victor tem 19 anos, pouca paciência para a escola ou uma imensa paixão pelas duas facetas opostas daquele parque e daqueles montes: o convívio e a solidão. Nasceu em Punta Arenas onde reside nos seus cinco dias de folga, que acontecem a cada 12 dias de trabalho.
Punta Arenas é a maior cidade do extremo sul chileno, e fica a 3 horas de autocarro de Puerto Natales, a cidade mais próxima do Parque Nacional Torres del Paine, um dos parques naturais mais conhecidos do Chile, quiçá de toda a Patagónia.
A cidade em si, além dos apelativos “tours”, pouca cor tem. É um aglomerado de casas, em quadras, o que forma um xadrez perfeito de ruas compridas para quem a veja de cima, e óbvio, sempre à espreita de uma qualquer maravilha natural, um lago, um rio, umas montanhas, um vulcão.
Neste caso, Puerto Natales fixou-se na Península de António Varas, o início de mais um dos milhares de desmembramentos de terra de que todo o sul do Chile é desenhado, a conhecida e improvável paisagem de fiordes. Da ilha de Chiloé para sul parece que o território se fragmenta, milhares de ilhas e canais pouco navegáveis.
De Puerto Natales à entrada de Torres del Paine, ainda é necessária uma viagem de duas horas de autocarro. E da entrada do parque até ao posto que Victor ocupa nesta altura do ano, um dos vários acampamentos para os visitantes, “o acampamento chileno”, serão, num ritmo acelerado, mais umas três horas de caminhada. Por isso, “quando volta a casa”, nas palavras de Victor, ou seja, quando viaja de Punta Arenas para “o acampamento chileno”, nunca serão menos que oito horas de caminho, quilómetros de árvores dobradas pelo vento.
“ O vento é um instrumento de limpeza.” começa Victor quando interrogado sobre o porquê da sua paixão por este parque. “O vento da Patagónia lembra-nos todos os dias que é rei e senhor destas paragens, e que se habitamos a sua inóspita casa é porque sabe dos seus próprios poderes terapêuticos para os humanos.”
Do alto dos seus experientes 19 anos, Victor recebe mais um grupo de turistas caminhantes que chegam para visitar as Torres. São três, altas, bonitas, imponentes, com estrias de cima a baixo, um produto soberbo da erosão. Nascem de um conjunto gigante de rochas e elevam-se verticalmente no céu, desafiando nuvens e condores. Na base de tudo isto, uma lagoa verde-esmeralda, onde o vento brinca na água, fazendo remoinhos tremendos, ao ponto de rodopiar por segundos no ar.
Marquez dá as boas-vindas aos recém-chegados e em cinco minutos elucida-os sobre as regras básicas de convivência com a natureza e com os outros. Depois deixa-os à vontade, e volta para a sua barraca, o frio acentuou-se com o chegar da noite, é necessário atirar mais madeira para dentro do fogão a lenha que mantém acesa desde que se levanta até que todo o acampamento esteja em repouso, entregue aos mochos e à chuva miudinha.
Com a cara ruborizada pelo fogo que aviva no seu fogão, Victor diz brincando, como quem ainda não se sente confortável de dizer coisas sérias com um ar sério: “O vento penetra nas pessoas, limpando-as, aliviando-as dos seus stresses e preocupações que carregam, tão ou mais pesadas que as mochilas imprescindíveis ao trekking que se propõem.”
Victor ri ao dizê-lo, mas os seus lábios e os seus olhos contorcem-se com a dor do calor que sai do fogão, dando-lhe uma aparência de mago incorpóreo, com uma expressividade de muitos mais anos do que os que a vida lhe deu até agora. De solidão não se queixa, desde que lhe foi atribuída a responsabilidade do “acampamento chileno”, que antecipa a subida até ás Torres, convive com pessoas de todas as nacionalidades do mundo.
“Faz uma semana que estive a falar com uma senhora tibetana. Refugiou-se em Inglaterra há dez anos, conheceu um senhor inglês com quem se casou e teve 3 filhos.
Visitavam o parque com 2 dos filhos mais velhos”, ilustra Victor. Além disso, este acampamento está à distância de uma hora de um abrigo de escaladores, um dos mais importantes de toda a América do Sul.
Escalar as Torres del Paine é visto como um dos pontos culminantes da vida de escalador experiente. Victor é o ponto de contacto entre esse acampamento e a administração do parque, uma vez que só a sua cabana está equipada com rádio intercomunicador. “Nesse acampamento vive-se um ambiente muito especial”, relata Victor, “chego a encontrar pessoas que vieram do outro lado do mundo e que têm de esperar duas ou três semanas (ás vezes mais) até encontrarem as condições meteorológicas perfeitas para escalar tamanha extensão de rocha.”
“Todos se divertem e dialogam, mas no fundo existe uma atmosfera de concentração e expectativa naquela gente, que escapa à compreensão de nós humanos”, acrescenta com uma gargalhada no final dos seus olhos circunspectos. Victor explica que um dos maiores prazeres do seu trabalho é observar a reacção das pessoas quando confrontadas com as Torres.
A natureza nem sempre permite observá-las, como se só um grupo restrito as pudesse alcançar realmente, uma vez que, quando um manto espesso de nuvens cobre as Torres, é preciso tocar-lhes para poder acreditar que está ali um dos espectáculos mais visitados de toda a América do Sul.
A expressão de encantamento é uma constante em todo o percurso, um conhecido W, que percorre as Torres, os “Cuernos”, e o “Glaciar Grey”.
As paisagens são todas condimentadas com a intensidade da Patagónia, vivificadas pelo vento, montanhas com forma de Cornos, glaciares que se vão derretendo para um lago cintilante azul-turquesa, originando pedaços de gelo de todas as formas, que ao navegarem ao sol produzem, no mínimo, uma sensação de surrealidade.
Não é difícil de entender portanto o orgulho que os funcionários do Parque têm no ofício. Mas Victor tem planos, quer ser biólogo, por agora está só a ganhar dinheiro no que lhe dá prazer trabalhar. Não sabe quando irá, só sabe que vai. “Voltarei sempre aqui, mas depois de vir de muitos outros lados”, afirma. “E o mais engraçado é que já sei que vou viajar por todo o Chile, se puder outros países da América do Sul, para descobrir o que já sei…que este é um dos sítios mais bonitos do mundo.”
O olhar vivo esconde-se atrás do boné da farda que usa. Risca mais um dia que passou no calendário de trabalho e verifica que faltam dois para voltar a Punta Arenas. Retira o pão quente acabado de fazer e barra-lhe manteiga. Condores sobrevoam a região, e há um silêncio no ar que aguarda a expectativa da desordem de uma nova vaga de vento, que agitará o sono dos que já dormem. A noite cai em vários parques do Chile. Os guardas florestais abrigam-se esperando o dia seguinte de trabalho e auto-superação.